Compartilhar, , Google Plus, Linkedin, Whatsapp,

Imprimir

Publicado em

‘Por que a Albânia?’

Uma semana de histórias, natureza e tabus quebrados num dos países mais isolados do mundo


Butrint, Patrimônio Mundial da Unesco, onde fica a praia mais famosa da região: Bora-Bora Beach
Butrint, Patrimônio Mundial da Unesco, onde fica a praia mais famosa da região: Bora-Bora Beach

“Por que vocês querem ir para lá?”. Esta foi a pergunta mais ouvida assim que eu e minha amiga Maria Regadas anunciamos no Brasil que viríamos para a Albânia durante um mochilão por cidades europeias. Mas o espanto não foi só dos brasileiros. “O que vocês estão fazendo aqui?”, também foi a frase que mais ouvimos em solo albanês. Sob o comando do ditador comunista Enver Hoxha – de 1944 a 1985 – , o país foi considerado uma das nações mais isoladas do mundo. A fama não era à toa. Alinhada, inicialmente, com a antiga União Soviética, a Albânia rompeu com a potência comunista para aliar-se à China, de quem também se afastou em 1978. A democratização do país teve início em 1991, quando uma multidão derrubou, na praça principal de Tirana, a capital, a estátua do ditador.

A maior dificuldade na Albânia, além da língua, é andar de ônibus. Não existem pontos, muito menos rodoviária. Eles param em esquinas aleatórias e, para apanhá-los, você precisa saber aonde eles vão passar e o horário aproximado – informações que não estão disponíveis em nenhum lugar.

Passados 25 anos da queda do regime, a falta de informações, o preconceito e os exageros sobre o país ainda persistem. Ainda no Brasil, escutamos histórias terríveis sobre assaltos e ataques a mulheres. Não demos ouvidos, tamanha a curiosidade pelo país. Na verdade, a Albânia entrou no nosso roteiro de viagem quase por acaso, mas o interesse foi crescendo à medida que pesquisávamos sobre ela. Não queríamos gastar muito, decidimos fazer os percursos de ônibus e sabíamos que começaríamos pela Grécia. Montenegro seria o segundo destino. Entre os dois, estava a Albânia. (Clique ou toque na imagem abaixo para ver a fotogaleria).

A Albânia em 20 fotos

O primeiro desafio foi descobrir como chegar lá, partindo de Meteora, no norte da Grécia.  Tentamos comprar as passagens de ônibus com antecedência. Impossível. Impossível também descobrir na internet como era feita a travessia. Nem em Meteora - localizada a duas horas da fronteira - sabiam nos informar direito como chegar ao primeiro destino na Albânia: Ksamil, um balneário de águas transparentes no Mar Adriático.

Pegamos um ônibus para Ioannina, na Grécia, uma cidade um pouco maior, para, de lá, tentar chegar à Albânia. Na rodoviária, uma tela informava destinos e horários. Exceto para a Albânia, claro. Para complicar, os atendentes não falavam inglês. Insistentes, descobrimos um horário aproximado para a chegada do ônibus – 14h ou 15h. Também soubemos que as passagens só seriam vendidas a bordo. Após quatro horas de espera, o ônibus aparece, já meio cheio. Rapidamente um grupo de mais de dez chinesas embarca na nossa frente. Desespero. Era o único do dia com destino à Albânia. Pegamos os últimos lugares.

Na fronteira grega, todos os passageiros desceram para passar pelo controle de passaporte. Voltamos para o ônibus. Um pouco mais à frente, a fronteira albanesa. Uma mulher, sem uniforme e sem crachá, passou coletando os documentos dos passageiros, enquanto esperávamos dentro do ônibus. De repente, o motorista avançou uns poucos metros para estacionar e alguns passageiros se desesperaram, clamando pelos documentos. Enquanto aguardávamos, um mendigo entrou no ônibus pedindo dinheiro. Meia hora depois, a mesma mulher veio nos devolver os documentos e seguimos viagem. Através da janela, via-se duas placas: "Welcome to Albania" e "No korruption". Pobreza e corrupção?

ma das peças exibidas no bunker no ditador Enver Hoxha
Uma das peças exibidas no bunker no ditador Enver Hoxha

