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Visitas da Vale meses antes de rompimento da barragem espalharam apreensão em Brumadinho

Cadastro de moradores, instalação de sirene e treinamentos do plano de evacuação, no entanto, não faziam parte de rotina da região


Um dia antes de a lama chegar, no mesmo horário, Mario brincava com seu neto no córrego agora tomado pela lama (Foto: Andre Mantelli)
Um dia antes de a lama chegar, no mesmo horário, Mario brincava com seu neto no córrego agora tomado pela lama (Foto: Andre Mantelli)

Para chegar à casa do engenheiro Mário Fontes, é preciso ultrapassar uma faixa que interdita todo o trecho ladeira abaixo, onde policiais militares estão em vigia o dia inteiro. O sítio onde ele mora fica no Parque da Cachoeira, uma das localidades mais impactadas pelo rompimento da barragem I da mina Córrego do Feijão, da Vale. Descendo a ladeira, 12 casas de vizinhos foram soterradas. Assim como outros moradores da região, ele sempre soube da barragem de rejeitos. Mas a existência dela era quase despercebida no dia a dia, até cerca de seis meses atrás, quando a família dele começou a receber visitas de técnicos da empresa. Foi nesse momento que o engenheiro começou a pensar se fazia parte de uma possível área de impacto – chamada tecnicamente de “Área de Autossalvamento”, de acordo com os relatórios da empresa. Mas nunca recebeu uma resposta concreta a essa pergunta, antes que houvesse o desastre. A apreensão havia chegado ao Parque da Cachoeira e ao Córrego do Feijão, ambos distritos de Brumadinho, poucos meses antes da tragédia que já deixou 169 pessoas mortas já identificadas e outras 141 ainda desaparecidas. Já o acesso à informação, segundo relato dos moradores, nunca se tornou parte do cotidiano.

Tudo que eu te narrar, você vai ter que imaginar. Uma cachoeira que ficava a cerca de 800 metros do meu sítio era o que dava o nome ao Parque da Cachoeira. Nada disso existe mais.

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Mario Fontes
Engenheiro

“Tudo que eu te narrar, você vai ter que imaginar. Uma cachoeira que ficava a cerca de 800 metros do meu sítio era o que dava o nome ao Parque da Cachoeira. Nada disso existe mais”, disse Fontes, enquanto mostrava os pontos que foram medidos por técnicos nos últimos meses. “Eles fizeram registro topográfico e de tamanho e tipo de cada propriedade. Mais recentemente, houve a instalação da sirene. Mas nunca me explicaram nada. Só comecei a me preocupar depois dessas visitas. Fomos pegos desavisados”.

Fontes conta que, embora tenha solicitado explicações sobre o motivo das visitas de técnicos da Vale em seu sítio, não obteve resposta da empresa. A única informação, segundo ele, era de que se tratava de um cadastro dos moradores.

Durante a conversa, a paisagem à frente era de devastação. Onde havia um pequeno córrego, há agora uma imensa cratera silenciosa, marrom e homogênea. Não há ali nem sinal das cores de um pomar que existia, nem da cachoeira.

Carro arrastado pela lama tóxica (Foto: Andre Mantelli)
Carro arrastado pela lama tóxica (Foto: Andre Mantelli)

Caminhando pelo Parque da Cachoeira e o Córrego do Feijão e conversando com moradores e moradoras na região atingida pelos rejeitos, que formaram o que vem sendo popularmente chamado de “lama”, são comuns relatos sobre as visitas da Vale nos últimos meses. As pessoas contam que expressões como “caso de emergência” e “plano de evacuação” entraram para o vocabulário das comunidades apenas recentemente. Com isso, a sensação de incerteza sobre o que a empresa sabia ou não sobre os riscos é crescente e agravada pela lógica da falta de acesso à informação, tônica que é apontada tanto pelas comunidades atingidas pelo desastre como por pesquisadores que acompanham a situação.

Na cartilha, sirene anunciaria riscos 

Uma cartilha da Vale intitulada “Você sabe como cuidamos de nossas barragens” está disponível online. Ela é feita com ilustrações combinadas com uma linguagem infantilizada, embora não seja voltada a crianças. Começa com a frase: “A Vale é uma empresa de mineração que transforma recursos naturais em prosperidade e desenvolvimento sustentável”. Em uma das primeiras páginas, um personagem diz “Todas as nossas barragens são seguras”. Mais a frente, outro desenho que representa um morador pergunta: “Então você consegue perceber situações de perigo a tempo e nos avisar com antecedência?” E o boneco que representa um técnico da Defesa Civil responde:  “Exatamente”. Adiciona depois: “O acionamento das comunidades está previsto por meio de sirenes, caso seja percebida uma ameaça. Nessa hipótese, todos deverão se dirigir aos pontos de encontro”.

Diziam que podia até dormir embaixo da barragem que não havia problema

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Caio César
Funcionário de mineradora

Na cartilha é possível ver a data de 2017. No entanto, nenhuma das pessoas entrevistadas soube descrever detalhes sobre planos de emergência. Também não foi possível identificar em nenhuma das localidades visitadas placas de rotas de fuga nem de pontos de encontro.  No Córrego do Feijão, local onde a mina ficava, assim como a sede da Vale e o refeitório,  moradores relatam reuniões com a mineradora, realizadas também apenas alguns meses antes da tragédia. Uma vez que conviviam com a barragem desde os anos 1980, o relato que se repete é a sensação de insegurança causada pela repentina presença da empresa na região, sem que houvesse transparência na informação sobre os motivos.

