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#RioéRua: há 80 anos carioca torce em calçadas e bares

Da transmissão pelo rádio aos telões, Zona Portuária mantém tradição da cidade iniciada no Mundial de 1938


O povo na ruano Largo de São Francisco da Prainha (Foto Oscar Valporto)
O povo na ruano Largo de São Francisco da Prainha (Foto Oscar Valporto)

A tradição começou 80 anos atrás quando a Copa do Mundo de 1938 foi a primeira a ser transmitida para o Brasil pelo rádio por um pool de emissoras (duas do Rio, duas de São Paulo): cariocas – e paulistas também – acompanharam nas ruas as façanhas da seleção pela voz de Leonardo Gagliano Neto, o locutor da Rádio Clube do Brasil, encarregado de narrar os jogos do Mundial na França. No Rio, ao longo da Avenida Rio Branco e nas ruas comerciais do Centro, lojas e até repartições públicas botavam rádios nas calçadas e nas janelas para que torcedores pudessem acompanhar os jogos. A concentração era na Galeria Cruzeiro, no térreo do Hotel Avenida, onde hoje fica o Edifício Avenida Central: o lugar cheio de bares, do lado da estação de ônibus e bondes do Largo da Carioca, era perfeito para desdobrar a festa antes de ir para casa.

A torcida no Amarelinho, na Cinelândia, no jogo entre Basil e Sérvia (Foto Oscar Valporto)
A torcida no Amarelinho, na Cinelândia, no jogo entre Basil e Sérvia (Foto Oscar Valporto)

A torcida pelo Brasil era incentivada pelo governo Vargas que encerrava o expediente mais cedo nos dias de jogo da seleção na antiga capital. Também eram cariocas as estrelas do time brasileiro de 1938, o primeiro a apaixonar o país: o elegante zagueiro Domingos da Guia, nascido em Bangu, formado no Bangu e ex-operário da fábrica Bangu; e o atacante Leônidas da Silva, nascido em São Cristóvão, revelado pelo Bonsucesso, o inventor da bicicleta, o Homem-Borracha, o Diamante Negro, apelido que emprestaria nome ao chocolate da Nestlé que existe até hoje.  Também jogavam em times cariocas – Domingos e Leônidas estavam no Flamengo em 1938 – outros 16 jogadores da seleção que terminaria em terceiro lugar na Copa do Mundo da França. Uma multidão estava na Praça Mauá para receber com festa a seleção ao desembarcar do navio que a trouxe da França.

Doze anos depois, a festa foi maior ainda porque estava previsto o título mundial para o Brasil, conquistado em casa, no novíssimo Maracanã, construído para ser o maior estádio do planeta. Na Copa do Mundo de 1950, o Rio – como outras cidades do país – ganhou bandeiras nas janelas e nas ruas, lojas e casas enfeitadas, tudo para comemorar o título que não veio. Ainda era o rádio que contava a história das partidas para quem não podia ir ao estádio; ainda era na rua que muitos acompanhavam, pelos rádios colocados nas varandas e nas calçadas ou por alto-falantes em praças do subúrbios, as façanhas da seleção formada novamente em maioria por jogadores de times cariocas como o elegante meia Danilo e o artilheiro Ademir Menezes, ambos do Vasco, o jovem Nilton Santos, do Botafogo, e o craque Zizinho, do Bangu.

Em bares da Sacadura Cabral, torcida concentrada (Foto Oscar Valporto)
Em bares da Sacadura Cabral, torcida concentrada (Foto Oscar Valporto)

Já tinha TV no Brasil no bicampeonato de 1958/1962, mas ainda foi pelo rádio e, mais do que nunca, nas ruas que a torcida acompanhou as campanhas da seleção na Suécia e no Chile. Acompanhar o jogo do Brasil pelo rádio, tomando uma cerveja com a galera, já era um programa tão popular que, na final da Copa de 58, a TV Tupi transmitiu a final da seguinte forma: áudio da transmissão pela Rádio Tupi, com narração do grande Oduvaldo Cozzi, e imagens ao vivo da torcida na Cinelândia, acompanhando o jogo pelos rádios dos bares. No Rio, essa paixão pela seleção bicampeã era alimentada também pela ligação com seus craques: Garrincha, nascido em Pau Grande (Magé), Didi, de Campos, Nilton Santos, da Ilha do Governador, trio de jogadores do Botafogo que faziam parte da alma carioca.

