Pandemia mostra que empresas precisam incluir as pessoas no centro dos negócios

Durante roda de conversa virtual da série ReVisão 2050, promovida pelo CEBDS, especialistas apontaram caminhos para um maior engajamento social do setor privado diante das desigualdades do país.

Por Yuri Fernandes | ODS 10 • Publicada em 18 de junho de 2020 - 12:32 • Atualizada em 22 de junho de 2020 - 09:25

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Especialistas apontam que setor privado precisa assumir papel social a partir de atuação coletiva, valor compartilhado, maior diversidade e inclusão nos negócios (Foto: Airfocus)

Os principais questionamentos do samba-enredo da União da Ilha do Governador de 1978 voltaram a guiar muitos dos nossos pensamentos por conta da pandemia que o mundo enfrenta. Afinal, “O que será o amanhã? Como vai ser o meu destino?”. Muita gente pode não conhecer a composição de Paulo Amargoso e João Sérgio que rendeu o título de campeã do carnaval carioca para a agremiação. Fato é que, com a referência ou não, a humanidade está se perguntando sobre o futuro pós-coronavírus. As empresas não ficam fora disso. O segundo evento virtual da série de debates ReVisão 2050 promovida pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) discutiu o assunto e concluiu que, mais do que nunca, é preciso colocar o foco dos negócios nas pessoas.

O objetivo da roda de conversas é planejar e construir diretrizes de longo prazo para a retomada dos negócios pós-pandemia, acelerando a transição para uma nova economia. Quinzenalmente, acontecem as discussões abertas entre as 60 empresas associadas, especialistas multissetoriais, e representantes do terceiro setor.  O #Colabora é um dos apoiadores da iniciativa e vai acompanhar todos os debates.

Além dos quatro setores econômicos atuais (setor primário, industrial, serviços e governo), veremos um quinto, híbrido e formado por diferentes atores da sociedade. Será a economia do cuidado.

Valdemar Oliveira Neto
CEO da WTT

Diante dos novos desafios impostos pela onda de coronavírus, é preciso pensar e agir: como materializar a necessidade de transportar as pessoas para o centro das estratégias e potencializar os impactos positivos nas cadeias produtivas? Representantes do Itaú e Natura – que fizeram parte do webinar – apontaram para alguns caminhos: I. Maior investimento ou participação na gestão da saúde pública; II. Eliminar a postura de competição e compartilhar ideias e tecnologias com empresas concorrentes; III: Promover mais ainda a diversidade e inclusão.

Segundo Marina Grossi, presidente do CEBDS, a atual década é justamente o momento de implementação e ação para que a visão traçada para 2050 seja atingida. O documento Visão Brasil 2050 é uma agenda de negócios para o país com o foco em promover um futuro sustentável. Foi elaborado em discussões realizadas com 74 das maiores empresas brasileiras, associadas à CEBDS. “Estamos falando da construção de um novo modelo de capitalismo, que tem que ter propósito e impacto positivo para as pessoas; de um novo modelo de trabalho, que está em constante transformação em razão das novas tecnologias e agora em processo acelerado de mudança em função da crise do coronavírus; e de uma nova liderança, que precisa perceber que precisamos de novos paradigmas”, explicou Marina.

Repensando os modelos de negócios

Como as empresas, então, devem reorientar seus negócios para promover o bem-estar e combater a desigualdade social do país? A pergunta, feita por Luciana Nicola, superintendente de Relações Institucionais, Sustentabilidade e Negócios Inclusivos do Itaú, abriu o diálogo entre os participantes. “As empresas têm a capacidade de colocar as ações em rede e dar escala a elas. Nesse sentido, temos muito a contribuir quando falamos de modelos de negócios, novas formas de trabalho e capacidade de liderança”, acredita Luciana.

As empresas têm a capacidade de colocar as ações em rede e dar escala a elas. Nesse sentido, temos muito a contribuir quando falamos de modelos de negócios, novas formas de trabalho e capacidade de liderança

Luciana Nicola
Itaú

O desemprego, sem dúvidas, vai ser uma das maiores heranças da pandemia do ponto de vista econômico. Estima-se que cerca de 8 milhões de pessoas fiquem sem trabalho no Brasil. “Além dos quatro setores econômicos atuais (setor primário, industrial, serviços e governo), veremos um quinto, híbrido e formado por diferentes atores da sociedade. Será a economia do cuidado. Teremos que garantir o trabalho mínimo, o cuidado com os idosos e crianças, produzir cultura e entretenimento. Temos que pensar em novas formas para garantir um mínimo de remuneração e renda”, acredita Valdemar Oliveira Neto, CEO da World-Transforming Technologies (WTT).

Para o executivo, esse novo paradigma levantado por Marina Grossi seria pautado pela adoção cada vez maior da relação “ganha-ganha”. Essa teoria indica que, dado o conflito, os dois lados envolvidos tentam encontrar uma solução juntos. A abordagem é uma oportunidade para chegar a um resultado mutuamente benéfico.

Combate à desigualdade social

Diante do cenário de desigualdade que a covid-19 escancarou, o setor privado se depara com esse desafio para que haja uma diminuição as mazelas sociais. “É preciso olhar para a educação de base e a economia tem que ser inclusiva, colaborativa e empática”, afirmou Amanda Da Cruz, coordenadora do Grupo de Trabalho sobre os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), da Engajamundo.

É preciso olhar para a educação de base e a economia tem que ser inclusiva, colaborativa e empática.

Amanda Da Cruz
Engajamundo

“O olhar para o modelo de desenvolvimento sustentável que faça com que essas pessoas tenham acesso à qualidade de vida, à renda e aos direitos humanos através da preservação é a maior contribuição que uma liderança executiva pode ter para construir esse novo normal”, defende a diretora global de sustentabilidade da Natura, Denise Hills. Para ela, o papel social das empresas deve ser a própria razão social. “Para isso, é preciso que ela incorpore o impacto social aos seus resultados”.

Amanda Da Cruz reforça ainda que o exercício da cidadania é igualmente importante nessa transformação. “Muitas vezes a mentalidade do brasileiro costuma terceirizar o problema. Por isso, é importante entender o nosso papel na sociedade e valorizar a nossa capacidade de promover as mudanças que buscamos”, conclui.

Próximos encontros

A webserie Visão 2050 é uma realização do CEBDS, com patrocínio do Itaú, da Vale, apoio da ERM, da KPMG, da SITAWI e apoio de mídia do Colabora. Os webinars podem ser vistos pelo YouTube do CEBDS ou pelo Zoom, onde é possível se inscrever para os próximos encontros aqui.

– 24/6   Energia

– 08/7 Biodiversidade e Florestas

– 22/7 Economia Circular

– 05/8 Cidades

Yuri Fernandes

Formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora, é mineiro de Ipatinga. Sempre sonhou em morar no Rio de Janeiro e realizou seu desejo em 2014 ao passar para o programa de estágio da TV Globo. Trabalhou nas redações do "Bom Dia Brasil", do "Jornal Nacional" e do "EGO". Tem grande interesse em pautas de inclusão social e diversidade de gênero. Acredita que o jornalismo pode e deve ser usado como forma de combater a opressão a minorias. Cresceu vendo novelas e sempre manteve essa paixão viva.

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