PARAÍBA amarga as piores taxas do país no indicador

 

Reportagem
Fernanda Baldioti e Katiana Ramos

 

Infográficos
Fernando Alvarus

Escola Estadual DE E. F. M. Tenente Lucena

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TAXA DE ABANDONO ENSINO MÉDIO 2017

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TAXA DE ABANDONO ENSINO MÉDIO 2010

53,8

 

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TAXA DE ABANDONO ENSINO FUNDAMENTAL 2017

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TAXA DE ABANDONO ENSINO FUNDAMENTAL 2010

10,3

 

Alunas do 6º ano da Escola Estadual Tenente Lucena, no bairro dos Ipês, em João Pessoa, Amanda Silvestre e Ester Araújo nem pensam em faltar aula. A escola recém-reformada dispõe agora de laboratórios de ciências e robótica, que permitem aulas mais dinâmicas e interdisciplinares às turmas do ensino fundamental. Essas ações, segundo os professores, têm motivado as meninas e a maior parte dos alunos a terem frequência de praticamente 100% ao fim do ano letivo. O colégio, no entanto, ainda é um dos poucos destaques no combate ao abandono escolar na Paraíba, que amarga a taxa de 4,6% no ensino fundamental da rede pública, a pior do país. Os dados são do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). No ensino médio, o estado tem o segundo pior rendimento (com 12,8% da rede pública), perdendo apenas para o Pará (com 13,4%)

O abandono ocorre quando o aluno deixa de frequentar as aulas durante o ano letivo. Já a taxa de evasão (que também é alta na Paraíba) mede a situação do aluno que abandonou a escola ou reprovou e que no ano letivo seguinte não efetuou a matrícula para seguir com os estudos. Remando contra a maré, a Tenente Lucena é uma das escolas que, como mostra a série especial do #Colabora em parceria com a agência “Amazônia Real” e com o jornal “Correio”, conseguem resultados surpreendentes em rankings de avaliação, apesar de estarem em estados com as piores colocações em determinados índices educacionais do país.

Para se ter uma ideia, as taxas de abandono na Tenente Lucena passaram de 53,8%, em 2010, para 0, em 2017, no ensino médio, e de 10,3%, em 2010, para 0, em 2017, no ensino fundamental. As mudanças positivas nas estatísticas começaram a acontecer, de fato, em 2015, como mostram os infográficos. Antes disso, a escola, que estava há 31 anos nas mãos de uma mesma direção, tinha estrutura precária, e as aulas se restringiam a quadro, livro e giz.

“A escola estava sem vida, sucateada. Quem era o aluno que queria ficar em um ambiente desses, cheio de goteiras, carteiras quebradas? Pegamos essa escola com 314 alunos. Hoje, temos 894”, revelou o atual diretor, Otávio Sobrinho.

Além das melhorias na estrutura do prédio, outra ação de combate ao abandono escolar foi a elaboração de projetos interdisciplinares. Professora há mais de 30 anos na Tenente Lucena, Patrícia Pinto se entristecia ao ver datas comemorativas passarem em branco, além do distanciamento entre a escola e a comunidade.

“Não existia um projeto extraclasse. O que restava ao professor era só sala de aula. Por isso, acredito que os alunos cansavam e não se sentiam motivados a vir para a escola. Hoje, não. A equipe é toda envolvida, se ajuda, e os resultados têm sido gratificantes”, destacou a professora que também coordena projetos pedagógicos na unidade.

Satisfação dos alunos

A força de vontade em mudar a escola e torná-la um ambiente acolhedor para pais e alunos foi vista de perto pela estudante Amanda Silvestre, 12 anos, que estuda na escola desde os 6 anos e sempre gostou dos professores. Porém, desde que o colégio ganhou mais atrativos, como os laboratórios e projetos pedagógicos interdisciplinares, ela se sente mais satisfeita com as aulas. A mudança também apareceu no boletim.

“Adoro vir para a escola. Gosto do ensino, das atividades, e, claro, do recreio”, disse a aluna.

Colega de turma, Ester Araújo, também de 12 anos, está matriculada pela primeira vez em uma escola pública. Mesmo sem ter conhecido a realidade anterior do colégio, ela é só elogios ao trabalho dos professores:

“As aulas são até melhores do que as que eu tinha no meu colégio do ano passado. Quando a gente precisa de alguma coisa, eles sempre estão aqui para ajudar. É muito bom”.

Outra escola que está conseguindo vencer o desafio de manter os estudantes em sala de aula é o Instituto de Educação da Paraíba (IEP), em João Pessoa: a taxa de abandono passou de 7,8%, em 2010, para 0%, em 2017, no ensino fundamental, e de 20,6%, em 2010, para 7,5%, em 2017, no ensino médio. Tanto para melhorar a qualidade do ensino quanto para evitar novas transferências e abandono, a diretora-adjunta do IEP, Eliane Fernandes, explica que tem investido em projetos que envolvam a família e os valores da comunidade na rotina dos alunos.

Instituto de Educação da Paraíba

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TAXA DE ABANDONO ENSINO MÉDIO 2017

7,5

 

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TAXA DE ABANDONO ENSINO MÉDIO 2010

20,6

 

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TAXA DE ABANDONO ENSINO FUNDAMENTAL 2017

0

 

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TAXA DE ABANDONO ENSINO FUNDAMENTAL 2010

11,5

 

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    Os laboratórios de Ciências e Robótica viraram atrativos para os alunos da escola Tenente Lucena (Foto: Katiana Ramos)
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    A escola Tenente Lucena conseguiu zerar as taxas de abandono (Foto: Katiana Ramos)

Entre as iniciativas está um projeto simples desenvolvido pela professora Marinês Lira há três anos. Por meio do WhatsApp, ela acompanha a rotina de estudo dos alunos, tirando dúvidas e passando atividades extras. Tudo com a supervisão e participação dos pais das crianças, matriculadas no 2º ano do ensino fundamental.