Para este cronista, a primeira Copa do Mundo na memória é a de 70 – apesar de meu pai jurar que eu aprendi a falar gol com os locutores de 62. Já tinha TV, vi todos os jogos do Brasil, era sempre feriado (ou parecia). Noventa milhões em ação, pra frente, Brasil, salve a seleção. Depois, a gente aprende que a ditadura estava faturando que o tricampeonato, mas a música do Miguel Gustavo – feita para os patrocinadores da transmissão pela TV – era mesmo legal, a seleção espetacular e as ruas estavam todas embandeiradas de verde e amarelo. O Rio também tinha do que se orgulhar: o capitão Carlos Alberto nasceu em São Cristóvão, o xerife Brito, na Ilha, o maestro Gérson, em Niterói, o furacão Jairzinho, em Caxias, Paulo Cesar, numa favela de Botafogo.

A festa na Praça Mauá, com telão (Foto Oscar Valporto)
A festa na Praça Mauá, com telão (Foto Oscar Valporto)

A TV tomou o lugar do rádio também na Copa das ruas e os torcedores passaram a acompanhar os jogos por televisores cada vez maiores até chegar aos telões de hoje.  A animação nas ruas do Rio começou a tomar grandes proporções nas Copas de 1982 e 1986 com as pinturas nas paredes e no asfalto e as torcidas de vizinhos organizadas e, depois de dar uma arrefecida com mais o fracasso de 1990, veio o título de 1994. Era a seleção de Romário, nascido no Jacarezinho, criado na Vila da Penha, figura fácil da praia e da noite carioca, ídolo de Vasco e Flamengo. Oito anos depois, penta na Ásia com o artilheiro Ronaldo, fenômeno de Bento Ribeiro, cria do São Cristóvão.

Antes da Copa, o Alzirão não tinha sombra do verde-e-amarelo (Foto Oscar Valporto)
Antes da Copa, o Alzirão não tinha sombra do verde-e-amarelo (Foto Oscar Valporto)

Mas o futebol vai virando negócio e até torcida parece começar a precisar de patrocinador. Com o mundo globalizado, cada vez menos ruas pintadas, cada vez menos bandeiras nas janelas, cada vez menos bares lotados com torcida acompanhando a seleção. Foi diferente em 2014, é claro, mas foi a invasão de torcedores de todos os continentes que trouxeram o clima de Mundial  para o Brasil. Mas, quatro anos e um 7×1 depois, a dois dias do começo da Copa do Mundo na Rússia, circulei por alguns pontos tradicionais do Rio atrás daquele espírito canarinho: nada na Miguel Lemos, em Copacabana, onde comecei uma reportagem com ‘Carnaval em junho’ após uma vitória do Brasil em 1986; nada na Alzira Brandão, na Tijuca, tradicional ponto de encontro desde 1982 que só tem torcida organizada agora porque a Globo e a Ambev decidiram promover; só a Pereira Nunes, em Vila Isabel, mantinha a tradição do asfalto pintado e dos enfeites em verde e amarelo.

A rua Pereira Nunes no período pré-Copa (Foto Oscar Valporto)
A rua Pereira Nunes no período pré-Copa (Foto Oscar Valporto)

Achei que a tradição de 1938 estava ameaçada quando comecei a circular pelo Centro no dia do jogo contra a Sérvia que não era num familiar domingo como o da estreia e nem às 9h da matina: tinha torcida no Amarelinho da Cinelândia, mas também tinha mesa vazia; nas imediações do Largo da Carioca, um deserto e a galeria do Avenida Central de portas cerradas. Foi quando vi passar o trem do VLT apinhado de camisas da seleção, na direção Praia Formosa. Lembrei que tinha um telão na Praça Mauá. Um telão era grande; a multidão muito maior, bem ruim de ver jogo até para quem se pendurou na estátua do barão. Mas o melhor foi ver a torcida se espalhando pela rua e pelos bares da Sacadura Cabral, passando pelo Largo de São Francisco da Prainha. pela Pedra do Sal até chegar na Praça da Harmonia. E tem gol da seleção com passe do craque Phillipe Coutinho, carioca do Rocha; gol da classificação de Thiago Silva, carioca de Santa Cruz. Tradição das ruas do Rio garantida, agora só falta o hexa…

#RioéRua  

 


Escrito por Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Está de volta ao Rio após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. É criador da página no Facebook #RioéRua, onde publica crônicas sobre suas andanças pela cidade.

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