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Os anos que não acabaram

Exposição em Londres conecta a época da revolta e da utopia à realidade de hoje


A apresentação de John Sebastian no Festival de Woodstock, em agosto de 1969. Image by © Henry Diltz/Corbis
A apresentação de John Sebastian no Festival de Woodstock, em agosto de 1969. Image by © Henry Diltz/Corbis

Num curto espaço de tempo, entre 1966 e 1970, o mundo viu o nascimento da minissaia, a chegada do homem à Lua, as barricadas do Maio de 68 em Paris, o mergulho dos Beatles no psicodelismo, a liberdade de Woodstock, a revolta de Stonewall, a explosão do movimento hippie e dos protestos contra a guerra do Vietnã, o pacifismo de John Lennon e Yoko Ono numa cama, a Revolução Cultural na China e o assassinato de Martin Luther King, entre muitos outros episódios históricos que deixaram o planeta tonto. E mudado para sempre. Qual a influência desse frenético período de transformações e, principalmente, de contestação, nos dias de hoje? É essa a pergunta que move uma das mais interessantes exposições do ano em Londres: ‘You Say You Want a Revolution?’ (Você diz que quer uma revolução?), em cartaz até outubro no Victoria & Albert Museum. Cinquenta anos se passaram, mas os efeitos daqueles anos conturbados, de revolta e utopia, continuam sendo sentidos em diferentes áreas, da moda à geopolítica. Feminismo, democracia, ambientalismo, veganismo, multiculturalismo, direitos LGBT, vida alternativa. Todas essas bandeiras foram abraçadas por jovens que queriam mudar o mundo e que lançaram, naqueles 1.826 dias, as sementes de brigas ainda não totalmente vencidas.

O legado da imprensa underground vive no Wikileaks; agora há uma preocupação internacional com o aquecimento global; direitos da comunidade LGBT estão sendo reconhecidos; yoga e comida orgânica entraram no nosso dia-a-dia e muitos membros daquelas bandas dos anos 60 continuam fazendo shows. Mas o mais importante, a contracultura trouxe uma saudável desconfiança do establishment que persiste até hoje.

Barry Miles
Escritor

A contracultura do final dos anos 60 já foi exaustivamente dissecada, mas ainda há o que contar, como aposta o museu britânico, que tirou o título da exposição da música “Revolution”, dos Beatles. A vanguarda de Londres tem enorme destaque na mostra e facilita essa viagem no tempo. É preciso lembrar que em 1965 o Reino Unido ainda era um país onde aborto e homossexualidade eram ilegais; só mulheres casadas tinham direito à pílula anticoncepcional; divórcio era tabu; a pena de morte por enforcamento continuava em vigor e discriminação racial era a norma. Nessa atmosfera opressiva, a geração crescida no pós-guerra, os baby-boomers, se uniram sob um estado de anarquia social, musical e fashion para questionar não apenas o que seus pais entendiam como normalidade, mas todo o establishment.

Capa do disco "Revolution", dos Beatles, 1966. Alan Aldridge © Iconic Images
Capa do disco “Revolution”, dos Beatles, 1966. Alan Aldridge © Iconic Images

Em vez de admirar a alta-costura de Paris, a juventude londrina queria a criatividade das boutiques de Carnaby Street e da King’s Roads, áreas centrais de Londres onde designers como Mary Quant encurtavam as saias e as vendas aconteciam em galerias de arte. O visual que definia Londres era o estilo andrógino de Twiggy, a modelo-símbolo daquela era. Nos clubs, o LSD era livre (pelo menos até 1967), enquanto a cena underground produzia rádios-pirata, revistas inovadoras, quadrinhos subversivos, pôsteres icônicos e, claro, rock. A fotografia e o design gráfico ganharam, finalmente, status de arte.

Em junho de 1967, John, Paul, George e Ringo lançaram o álbum “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, redefinindo os rumos da maior banda de todos os tempos. A apresentação da música “All you need is love”, nos estúdios de Abbey Road, foi assistida na TV por 400 milhões de pessoas. No UFO club, música ao vivo se misturava a show de luzes e o cardápio oferecia algo inédito até então: comida macrobiótica. A banda da casa? Pink Floyd.

A retrospectiva do V&A, que reúne 350 objetos, promove um reencontro com a época através de uma reconstrução da Carnaby Street, um dos epicentros da revolução cultural do período. Figurinos de rua que definiram uma geração, as letras escritas a mão de “Lucy in the sky with diamonds” e “Strawberry fields forever”, as míticas fardas coloridas usadas por Lennon e Harrison na capa de “Sgt. Pepper’s” e cenas do filme “Blow-up”, de Michelangelo Antonioni, ilustram a efervescência do momento, sob uma trilha sonora arrepiante.