“Quando eu tive a ideia desse projeto, minhas amigas acharam que não daria certo, porque eu iria me envolver muito com as famílias. Mas, está funcionando e os pais foram muito receptivos”, explicou a professora que, em 2017, está entre os educadores contemplados com o “Prêmio Professor Nota Dez”, promovido pela Secretaria estadual de Educação da Paraíba. Tanta dedicação, segundo ela, vem mesmo da vocação da profissão que escolheu. “Eu não sei como seria minha vida fora da sala de aula”, comentou.

Para reduzir o abandono e a evasão escolar, desde 2011, as escolas da rede estadual da Paraíba são obrigadas a cumprir a Ficha de Comunicação do Estudante Infrequente (FICAI). Se o aluno tiver cinco faltas consecutivas ou não frequentar a escola por sete dias alternados no mês, cabe à escola informar a situação à família e investigar os motivos das ausências. Há recomendações de até mesmo os educadores visitarem a casa dos estudantes. O gerente de ensino médio da Secretaria Estadual de Educação, Robson Rubernilson, explicou que, dependendo da situação dos alunos ausentes e das motivações das faltas, os casos podem ser levados aos Conselhos Tutelares e ao Ministério Público Estadual.

“O objetivo é fazer o monitoramento junto à família dos estudantes infrequentes. À escola cabe, a partir da FICAI, promover ações de intervenção para reverter o quadro”, acrescentou. Além dessa estratégia, a frequência dos alunos matriculados na rede estadual que recebem o Bolsa Família também é monitorada, conforme as diretrizes do programa.

Para a coordenadora de projetos da ONG Todos pela Educação, Thaiane Pereira, as escolas com altas taxas de abandono devem identificar o que está provocando a saída dos alunos de sala de aula e buscar ações para combater isso. Ela lembra que as causas podem variar muito de região para região, em função do nível socioeconômico dos alunos:

“No ensino médio, podem estar relacionadas à necessidade de trabalho, à gravidez precoce. Já no fundamental, muitos jovens acabam abandonando os estudos porque não veem a escola como um espaço atrativo. Aí, cabe à direção estabelecer estratégias pedagógicas que ajudem a tornar a escola mais interessante. Pode ser também que o aluno venha com uma defasagem muito grande dos anos anteriores, e aí vai perdendo o interesse”.

Thaiane defende que a oferta de programas de reforço, de recuperação e de correção de fluxo, podem ser soluções, assim como a necessidade de valorização da carreira dos professores, para evitar que eles faltem:

“Não tem uma bala de prata para melhorar a questão do abandono. Só não podemos permitir que existam jovens nem-nem-nem, que nem estudam, nem trabalham e nem procuram emprego (eles somam quase 1,4 milhão em junho deste ano, segundo levantamento feito pela consultoria IDados). É uma mão de obra que vai ser perdida. É importante que esse jovem se qualifique por meio do estudo”.

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Equipe responsável

 

Jornalista, com mestrado em Comunicação pela Uerj, trabalhou nos jornais “O Globo” e “Extra” e foi estagiária da rádio “CBN”. Há dez anos, trabalha com foco em internet. Foi editora-assistente do site da “Revista Ela”, onde se especializou nas áreas de moda, beleza, gastronomia, decoração e comportamento. Também atuou em outras editorias cobrindo política, economia, esportes e cidade.

Bacharel em Jornalismo e licenciada em Letras, é sergipana do interior. Trabalha como revisora e flerta com a fotografia. Curiosa vocacional, apaixonou-se pela literatura ao se deparar com o cínico anti-herói de Confissões de Narciso. Desde então, está para a escrita como o sábado, para a feira e o domingo, para a praia.

Formada pela Universidade da Amazônia (Unama), tem experiência em rádio, tv, impresso e jornalismo online. Trabalhou no jornal Diário do Pará, G1 Pará e na TV Liberal, afiliada da Rede Globo. Atualmente é repórter da agência de jornalismo independente Amazônia Real. Em 2017 ganhou o Prêmio INEP de Jornalismo (2º lugar) por uma reportagem sobre a evasão escolar.

Jornalista formada pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), trabalha como repórter em veículos impressos de João Pessoa desde 2011. Pautas nas áreas de Direitos Humanos, Saúde e Educação são seus focos de interesse.

Jornalista formado pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), com pós-graduação em Análise do Espaço Geográfico e em Comunicação e Marketing em Redes Sociais. É repórter do jornal Correio da Bahia e colaborador da Folha de S. Paulo, UOL e BBC News Brasil.

É estudante de jornalismo na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. Acredita que todo bom jornalismo deve prezar pelas histórias.

É jornalista e cofundadora da agência de jornalismo independente Amazônia Real, com sede em Manaus. Além de ter trabalhado em veículos como “O Estado”, “A Gazeta”, “Amazonas Em Tempo”, na “TV Cultura”, “TV Educativa” e de ter sido correspondente de “O Globo”, “O Estado de S. Paulo” e “Folha de S. Paulo”, foi uma das fundadoras do Sindicato dos Jornalistas de Roraima. Em 1991, ganhou o Prêmio Esso Regional Norte com a reportagem “Bandeira do Brasil Hasteada na Fronteira”. Feminista, foi um das fundadoras do coletivo partidAmazonas, que defende os direitos das mulheres na política institucional.

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