Já começamos com uma má impressão. Mas não é bem assim. A Albânia tem um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) considerado alto, embora esteja dez posições atrás do Brasil no ranking da ONU que mede renda, educação e saúde dos países: 85º lugar. Mas não há favelas por lá. Já sobre a corrupção, não se pode dizer o mesmo: o país ocupa a 110.ª posição na lista de 175 países do índice de percepção da corrupção da Transparência Internacional. Um dos principais problemas são as máfias da maconha, às quais a máquina de Estado acaba se rendendo. Para ser aceita como candidata a membro da União Europeia, a Albânia chegou a realizar, há dois anos, uma megaoperação contra os traficantes em Lazarat, um reduto produtor e exportador de cannabis onde a polícia não conseguia entrar. Mas, pelos relatos dos albaneses, a máfia persiste. A diferença é que lá o tráfico não é violento como nos morros cariocas. Nas ruas, não há a sensação de insegurança.

É um país com belas paisagens, território montanhoso, florestas, águas cristalinas azul-turquesa. Um lugar que combina belezas naturais com um pouco de história, com resquícios do regime comunista, como os bunkers e outras construções da época. Além de ser incrivelmente barato.

Ao contrário do que imaginávamos e do que dizia a internet, as estradas são ótimas. Só o que incomoda são as curvas frequentes, resultado do relevo do território. Esperávamos encontrar vias esburacadas, abandonadas. Talvez os relatos online tenham sido escritos por ingleses ou franceses, acostumados com um outro padrão. Na verdade, elas são muito melhores que muitas brasileiras. Chegando em Sarandë, considerada a "capital" do sul do país, o ônibus nos deixou em uma esquina qualquer, e não numa rodoviária. Pegamos um táxi até Ksamil, uma vila bem simples. De lá, pudemos conhecer uma cidade em ruínas muito interessante, Butrint, Patrimônio Mundial da Unesco, a praia mais famosa da região – Bora-Bora Beach – e a piscina natural Blue Eye (veja na fotogaleria).

A moeda na Albânia é o lekë, bastante desvalorizada. Na praia de Bora-Bora, um prato de spaguetti em um restaurante bonitinho, de frente para o mar, custa apenas 300 lekës (cerca de 2 euros). Uma garrafa de água de 500 ml sai por 50 lekës (37 cents). A maior dificuldade na Albânia, além da língua, é andar de ônibus. Não existem pontos, muito menos rodoviária. Eles param em esquinas aleatórias e, para apanhá-los, você precisa saber aonde eles vão passar e o horário aproximado – informações que não estão disponíveis em nenhum lugar.

Na rua, perguntávamos sobre os ônibus e os que conseguiam nos entender davam informações desencontradas. Perguntamos para alguns albaneses, angustiadas, o porquê disso. Eles disseram para relaxar, que na Albânia era assim mesmo. É complicado, mas dá para se virar. No fim, conseguimos pegar todos os ônibus. Reparamos que a maioria das pessoas acima dos 30 anos – ou seja, aquelas que cresceram sob o regime de Hoxha – não fala inglês. Nem nas agências de turismo ou locadoras de automóveis, as pessoas falam o idioma. Nos hotéis, é mais fácil, pois os donos chamam os filhos para traduzir. Muitos albaneses conseguem entender uma palavra ou outra de português devido às novelas brasileiras que são exibidas no país.

Depois de Ksamil, seguimos para Himarë, outra vila que usamos de base para conhecer algumas praias da Riviera Albanesa, de águas limpas e cristalinas. Nessa região, encontramos muitos bunkers espalhados por todos os cantos – nas praias, nas montanhas, nas estradas. Não há consenso sobre essa informação entre os albaneses: fala-se que haveria entre 150 mil e 750 mil destas construções. São como pequenos cogumelos de concreto espalhados pelo território, que serviriam para abrigar a população em caso de possíveis ataques de inimigos durante a Guerra Fria. Dizem que, depois de construído o primeiro bunker, Hoxha mandou colocar o engenheiro dentro e bombardear a construção para testá-la.