Um mês depois do crime ambiental, bombeiros seguem as buscas por corpos embaixo dos rejeitos tóxicos da Vale, no Parque da Cachoeira, Brumadinho. (Foto: Andre Mantelli)
Um mês depois do crime ambiental, bombeiros seguem as buscas por corpos embaixo dos rejeitos tóxicos da Vale, no Parque da Cachoeira, Brumadinho. (Foto: Andre Mantelli)

Caio César, que trabalha em outra mineradora que atua na região, disse que os treinamentos para o plano de evacuação trouxeram muitas dúvidas que não foram respondidas. “Se a Vale tem uns 15 anos aqui, só de um ano pra cá começou a falar com a gente e fazer simulação para caso tivesse rompimento. Então, começamos a ficar com medo, mas os funcionários só diziam que não tinha risco e que podiam até dormir embaixo da barragem que não havia problema”. Um primo dele, funcionário da Vale, estava almoçando no restaurante no horário do rompimento e ainda não havia sido encontrado.

Outra moradora do Córrego do Feijão, a aposentada Carmen Vicentino Barbosa, de 71 anos, diz que recebeu visitas de técnicos da empresa em casa e que falaram sobre plano de emergência. “Mas nunca explicaram onde era esse ponto de encontro, ninguém sabia direito como era para fazer”.  Ela estava em casa na hora do rompimento da barragem e diz que não imaginou o que havia ocorrido. “Eu estava tão tranquila em casa e tinha ouvido que isso nunca ia acontecer, que não havia risco. Achei que era barulho de máquina. Se a lama tivesse vindo na minha casa, eu só ia ver quando já fosse tarde demais”.

No dia da entrevista, ela havia acabado de receber a notícia de que o corpo do neto havia sido encontrado. Outros cinco sobrinhos permaneciam desaparecidos. Todos eram funcionários da Vale.

Não só a rua, mas várias casas foram arrastadas pela força da lama tóxica que veio da barragem do Córrego do Feijão (Foto: Andre Mantelli)
Não só a rua, mas várias casas foram arrastadas pela força da lama tóxica que veio da barragem do Córrego do Feijão (Foto: Andre Mantelli)

Segundo informações de um site temporário criado pela própria Vale com atualizações sobre Brumadinho, há um total de 133 barragens de minério de ferro no país, sendo 80% delas localizadas em Minas Gerais. Esse site menciona alguns procedimentos que dizem respeito à prevenção de acidentes, como laudos de estabilidade das barragens emitidos por empresas independentes e de renome internacional, parceria com a Defesa Civil para que moradores que vivem próximo as barragens saibam como reagir em situações de emergência, cadastramento e reuniões de ativação, simulados realizados junto às comunidades, quais moradores possuem alguma dificuldade de locomoção, comunicação ou deficiência, entre outros.

Na avaliação do pesquisador do Núcleo Política, Economia, Mineração, Ambiente e Sociedade da Universidade Federal de Juiz de Fora Bruno Milanez, a falta de informação é a questão central desde antes do rompimento até agora, na comunicação com as pessoas atingidas e a sociedade em geral. “Se os moradores recebiam visitas e não tinham acesso adequado à informação, isso abre espaço para especulação, medo e falta de preparação”, disse o pesquisador. “E, após o rompimento da barragem, a Vale também não tem garantido o acesso à informação para os moradores e nem disponibilizado documentos de utilidade pública de forma suficiente”.

Ele chama atenção para o fato de que documentos importantes, que seriam de utilidade pública, não são todos disponibilizados no site da empresa. “Estou em busca dos relatórios e muitos eu só consegui acompanhando a mídia. Esses documentos deveriam estar disponíveis para acesso de toda a sociedade. E isso vale tanto para o complexo do Paraopeba, quanto para outros complexos da Vale”, apontou Milanez.

O relatório emitido pela empresa alemã TV Sud por exemplo, que cita pontos de erosão superficial da ombreira (lateral da barragem), indícios de alagamentos à jusante, assoreamento, e trincas em canaletas de drenagem, entre outros problemas que deveriam ser sanados pela Vale de acordo com o laudo, foi obtido pela imprensa. Ele não foi disponibilizado como informação de utilidade pública.

Questionada sobre o por que das visitas realizadas nos últimos meses nas localidades, a Vale respondeu que “como determina a legislação, em 16 de junho de 2018 foi realizada uma simulação de emergência em comunidades localizadas na Zona de Autossalvamento como Córrego do Feijão e Vila Ferteco, sob a coordenação da Defesa Civil e com o apoio da Vale. A Zona de Autossalvamento é determinada pelo Plano de Ação de Emergência de Barragens de Mineração (PAEBM), que foi protocolado junto às defesas civis federal, estadual e municipal entre os meses de junho e setembro de 2018. Ainda segundo a Vale, “o plano foi construído com base em um estudo de ruptura hipotética, que definiu a mancha de inundação. Além disso, a barragem possuía sistema de vídeo monitoramento e cadastramento da população à jusante”. A empresa não respondeu, no entanto, sobre como funcionavam e onde estavam preparados pontos de encontro, placas de sinalização e outros elementos que faziam parte do plano de evacuação.


Escrito por Camila Nobrega

Camila Nobrega

É jornalista freelancer e doutoranda em Ciência Política na Universidade Livre de Berlim

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