Compartilhar, , Google Plus, Linkedin, Whatsapp,

Imprimir

Publicado em

E se os terroristas vierem aos Jogos Olímpicos?

Brasil promete mobilização histórica, mas ainda faltam lei e inteligência


Treinamento da polícia de Londres, no rio Tâmisa, antes dos Jogos Olímpicos de 2012
Treinamento da polícia de Londres, no rio Tâmisa, antes dos Jogos Olímpicos de 2012

O presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), Thomas Bach, que chega nos próximos dias ao Rio para supervisionar o andamento das obras e preparações para as Olimpíadas de 2016, disse que, embora o terrorismo seja um fenômeno que pode surgir em qualquer local, as autoridades brasileiras serão “hábeis” ao garantir a segurança dos Jogos no Rio. Ele se referia à preocupação óbvia de nove entre dez pessoas sobre como garantir a segurança contra o terror durante um megaevento num país que não é exatamente um especialista no assunto, nem enfrenta algo remotamente parecido com o que aconteceu semana passada em Paris. “Confiamos na cooperação entre os agentes do Brasil e globais para assegurarmos proteção ao evento contra agressões dessa natureza”, disse.

Em fins de julho, o secretário estadual de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame, anunciou com pompa o esquema de segurança para os jogos, considerado o maior da História no país. Serão 85 mil profissionais, 47,5 mil vindos da Força Nacional de Segurança. O secretário Extraordinário de Segurança em Grandes Eventos, do Ministério da Justiça, Andrei Rodrigues, e o assessor especial para Grandes Eventos do Ministério da Defesa, general Luiz Felipe Linhares, anunciaram a criação do Centro Integrado de Enfrentamento ao Terrorismo (CIET), responsável pelo trabalho de inteligência integrada das forças: militares das Forças Armadas e da Força Nacional, policiais civis e militares do estado do Rio e do município, além  da segurança privada, paga pelo COI e estimada em R$ 252 milhões. Os equipamentos incluirão, além dos armamentos típicos, câmeras, balões e drones para ampliar os olhos de quem tem a preciosa missão de garantir a integridade de milhares de atletas e espectadores, do Brasil e de fora.

Confiamos na cooperação entre os agentes do Brasil e globais para assegurarmos proteção ao evento contra agressões dessa natureza

Thomas Bach
Presidente do Comitê Olímpico Internacional

O mesmo Rodrigues anunciou recentemente que os atentados terroristas em Paris não alteram a preparação dos Jogos Olímpicos do Rio, cuja segurança estará totalmente a cargo do Estado. Isso porque em Londres, em 2012, constataram-se inúmeras falhas na segurança privada contratada pelo COI nos estádios por problemas que iam de falta de treinamento pura e simples à falta de coordenação com os agentes públicos. É isso que se quer evitar.

O CIET ainda nem foi instalado, mas espero com todas as forças que o trabalho de inteligência já tenha começado. Na Copa de 2014, o Brasil contou com o apoio internacional de inteligência de 40 países. É preciso aumentar esse número para os Jogos de 2016. Porque vira e mexe eu ouço que o Brasil não é alvo preferencial do terror e que os terroristas concentram suas ações em países de passado colonialista ou de lutas contra países islâmicos ou considerados infiéis. Bem, em primeiro lugar, para os radicais religiosos islâmicos – ou qualquer radical religioso, aliás – infiel é todo mundo que não comunga da sua fé. Ou seja, se ficarmos somente nessa definição, o Brasil é tão infiel ao Islã quanto os EUA. Ou a China, para ficar no terreno de países sem religião predominante, mas que também combatem “os que se opõem à crença da maioria” (no caso da China, o governo de Pequim).

Em segundo lugar, é bom perceber que a Olimpíada é no Brasil, mas aqui estarão atletas de vários países que são alvos constantes do terror. Não nos esqueçamos da Tragédia de Munique, quando 11 atletas de Israel foram mortos pelo grupo terrorista palestino Setembro Negro durante as Olimpíadas alemãs em 1972. A explosão de uma bomba no Centennial Olympic Park em Atlanta, em 1996, matou um e feriu mais de cem pelo reacionário americano Eric Rudolph. O terror tem muitas faces.

Por fim, não é de todo verdade que não convivamos, em nosso território, com ações ligadas a grupos de terror. Em abril passado, a imprensa daqui noticiou um relatório do Departamento de Estado dos EUA na qual o governo de Barack Obama demonstrava sua preocupação com o controle da região da Tríplice Fronteira, em Foz do Iguaçu (Brasil, Argentina e Paraguai). O relatório, que fazia um balanço da região, avisava: “Em 2013, os governos da América Latina promoveram melhorias modestas em suas habilidades de contraterrorismo e na segurança de suas fronteiras. Corrupção, instituições fracas, cooperação insuficiente entre agências, legislações inexistentes ou fracas e falta de recursos continuam a ser as causas principais para a ausência de progressos significativos em alguns países”.

Por ali, já noticiou a imprensa brasileira, passam armamentos e dinheiro que ajudam as ações de terror pelo mundo. É o caso do egípcio Khaled el-Din que, segundo a revista Veja, “hospedou em Foz do Iguaçu um dos principais líderes da rede terrorista Al Qaeda, Khalid Shaikh Mohammed, que tempos depois se descobriria ser um dos principais arquitetos do atentado às Torres Gêmeas em Nova York, em 2001, e acabaria preso na base militar de Guantánamo, em Cuba”.

No Congresso, estão estacionados projetos de lei importantes contra o terrorismo, cujo crime não consta da legislação brasileira. Em outubro, o Senado aprovou o texto geral do projeto de lei que tipifica este crime, mas como alterações foram feitas, ele voltou para a apreciação da Câmara, cujo presidente está mais preocupado em salvar a própria cabeça, a qualquer custo, do que legislar efetivamente. Então isso é uma preocupação de fato. A legislação parece óbvia, mas não é. Antes de ir para o Senado, os deputados aprovaram um texto em que se dizia que a lei não se aplicava a manifestações sociais. Não se sabe porque razão, os senadores decidiram suprimir esse trecho, sem explicar porque uma passeata de professores em greve na Cinelândia pode ser considerada um ato terrorista. Os tamanhos da pena também mudaram: os deputados queriam penas de 12 a 30 de prisão. Senadores propuseram 16 a 24 anos, aumentando se houver mortes ou tendo como alvo os ocupantes dos mais altos cargos da República. Espera-se que a gente não chegue a 2016 sem uma legislação a respeito.

E há problemas pontuais, mas importantíssimos. Em entrevista à BBC Brasil, Paulo Storani, ex-capitão do Bope entre 1994 e 1999 e professor da Universidade Cândido Mendes, relembrou o incidente ocorrido na Copa do Mundo, quando torcedores chilenos invadiram o Maracanã. “É imprescindível que este trabalho ocorra de forma muito bem planejada e coordenada, e que as estruturas sejam finalizadas a tempo. Na Copa alguns estádios operaram sem todas as condições de segurança totalmente prontas”, disse ele ao site. Assaltos, protestos, guerra de traficantes em comunidades de geografia complicada, como o Complexo da Maré, tudo isso precisa de um plano próprio de ação. Que já deveria estar em atividade, aliás.

 


Escrito por Gilberto Scofield

É jornalista e, atualmente, trabalha como consultor de comunicação da Secretaria de Comunicação da Presidência da República, em Brasília. Além de ser sócio-fundador da empresa Butique Comunicação e marca. Foi editor do jornal O Globo e repórter especial da sucursal de São Paulo após ter passado cinco anos como correspondente em Pequim, na China, e dois anos como correspondente em Washington, nos EUA. retornando ao Brasil em 2010. É colaborador da Globonews, comentarista da rádio CBN e autor do livro "Um brasileiro na China", publicado em 2006. Autor dos blogs "No Império – impressões de um brasileiro na capital dos EUA" e "No Oriente diário de um brasileiro na China“ (Globo Online). Ao longo de sua carreira, escreveu para o Jornal do Commercio, do Rio, Revista Exame, Jornal do Brasil, O Estado de São Paulo, Revista Época, IG Finance, O Globo e Globo Online.

9 posts

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *