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Cultura e resistência

Festa no Dia da Consciência Negra levou muitos visitantes à Ilha de Marambaia, onde vivem descendentes de escravos


Quilombolas dançam, cercados por visitantes, fazendo fotos: cultura preservada. Foto de Fabio Rodrigues/divulgação
Quilombolas dançam, cercados por visitantes, fazendo fotos: cultura preservada. Foto de Fabio Rodrigues/divulgação

A Ilha da Marambaia, na Baía de Sepetiba, simboliza um pouco da triste história da escravidão no Brasil. Ali, havia uma “fazenda de engorda”, assim chamada porque era o local onde os escravos, trazidos da África, ficavam em uma espécie de quarentena, recuperando-se da terrível viagem no navio negreiro. Depois, eram distribuídos nas muitas fazendas de Joaquim José de Souza Breves – o maior traficante de escravos do Brasil, durante uma época -, espalhadas pela região, principalmente em Mangaratiba. Para lembrar não só o sofrimento dos africanos, mas também a força de sua cultura, totalmente enraizada nas tradições brasileiras, todo ano, no Dia da Consciência Negra, 20 de novembro, é realizado um passeio de barco até a ilha. O deste ano estava lotado.

Ali, moram muitos descendentes dos escravos que foram trazidos a mando de Breves, burlando a lei que proibia o tráfico negreiro. Mirian Bondim, pesquisadora da Fundação Mário Peixoto, vinculada à prefeitura de Mangaratiba, conta que com a morte de Breves, em 1889, um ano após a abolição da escravidão, a ilha foi abandonada por seus familiares e entregue aos ex-escravos. “A comunidade formada pelos descendentes dos ex-escravos ficou isolada na ilha, vivendo da pesca, do cultivo da terra e mantendo suas tradições culturais, como num quilombo, que significa terra de negros. Após muita luta, eles conquistaram o reconhecimento da Fundação Palmares e a titulação de seu território”, explica Mirian, que estuda profundamente o passado da região e a comunidade quilombola.

É um espaço de luta, de confraternização e de reencontro com o passado

Mirian Bondim
Pesquisadora

A Marambaia começou a mudar de dono em 1891, quando a viúva de Breves a vendeu à Companhia Promotora de Indústrias e Melhoramentos. Cinco anos depois, por liquidação forçada, a companhia transferiu a propriedade ao Banco da República do Brasil que, por fim, a vendeu à União, em 1905. De lá para cá, foi instalada uma Escola de Aprendizado da Marinha, depois transferida para Campos, uma colônia de pescadores e uma escola de curso primário e profissional de pesca.

Segundo Mirian, a comunidade passou a comemorar o Dia da Consciência Negra nas ruínas da fazenda de engorda de escravos em 20 de novembro de 2005. Mas, antes disso, um pequeno grupo já fazia cantorias, em forma de orações, homenageando seus antepassados. A festa foi crescendo, até que os quilombolas começaram a receber visitantes, que se organizavam em grupos para participar do evento e contribuir para a sua realização, alugando saveiros e conseguindo permissão da Marinha. “É um espaço de luta, de confraternização e de reencontro com o passado”, ressalta a pesquisadora.

A dança dos quilombolas: cultura preservada
Mais festa para celebrar o Dia da Consciência Negra: homenagem aos antepassados. Foto de divulgação

Nos primeiros anos, ela explica, os visitantes desembarcavam no porto do Cadim (Centro de Adestramento da Ilha da Marambaia) e caminhavam mais de seis quilômetros por trilhas à beira-mar até chegar à Praia da Armação, onde acontece o evento. Hoje, o desembarque é bem mais perto do local da festa. No passeio que Mirian organiza, em parceria com a pintora Fátima Andrade, os visitantes embarcam na escuna Corsário Negro, em Itacuruçá, e desembarcam em pequenos barcos perto da praia.

A Arqmar (Associação dos Remanescentes do Quilombo da Marambaia) e o Grupo Cultural Filhos da Marambaia cuidam de todos os detalhes do evento, com o apoio da comunidade:  limpam o local, constroem mesas de bambu e preparam uma feijoada na lenha, desde o dia anterior (eles ficam acampados lá), com ingredientes levados pelos visitantes. Grupos de capoeira e de jongo se apresentam, e quem quiser pode tomar banho nas praias da ilha. Programe-se. No ano que vem,  tem mais.


Escrito por Andre Luis Mansur

Jornalista e escritor, tendo passado por veículos como Tribuna da Imprensa, Jornal do Brasil e O Globo, onde publicou mais de cem críticas literárias. Tem nove livros publicados, a maioria sobre a história da cidade do Rio de Janeiro, como “O Velho Oeste Carioca”, “Fragmentos do Rio Antigo” e “Marechal Hermes – a história de um bairro”. Vive na zona oeste do Rio de Janeiro, no bairro de Campo Grande.

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