A grande arte do Sr. Rubem nas ruas do Leblon

Uma breve história sobre o lado ambientalista de um dos maiores escritores brasileiros

Por Agostinho Vieira | ods11 • Publicada em 15 de abril de 2020 - 20:05 • Atualizada em 16 de abril de 2020 - 12:18

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O escritor Rubem Fonseca e o seu Ipê-Amarelo na Praça Antero de Quental, no Leblon. Foto Rodrigo Camarão

Para a maioria das pessoas ele é um escritor e roteirista famoso, um dos mais premiados do Brasil. Reservado e misterioso, como alguns dos seus personagens. Mas para uns poucos privilegiados que esbarram com ele nas ruas do Leblon, é apenas o Sr. Rubem, um sujeito boa praça, simpático, bom contador de histórias, amante de um bom café e que vive com o seu inseparável bonezinho.

O Sr. Rubem ou José Rubem Fonseca, com a energia dos seus 85 anos, não aceita sacolas plásticas e volta e meia é visto discutindo com porteiros do bairro que insistem em “varrer” as calçadas com um jato de água, caprichosamente, até verem as folhas caindo no bueiro. Algumas vezes já chegou a procurar os síndicos parar reclamar do desperdício. Nem sempre com sucesso.

No entanto, a mais recente batalha do Sr. Rubem é para salvar uma pequena árvore que vive na Praça Antero de Quental. Trata se um franzino Ipê-amarelo, uma das árvores mais conhecidas, cultivadas e bonitas do Brasil. Ele conta que no início eram oito árvores, que um dia foram plantadas pela Fundação Parques e Jardins:

“Infelizmente, todas morreram e só sobrou essa pequena que eu tento proteger. Dou um dinheiro para o rapaz da loja de plantas, que fica na praça, para ele regar de vez em quando e ficar de olho quando não estou por perto”, conta Rubem Fonseca.

Toda quinta-feira acontece a feira de produtos orgânicos na Antero de Quental. E lá está o Sr. Rubem, logo cedo, para evitar que alguma barraca seja montada perto dos galhos frágeis do Ipê. Ele diz que já ligou duas vezes para a prefeitura pedindo para colocar uma grade no local. Tudo em vão, até agora nada aconteceu. Esta semana um vândalo quebrou um dos galhos. Caro prefeito Eduardo Paes, faça uma grande arte pela cidade e salve a árvore do Sr. Rubem.

O Ipê-Amarelo do Sr. Rubem, hoje, ainda franzino, mas protegido pelas grandes. Foto Oscar Valporto
O Ipê-Amarelo do Sr. Rubem, hoje, ainda franzino, mas protegido pelas grandes. Foto Oscar Valporto

Se você chegou até aqui já percebeu que este texto não é atual. O escritor Rubem Fonseca, que morreu de um infarto nesta quarta-feira (15), não tinha 85 anos, já estava com 94. O prefeito da cidade não é mais Eduardo Paes. E a feira de produtos orgânicos não está sendo mais montada na Praça Antero de Quental por conta da pandemia da Covid-19. Todo o resto continua valendo. O Sr. Rubem manteve as caminhadas pelas ruas do Leblon até o final da vida, assim como as brigas com os porteiros e o carinho pelo Ipê-amarelo. Esse texto foi publicado originalmente no dia 17 de novembro de 2010, na coluna “Eco Verde”, que eu assinava no jornal O Globo.

Rubem Fonseca era um companheiro bissexto dos cafés que tomávamos no final da tarde, na Kopenhagen da Ataulfo de Paiva. Foi ali que ele me contou a história dos porteiros, das sacolas, do Ipê e algumas outras. Como os relatos sobre os almoços com João Ubaldo Ribeiro e a decisão de jamais aceitar um convite para entrar na Academia Brasileira de Letras. Foi o Sr. Rubem também que me apresentou o poeta português Antero de Quental, que para mim, até então, era só um nome de praça.

Depois do texto publicado no Globo, a Fundação Parques e Jardins decidiu dar um carinho especial para o Ipê-amarelo do Sr. Rubem. Ele foi transferido para um local mais seguro, cercado e protegido. Depois desse episódio não encontrei mais Rubem Fonseca no café: “são as recomendações médicas”, me disse. Só o via andando nas calçadas, certamente pelos mesmos motivos. Em casa, guardo com carinho os livros autografados que ele me deu na ocasião e uma mensagem muito especial:

“Meu caro Agostinho

Leio todas as quintas-feiras a sua coluna no Globo, sempre com grande prazer. A de hoje foi ainda mais agradável de ler, quando você, mais uma vez, protege a “minha” árvore. Acho que devo dizer “a nossa” árvore, levando em conta tudo que você tem feito por ela.

Um forte abraço,

Rubem Fonseca”

Agostinho Vieira

Formado em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ. Foi repórter de Cidade e de Política, editor, editor-executivo e diretor executivo do jornal O Globo. Ainda na Infoglobo, empresa que administra os jornais O Globo, Extra e Valor Econômico, exerceu por oito anos a função de diretor executivo de Negócios. Também foi diretor do Sistema Globo de Rádio e da Rádio CBN. Ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo, em 1994, e dois prêmios da Society of Newspaper Design, em 1998 e 1999. Tem pós-graduação em Gestão de Negócios pelo Insead (Instituto Europeu de Administração de Negócios) e em Gestão Ambiental pela Coppe/UFRJ. Atualmente é Editor Chefe do Projeto #Colabora.

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