Em Livadh Beach, procurando um desses abrigos para tirar uma foto, pedi informação para uns três grupos diferentes de albaneses e todos me explicaram onde ficavam os bancos mais próximos. Acho que, por estarem tão acostumados com essas construções presentes nas paisagens, e por, obviamente, não dominarem o inglês, não compreendiam que eu estava procurando um "bunker", não um "bank". Na capital, Tirana, encontra-se o maior deles: construído em 1970, possui mais de dois mil metros quadrados com mais de cem salas e diversos níveis e era destinado ao abrigo do ditador. Hoje, conhecido como Bunk'Art  , virou um museu, com muitas salas mobiliadas e intactas, mas também com instalações artísticas. Existem outros museus na capital. A cidade em si é muito bonitinha: ruas limpas, arborizadas, além de áreas muito movimentadas com restaurantes e bares.

Em Livadh Beach, um dos muitos bunkers que estão espalhados pelo país
Em Livadh Beach, um dos muitos bunkers que estão espalhados pelo país

Outra grande virtude do país são os albaneses. Um povo simpático, sempre disposto a agradar. Quando descobriam que éramos brasileiras, enlouqueciam. Sempre nos faziam a mesma pergunta: por que saímos do Brasil para ir para a Albânia? Eles se subestimam muito e simplesmente não conseguem entender o porquê de alguém se interessar pelo país. Como a Albânia ficou à margem da globalização até alguns anos atrás, o turismo ainda é incipiente. Existem, inclusive, praias que nem nome têm.

O fato é que a Albânia que conhecemos já é um país bem diferente do que fora e os albaneses parecem fazer questão de afirmar isso. Em todos os ônibus, mercados, restaurantes, tocam hits universais em alto e bom som, num ambiente quase cosmopolita. No Bunk'Art, há uma trilha sonora meio sombria, com barulho de goteira, por exemplo, que lembra algumas atrações da Disney. É um país com belas paisagens, território montanhoso, florestas, águas cristalinas azul-turquesa. Um lugar que combina belezas naturais com um pouco de história, com resquícios do regime comunista, como os bunkers e outras construções da época. Além de ser incrivelmente barato. A música albanesa também é boa. E claro, tem os albaneses. E se você quer saber onde nasceu a Madre Teresa de Calcutá – sim, na própria Albânia.

(Aos interessados em visitar o país, minha sugestão é chegar pela capital, Tirana, e lá alugar um carro para rodar o país, e depois devolvê-lo no mesmo local. Outra opção é ir para Sarandë de ferry, saindo de Corfu, uma ilha grega, e alugar um carro. Não recomendo os ônibus, pois além de muitas horas de música alta, são insuportavelmente quentes. O país é pequeno - em área territorial, se assemelha ao estado de Alagoas - e dá para ser atravessado em aproximadamente 9h de carro.)


Escrito por Maria Clara Barsotti

É estudante de Arquitetura e Urbanismo na PUC-Rio, ama viajar, conhecer lugares diferentes e se arriscar em novas experiências. Acredita na arquitetura como instrumento de mudança social e ambiental e no urbanismo como meio de transformação das cidades para melhoria da qualidade de vida

1 posts

Um Comentário

Deixe uma mensagem
  1. Fiquei muito contente de ler seu relato e mais entusiamado ainda para tentar mais uma vez fazer uma viagem à Albânia. Em 2010 eu fui de carro até Montenegro. Alugara o carro na Itália e minha intenção era conhecer a Albânia. Porém não permitiram que eu entrasse no país com o carro. Disseram que eu deveria ter uma autorização. Achei estranho mas disseram que seu queria tanto ir, que poderia deixar o carro em Montenegro e ir sem o carro. Porém achei a situação complicada e desisti. Mas tenho muito interesse por este país. Recentemente, fiz uma grande pesquisa sobre o mesmo, principalmente por sua história e fiquei apaixonado pelo mesmo. Apesar de sua história complicada… Parabéns por sua aventura. Espero poder passar por uma experiência similar. Já estou ficando velho e tenho algumas limitações por problemas de saúde mas acho que não será impeditivo. Assim espero. Um abraço e obrigado pelas dicas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *