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Veja o que já enviamosA estética periférica e a apropriação pelas grandes marcas
A beleza das favelas é um ativo cultural e econômico que merece ser valorizado, respeitado e, acima de tudo, remunerado
Namoral: já perdi a conta de quantas vezes tenho visto a beleza e a criatividade da gente periférica ser explorada. A receita parece seguir o mesmo be-a-bá: grandes marcas chegam, montam seus cenários, vestem seus modelos com um ar de “chiqueza” importada e partem, deixando para trás apenas a poeira da apropriação. É como se a vida pertencente ao rincão e sua estética fossem apenas um pano de fundo, um acessório descartável para vender roupas ou objetos caríssimas.
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Um exemplo? A grife Rabanne, que recentemente usou a Rocinha como cenário e a estética do funk como inspiração. Subiu no salto e desceu sem deixar um tostão para a comunidade, na rapidez dos 150 bpm do bom batidão que movimenta milhões, e que pouco vê a grana chegar nas mãos dos verdadeiros artistas e produtores.

“Hoje em dia, as marcas pegam a estética periférica e transformam em algo que só a elite tem acesso. Mas se eu vou fazer um baile de favela, eu vou fazer um baile de favela para favelado, entende? As marcas querem o que a favela produz, mas não querem o favelado. Para eles é sobre dinheiro; para a gente, é sobre arte, memória e vivência”, sintetiza Abacaxi, mente criativa advinda da Vila Kennedy, zona oeste do Rio. É ele o protagonista do mini-documentário “Estilista de Piña”, recém-lançado, que narra sua trajetória, a apropriação da estética periférica por grandes marcas, além de levantar um debate sobre a acessibilidade dessas criações pelo mercado de luxo e do streetwear.
Para fazer aquilo que é usurpado pelas gigantes, Abacaxi (Jeanderson Martins) – criador da marca de moda Piña, já usada até pela cantora Anitta – levanta cedo: às 5h da manhã já está na costura, fotografando e editando. “É muito trabalho. Mas é a elite que ganha visibilidade com o que a gente vive. O que eu demoro meses para fazer, eles fazem em um dia”, resume o artista que desde os oito anos frequentava o baile e entendia, ainda pequeno, que ali existia uma estética própria.
“O Brasil está em alta e, principalmente, as estéticas que surgem na periferia. O papo sobre a Piña e o trabalho dele acabou abrindo espaço para um assunto que não podíamos deixar de fora: grandes marcas, voltadas para a elite, se apropriando da estética periférica”, enfatiza Luiza Trindade, diretora do mini-doc.
O que é vivido por Abacaxi e tantos outros de periferia é um sintoma crônico: eles criam, inovam e lançam tendências que, meses depois, são copiados e adaptados.

Há solução para essa captura predatória? Talvez não pelo caminho de proibir a inspiração, mas sim fazer com que elas, as marcas, invistam em parcerias reais, colaborações, aportes financeiros, e acima de tudo, no reconhecimento do talento e a criatividade de quem realmente faz a moda acontecer. No papo reto, é parar de ver a periferia como um laboratório de tendências e começar a enxergá-la como um parceiro estratégico.
Usar a favela como cenário é fácil, mas colocar a grana na mão de quem deve, isso sim, é atitude.
A moda tem o poder de transformar vidas, mas para isso, ela precisa parar de apenas “usar” a favela e começar a construir junto com ela. A beleza da Rocinha, da Vila Kennedy e de tantas outras quebradas não é um cenário para fotos, é um ativo cultural e econômico que merece ser valorizado, respeitado e, acima de tudo, remunerado.
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Veja o que já enviamosÉ hora de a moda, finalmente, assumir seu compromisso com a sociedade.
Do contrário, ações que ainda em nome da representatividade, estejam revestidas de um tom de simples utilização pra parecer “cool”, não resolvem o problema. E dizem mais sobre quem se apropria do que cria.
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