Enchente na Rocinha

Interior de casa na localidade da Cachopa, portão 40: moradores abandonaram o local (Foto Kita Pedroza)

Com a omissão do poder público, moradores e voluntários se mobilizam pela reconstrução

Por Kita Pedroza | FotogaleriaODS 11 • Publicada em 16 de fevereiro de 2019 - 08:18 • Atualizada em 9 de abril de 2019 - 15:14

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Interior de casa na localidade da Cachopa, portão 40: moradores abandonaram o local (Foto Kita Pedroza)
Sobre o monte de terra que soterrou a casa de Clarencio (de costas), voluntários cadastram moradores atingidos pela chuva (Foto Kita Pedroza)
Sobre o monte de terra que soterrou a casa de Clarencio (de costas), voluntários cadastram moradores atingidos pela chuva (Foto Kita Pedroza)

Os pés pisavam a montanha de terra que cobriu a casa, deixando só a janela e parte da porta de entrada à vista. Os olhos descrentes de Clarencio viam sem conseguir enxergar. Foram anos ajeitando cada cômodo do lugar onde morava com a mulher e as duas filhas até ficar do jeito que queriam. Quando a enorme onda de água veio, arrastando tudo pela frente, enchendo os quartos em segundos, só deu tempo de pegar as crianças e fugir, junto com a esposa, o mais rapidamente possível. “Foi surreal, não sobrou nada. Estamos em cima do meu quintal, que não existe mais”, contou ele, quando fomos cadastrar pessoas atingidas pela chuva de 6 de fevereiro na favela da Rocinha, Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro. Clarencio não tem esperança de que órgãos públicos venham retirar a terra, por isso pensa em reconstruir a vida “do zero”.

Moradores da Rocinha se mobilizaram desde a primeira hora para cadastrar os atingidos pela enchente e auxiliar em suas demandas. Eu e os companheiros Leandro, Magda e Shirley, do movimento A Rocinha Resiste, participamos do levantamento na região da Cachopa. Abraçar as pessoas que encontrávamos e nos contavam suas histórias foi nossa vontade imediata. Em toda a favela, ao menos seis áreas foram atingidas diretamente pelos estragos da última chuva – Dioneia, Cesário, Cachopa, Rua 1, Vila Verde e Valão.

Na Cachopa, contamos 18 famílias atingidas; dessas, pelo menos dez perderam tudo. Entre elas, a família de Clarencio, além de duas mulheres grávidas. “O maior alívio é estarmos vivos”, disse Isabel (nome alterado), sorrindo por ter encontrado seus documentos. Ela e seu outro filho foram salvos por vizinhos no meio da enxurrada. Andar por ali é encontrar histórias que se entrelaçam, só que agora, num cenário “de filme de terror”, como descreveu Carlos Eduardo. Ele estava numa casa em um pavimento mais alto, acima da laje de Clarencio, e literalmente teve que nadar no redemoinho que se formou em frente à casa de Isabel para chegar até ela. Resgatou o filho da moça, mas a viu afundar na enxurrada. “Ela sumiu no meio do tsunami”, disse. Felizmente, outro vizinho conseguiu alcançá-la pelos cabelos quando, levada pela água, passou ao lado da janela dele.

Centenas de voluntários, de lugares variados, estão se mobilizando para auxiliar os atingidos pela chuva na favela, enquanto o governador Wilson Witzel atribui esses desastres à “ocupação irregular de encostas e morros”, ignorando a (ir)responsabilidade histórica do poder público, diante da falta de políticas de moradia, consistentes e sistemáticas, voltadas para as populações pobres. A falsa e perversa ‘solução’ da remoção também volta à baila nesses momentos, comprovando o desinteresse político em investir em obras de infraestrutura e saneamento nas favelas. Assim, neste novo episódio, são sobretudo os moradores da Rocinha, que estão arregaçando as mangas e realizando ações para amenizar os estragos – levantamento de atingidos, coleta e distribuição de donativos, limpeza das casas inundadas pela lama etc. Estão atuando movimentos comunitários, mídias, igrejas e outras instituições locais, como A Rocinha Resiste, Movimenta Rocinha, Rocinha Sem Fronteiras, FaveladaRocinha.com, Fala Roça, Rocinha em foco, junto a muitos outros.

Movimentos recentes (casos do A Rocinha Resiste, com um ano de existência, e do Movimenta Rocinha, criado no período das eleições de 2018) ou antigos (como o Rocinha Sem Fronteiras, com 12 anos), lutam, em pleno século XXI, para que os moradores da Rocinha, e de outras favelas, tenham seus direitos fundamentais assegurados. Essa nova enchente de grandes proporções na história da Rocinha e o temor de que outros deslizamentos aconteçam são evidências de que o direito a condições dignas de moradia não são realidade nesses lugares da cidade.    

Kita Pedroza

é fotografa e cientista social. Formada em jornalismo (Ufrj), está cursando doutorado em Ciências Sociais (Uerj) e pesquisa sobre mídias, juventudes, comunicação comunitária, temas ligados aos estudos urbanos e antropologia visual. Fotografa, desde 1996, para veículos editoriais, Ongs, instituições privadas e desenvolve projetos documentais. Foi pesquisadora do ISER (Instituto de Estudos da Religião), onde realizou a exposição fotográfica ‘Em nome do sagrado’, sobre religião no Sistema Socioeducativo. Lecionou fotografia em cursos livres e de graduação. Participa de coletivos de luta por Direitos Humanos, como A Rocinha Resiste e Rocinha Sem Fronteiras. Trabalhou em programas sociais, entre eles a Agência-Escola Imagens do Povo (na Maré), em favelas do Rio de Janeiro por mais de dez anos

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