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Marcado pela seca, cearense hoje ajuda a levar água para comunidades

Como milhares de cearenses, Miguel Silveira Neto teve sua vida marcada pela escassez de água. Agora, ele é operador do Sistema Integrado de Saneamento Rural (Sisar)

© by Gabriel Ghidalevich/Conspiração Filmes

Conteúdo de responsabilidade da marca

(Reportagem publicada originalmente no Coca-Cola Journey

Como milhares de cearenses, Miguel Silveira Neto, nascido há 45 anos em Mundo Novo, no interiorzão do estado, teve sua vida profundamente marcada pela escassez de água. Ele ainda se lembra de quando tinha 6 anos e acompanhava a mãe ao açude mais próximo, a um quilômetro de casa. “A gente enchia a lata de água, ela fazia uma rodinha de pano na cabeça, botava a lata em cima e vinha caminhando tranquilamente. Só tirava quando chegava de volta”, conta. “Eram latas quadradas de querosene, de 20 litros cada uma”, acrescenta.

Outra lembrança marcante é da seca em 1983, quando muitos conhecidos deixavam de fazer pelo menos uma das refeições diárias por conta da falta d’água. Lavar roupa, obviamente, não era moleza: “Tinha um açude a três quilômetros daqui. Todo mundo ia. Minha mãe levava as roupas numa bacia grande, lavava tudo e estendia no arame da cerca ou no chão. Precisava esperar secar, pois não dava para trazer a bacia pesada de roupa molhada na cabeça. Quando dava umas duas horas, a gente saía debaixo do sol quente e chegava em casa às três”.

Clique para assistir aos outros episódios do webdocumentário “Terra Molhada”

A dureza dos tempos passados não fez Miguel perder o humor. É com certa nostalgia que ele conta o método para impermeabilizar as latas de querosene quando furavam. “Tinha de pegar um punhado de areia e socar no buraco. Quando a areia entrava em contato com a água, tapava o furo e não vazava mais”, explica.

Apesar de jamais ter tolerado o desperdício, Miguel confessa que usava a água de maneira errada e não tinha a menor noção de higiene na juventude — como, de resto, toda a comunidade: “Do jeito que pegava a água, consumia. Ninguém sabia de onde vinham problemas tipo dor de barriga etc. Sempre culpava algum alimento. Chegou do roçado, comeu uma manga… Passou mal à tarde… Foi a manga! Nunca era a água”.

Eu faço o que amo, não faço por fazer. Abrir uma torneira e ter água no seu chuveiro, na sua pia… Poder lavar uma vasilha, limpar uma casa é muito importante.

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Miguel Silveira Neto

A chegada do Sistema Integrado de Saneamento Rural (Sisar), que começou a ser implantado no Ceará em 1996 e instalou sistemas de abastecimento de água gerenciados pelos próprios moradores em pequenas comunidades, trouxe um novo alento para quem vive nas áreas de seca. Em 2012, Miguel tornou-se o operador de água da região, com as funções de tirar a leitura do hidrômetro e fazer pequenos consertos de manutenção. “Para serviços mais complicados, entramos em contato com o pessoal do Sisar e eles vêm para dar suporte”, diz.

Morador do interior do Ceará hoje a gerir sistema de abastecimento hídrico
Quando tinha 6 anos, Miguel Silveira Neto acompanhava a mãe ao açude mais próximo, a um quilômetro de casa (Foto: Gabriel Ghidalevich/Conspiração Filmes)

Miguel garante que não quer outra vida. “Eu faço o que amo, não faço por fazer. Abrir uma torneira e ter água no seu chuveiro, na sua pia… Poder lavar uma vasilha, limpar uma casa é muito importante”, observa. Com tanto amor pela água, Miguel tem um segredo: não gosta de nadar por conta de um quase afogamento na infância. Mas adora chuva: “Gosto de olhar as nuvens se juntando no inverno porque sei que em pouco tempo vai chover”.

*Esta história faz parte de uma série sobre brasileiros que trabalham para preservar o bem mais valioso do planeta, a água. Todos são beneficiados por projetos apoiados pela Coca-Cola Brasil e também aparecem no documentário “Terra molhada”. Clique aqui para conhecer mais histórias.

COCA-COLA BRASIL

 

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Escrito por Jefferson Lessa

É jornalista formado pela PUC Rio e moldado pelas cidades que conheceu. No começo dos anos 1990, trabalhou na Revista Domingo, do Jornal do Brasil. Foi crítico de cinema e teatro em O Globo, onde escreveu por doze anos a coluna Pé-Limpo, sobre bares “arrumadinhos”, no caderno Rio Show. Trabalhou na revista Veja Rio e nos canais Telecine. É um ser essencialmente urbano. Carioca, ama a cidade onde nasceu, mas quando é preciso falar sério sobre o Rio não passa a mão na cabeça nem dá colher de chá.

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