Cidades mais sustentáveis, menos epidemias

Epidemiologista aponta que desmatamento e mudanças climáticas aumentam a probabilidade de vírus atingirem população humana

Por Bibiana Maia | ods11 • Publicada em 26 de março de 2020 - 08:15 • Atualizada em 29 de março de 2020 - 10:46

De acordo com os dados do IBGE, os aglomerados subnormais, como são chamadas as favelas, teriam uma cobertura de esgoto de 82,2%

Definida pela Organização das Nações Unidas como um “um plano de ação para as pessoas, para o planeta e para a prosperidade”, a Agenda 2030 reúne entre seus 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável metas que poderiam tornar as cidades mais preparadas para enfrentar pandemias como a Covid-19, que assola o mundo inteiro neste momento. Segundo Eduardo Faerstein, professor associado do Departamento de Epidemiologia do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), epidemias podem se tornar cada vez mais comuns com desmatamento e mudanças climáticas.

A mudança de fronteiras agrícolas, com avanço da área de cultivo através do desmatamento, faz com que o ser humano entre em contato com áreas que não eram habitadas. Nestes ciclos silvestres, antes restritos, há animais hospedeiros intermediários e transmissores de vírus novos para nós. “Com o desmatamento, entramos em áreas antes desconhecidas, onde há microorganismo que o ser humano não tinha experiências”, explica o pesquisador. As mudanças climáticas, por sua vez, com o aumento de temperatura, colaboram para a proliferação de vetores como mosquitos, caso do aedes aegypti, transmissor de doenças como a dengue, chikungunya e zika. Atender aos ODS diminuiria os impactos de epidemias.

Especificamente o ODS 11, que trata de Cidades e Comunidades Sustentáveis, traz sete metas que, segundo o pesquisador, são um norte para enfrentar o problema, ao tratar de temas como urbanização de favelas, expansão de transporte público, qualidade do ar, planejamento do desenvolvimento regional e apoio a países menos desenvolvidos por meio de assistência técnica e financeira.

“O enfoque tem que ser multissetorial. A agenda 2030 adota como princípio que as dimensões do desenvolvimento, econômicas, sociais e ambientais, são indissociáveis. Esse é o grande avanço que traz em relação a outros compromissos e metas internacionais”, explica o epidemiologista.

Isso só vai ser resolvido, de forma mais completa, com ampla cooperação internacional e ampla solidariedade. Tem que ser uma contra-corrente poderosa às tendências isolacionistas e xenófobas que emergiram nos últimos anos em muitos países do mundo

epidemiologista

Faerstein explica que, quando a pandemia passar, é preciso investir em habitação, mobilidade urbana e saneamento da cidade. Quando este tripé está precarizado, crescem as chances de contágio e a gravidade dos quadros clínicos. Segundo o Censo de 2010 do IBGE, 6% da população brasileira vive nos chamados aglomerados subnormais, que englobam favelas, loteamentos e outros tipos de construções iregulares. No Rio de Janeiro, por exemplo, 22% da população, cerca de 1,4 milhão de pessoas, vivem nestas condições.

“Não só as favelas são mais aglomeradas como cada domicílio também tende a ter mais pessoas por cômodo. Então, a ventilação é prejudicada e doenças de transmissão respiratória, como a Covid-19, oferecem para essas populações um risco maior. E os mais pobres tendem a usar o transporte público, que costuma ser mais cheios. Além disso, a mortalidade atinge pessoas mais idosas, que geralmente têm outros problemas de saúde. Os mais pobres sofrem mais de hipertensão, diabetes, doença renal crônica, e, em geral, têm essas condições de modo menos controlado porque o acesso ao serviço de saúde é menor. Tudo isso leva a que os mais pobres tenham mais probabilidade de contrair a infecção e de a doença evoluir de forma mais grave”, analisa Faerstein.

Além do investimento em urbanização e expansão do transporte público, para reverter o quadro da chamada aglomeração subnormal, é preciso investir em saneamento. Segundo o Ranking do Saneamento Básico 2020, do Instituto Trata Brasil, os indicadores de acesso a água e esgotamento sanitário estão estagnados. O estudo mostra que 16,38% da população brasileira não têm acesso ao abastecimento de água (quase 35 milhões de pessoas), e 46,85% não dispõem da cobertura da coleta de esgoto (mais de 100 milhões). A situação é caótica em uma pandemia cuja recomendação frequente é higienizar bem as mãos.

Eduardo Faerstein
O pesquisador Eduardo Faerstein afirma que mudanças climáticas aumentam a probabilidade de epidemias (Foto: divulgação)

 Outro ponto ainda é a qualidade do ar. Apenas nove estados fazem o monitoramento no Brasil, integrando a Plataforma Nacional de Qualidade do Ar, desenvolvida pelo Instituto de Energia e Meio Ambiente. Segundo o estudo Saúde Brasil 2018, do Ministério da Saúde, as mortes em decorrência da poluição atmosférica aumentaram 14% entre 2006 e 2016. O pesquisador explica que existe uma relação indireta com a pandemia atual, pois a poluição está relacionada a doenças crônicas como asma e hipertensão, que tornam as pessoas mais vulneráveis aos efeitos da Covid-19. 

Faerstein aponta para a meta 11.7, a cooperação internacional, como caminho para a solução da pandemia da Covid-19, assim como outras que possam acontecer no futuro, e cita a erradicação da varíola entre 1966 e 1980, como exemplo de sucesso. “Isso só vai ser resolvido, de forma mais completa, com ampla cooperação internacional e ampla solidariedade. Tem que ser uma contra-corrente poderosa às tendências isolacionistas e xenófobas que emergiram nos últimos anos em muitos países do mundo. Você não consegue resolver isso individualmente num país, depende de uma articulação de colaboração e estratégia”. 

 

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Bibiana Maia

Jornalista formada pela PUC-Rio com MBA em Gestão de Negócios Sustentáveis pela UFF. Trabalhou no Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio) e nos jornais O Globo, Extra e Expresso. Atualmente é freelancer e colabora com reportagens para jornais e sites.

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