Um vestido com as famosas latas de sopa Campbell, de Andy Warhol. Foto de Kerry Taylor/Auctions
Um vestido com as famosas latas de sopa Campbell, de Andy Warhol. Foto de Kerry Taylor/Auctions

Mas Londres não é a única cidade focada. São Francisco, hoje tão cultuada por abrigar o Vale do Silício, também já era revolucionária naqueles tempos de rebeldia. Foi na costa Oeste dos EUA que nasceu a revista alternativa “Whole Earth Catalogue”, uma publicação para comunidades sustentáveis. Estamos falando de 1968. Mas as páginas criadas por um ex-estudante de biologia de Stanford e ex-soldado convertido em hippie, Stewart Brand, já sugeriam maneiras de driblar o consumismo crescente e ensinavam os leitores a “construir suas próprias ferramentas”. Era um catálogo que não vendia nada. Apenas ensinava os leitores a acharem os produtos que precisavam para suas próprias criações e os conectava, publicando sugestões do público, ou seja, estabelecendo redes de interesse comum. Entre os leitores da revista bianual estava um certo jovem chamado Steve Jobs. Muitos anos mais tarde, o fundador da Apple, cujo primeiro computador também pode ser visto na exposição, declarou: “Era como o Google em formato de papel, 35 anos antes do Google surgir: era idealista e transbordava de novas ferramentas e grandes conceitos”. Quando ele e o amigo Steve Wozniak começaram a construir computadores na garagem da casa dos Jobs, aplicaram as ideias do “Whole Earth Catalogue”.

As comunidades hippies da região viviam num universo paralelo, nômade, de liberação sexual e apologia às drogas. Mas o que a mostra destaca é como eles, com seu radicalismo, já se preocupavam com a destruição ambiental e pregavam a filosofia da ‘volta à terra’. No início da década de 70, 750 mil pessoas haviam abandonado os centros urbanos americanos para viver coletivamente no campo, construindo suas próprias casas, rejeitando o militarismo de Washington e tocando em guitarras elétricas artesanais. Havia misticismo e delírio, mas também, entre uma boa parte desses revolucionários, uma convicção de que a tecnologia poderia melhorar o mundo e não apenas ser usada para beneficiar a indústria armamentista. O lema do “faça amor não, faça a guerra” não durou muito, e as comunidades que resistiram acabaram se transformando em seitas religiosas ou em clãs que apenas reproduziam valores autoritários que os hippies um dia tentaram combater.

É preciso lembrar que em 1965 o Reino Unido ainda era um país onde aborto e homossexualidade eram ilegais; só mulheres casadas tinham direito à pílula anticoncepcional; divórcio era tabu; a pena de morte por enforcamento continuava em vigor e discriminação racial era a norma.

A exposição não é revisionista e tem a função de estabelecer conexões ideológicas com a realidade que vivemos hoje. Algumas delas são bem claras. O ativismo gay, a emancipação feminina, a luta pelos direitos dos negros nos EUA, a busca por formas de informação alternativas e o movimento ecológico foram algumas das manifestações que ganharam força naqueles cinco anos. “O legado da imprensa underground vive no Wikileaks; agora há uma preocupação internacional com o aquecimento global; direitos da comunidade LGBT estão sendo reconhecidos; yoga e comida orgânica entraram no nosso dia-a-dia e muitos membros daquelas bandas dos anos 60 continuam fazendo shows. Mas o mais importante, a contracultura trouxe uma saudável desconfiança do establishment que persiste até hoje”, resumiu o escritor Barry Miles, um especialista na geração Beat e co-fundador do “The International Times”, o primeiro jornal underground da Europa, cujas capas estão reunidas na mostra.

Mas mesmo quem for à exposição do V&A sem disposição para ligar os pontos entre o passado e lutas que sobrevivem, vale a pena se estirar nos almofadões (mais hippie impossível!) espalhados na sala dedicada aos festivais. As imagens de Woodstock, o mais legendário deles, cobrem um telão gigante, mostrando cenas do encontro que reuniu 400 mil pessoas em agosto de 1969 para ouvir gente como Jimi Hendrix e Janis Joplin, que tiveram suas curtas vidas encerradas por overdose. Enquanto o mundo se afogava na tensão da Guerra Fria, os jovens de Woodstock, cabeludos e metidos em camisetas tie-dye, sonhavam com paz e amor. A viagem utópica só durou quatro dias. Mas meio século depois o idealismo e o otimismo da época ainda são inspiradores.

Em 1967, em frente ao Pentagono, nos EUA, um ativista põe flores no cano das armas. Foto de Bernie Boston/The Washington Post/via Getty Images
Em 1967, em frente ao Pentagono, nos EUA, um ativista põe flores no cano das armas. Foto de Bernie Boston/The Washington Post/via Getty Images

Escrito por Claudia Sarmento

Claudia Sarmento

Trabalhou por mais de 20 anos no jornal O Globo, mas não gostava de ficar muito tempo no mesmo lugar. Foi editora de Mundo e da Revista da TV, gerente de produtos, e, mais recentemente, correspondente no Japão. Há um ano trocou Tóquio por Londres, onde acaba de completar um mestrado em Cultura Digital pelo King's College.

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