
A tradição começou 80 anos atrás quando a Copa do Mundo de 1938 foi a primeira a ser transmitida para o Brasil pelo rádio por um pool de emissoras (duas do Rio, duas de São Paulo): cariocas – e paulistas também – acompanharam nas ruas as façanhas da seleção pela voz de Leonardo Gagliano Neto, o locutor da Rádio Clube do Brasil, encarregado de narrar os jogos do Mundial na França. No Rio, ao longo da Avenida Rio Branco e nas ruas comerciais do Centro, lojas e até repartições públicas botavam rádios nas calçadas e nas janelas para que torcedores pudessem acompanhar os jogos. A concentração era na Galeria Cruzeiro, no térreo do Hotel Avenida, onde hoje fica o Edifício Avenida Central: o lugar cheio de bares, do lado da estação de ônibus e bondes do Largo da Carioca, era perfeito para desdobrar a festa antes de ir para casa.
A torcida pelo Brasil era incentivada pelo governo Vargas que encerrava o expediente mais cedo nos dias de jogo da seleção na antiga capital. Também eram cariocas as estrelas do time brasileiro de 1938, o primeiro a apaixonar o país: o elegante zagueiro Domingos da Guia, nascido em Bangu, formado no Bangu e ex-operário da fábrica Bangu; e o atacante Leônidas da Silva, nascido em São Cristóvão, revelado pelo Bonsucesso, o inventor da bicicleta, o Homem-Borracha, o Diamante Negro, apelido que emprestaria nome ao chocolate da Nestlé que existe até hoje. Também jogavam em times cariocas – Domingos e Leônidas estavam no Flamengo em 1938 – outros 16 jogadores da seleção que terminaria em terceiro lugar na Copa do Mundo da França. Uma multidão estava na Praça Mauá para receber com festa a seleção ao desembarcar do navio que a trouxe da França.
Doze anos depois, a festa foi maior ainda porque estava previsto o título mundial para o Brasil, conquistado em casa, no novíssimo Maracanã, construído para ser o maior estádio do planeta. Na Copa do Mundo de 1950, o Rio – como outras cidades do país – ganhou bandeiras nas janelas e nas ruas, lojas e casas enfeitadas, tudo para comemorar o título que não veio. Ainda era o rádio que contava a história das partidas para quem não podia ir ao estádio; ainda era na rua que muitos acompanhavam, pelos rádios colocados nas varandas e nas calçadas ou por alto-falantes em praças do subúrbios, as façanhas da seleção formada novamente em maioria por jogadores de times cariocas como o elegante meia Danilo e o artilheiro Ademir Menezes, ambos do Vasco, o jovem Nilton Santos, do Botafogo, e o craque Zizinho, do Bangu.
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Veja o que já enviamosJá tinha TV no Brasil no bicampeonato de 1958/1962, mas ainda foi pelo rádio e, mais do que nunca, nas ruas que a torcida acompanhou as campanhas da seleção na Suécia e no Chile. Acompanhar o jogo do Brasil pelo rádio, tomando uma cerveja com a galera, já era um programa tão popular que, na final da Copa de 58, a TV Tupi transmitiu a final da seguinte forma: áudio da transmissão pela Rádio Tupi, com narração do grande Oduvaldo Cozzi, e imagens ao vivo da torcida na Cinelândia, acompanhando o jogo pelos rádios dos bares. No Rio, essa paixão pela seleção bicampeã era alimentada também pela ligação com seus craques: Garrincha, nascido em Pau Grande (Magé), Didi, de Campos, Nilton Santos, da Ilha do Governador, trio de jogadores do Botafogo que faziam parte da alma carioca.
Para este cronista, a primeira Copa do Mundo na memória é a de 70 – apesar de meu pai jurar que eu aprendi a falar gol com os locutores de 62. Já tinha TV, vi todos os jogos do Brasil, era sempre feriado (ou parecia). Noventa milhões em ação, pra frente, Brasil, salve a seleção. Depois, a gente aprende que a ditadura estava faturando que o tricampeonato, mas a música do Miguel Gustavo – feita para os patrocinadores da transmissão pela TV – era mesmo legal, a seleção espetacular e as ruas estavam todas embandeiradas de verde e amarelo. O Rio também tinha do que se orgulhar: o capitão Carlos Alberto nasceu em São Cristóvão, o xerife Brito, na Ilha, o maestro Gérson, em Niterói, o furacão Jairzinho, em Caxias, Paulo Cesar, numa favela de Botafogo.
A TV tomou o lugar do rádio também na Copa das ruas e os torcedores passaram a acompanhar os jogos por televisores cada vez maiores até chegar aos telões de hoje. A animação nas ruas do Rio começou a tomar grandes proporções nas Copas de 1982 e 1986 com as pinturas nas paredes e no asfalto e as torcidas de vizinhos organizadas e, depois de dar uma arrefecida com mais o fracasso de 1990, veio o título de 1994. Era a seleção de Romário, nascido no Jacarezinho, criado na Vila da Penha, figura fácil da praia e da noite carioca, ídolo de Vasco e Flamengo. Oito anos depois, penta na Ásia com o artilheiro Ronaldo, fenômeno de Bento Ribeiro, cria do São Cristóvão.
Mas o futebol vai virando negócio e até torcida parece começar a precisar de patrocinador. Com o mundo globalizado, cada vez menos ruas pintadas, cada vez menos bandeiras nas janelas, cada vez menos bares lotados com torcida acompanhando a seleção. Foi diferente em 2014, é claro, mas foi a invasão de torcedores de todos os continentes que trouxeram o clima de Mundial para o Brasil. Mas, quatro anos e um 7×1 depois, a dois dias do começo da Copa do Mundo na Rússia, circulei por alguns pontos tradicionais do Rio atrás daquele espírito canarinho: nada na Miguel Lemos, em Copacabana, onde comecei uma reportagem com ‘Carnaval em junho’ após uma vitória do Brasil em 1986; nada na Alzira Brandão, na Tijuca, tradicional ponto de encontro desde 1982 que só tem torcida organizada agora porque a Globo e a Ambev decidiram promover; só a Pereira Nunes, em Vila Isabel, mantinha a tradição do asfalto pintado e dos enfeites em verde e amarelo.
Achei que a tradição de 1938 estava ameaçada quando comecei a circular pelo Centro no dia do jogo contra a Sérvia que não era num familiar domingo como o da estreia e nem às 9h da matina: tinha torcida no Amarelinho da Cinelândia, mas também tinha mesa vazia; nas imediações do Largo da Carioca, um deserto e a galeria do Avenida Central de portas cerradas. Foi quando vi passar o trem do VLT apinhado de camisas da seleção, na direção Praia Formosa. Lembrei que tinha um telão na Praça Mauá. Um telão era grande; a multidão muito maior, bem ruim de ver jogo até para quem se pendurou na estátua do barão. Mas o melhor foi ver a torcida se espalhando pela rua e pelos bares da Sacadura Cabral, passando pelo Largo de São Francisco da Prainha. pela Pedra do Sal até chegar na Praça da Harmonia. E tem gol da seleção com passe do craque Phillipe Coutinho, carioca do Rocha; gol da classificação de Thiago Silva, carioca de Santa Cruz. Tradição das ruas do Rio garantida, agora só falta o hexa…
#RioéRua