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Marilyn, quem diria, acabou em Ipanema

Jornaleira assume o personagem, faz sucesso, mas não consegue vender jornais


Os turistas curtem e disparam cliques naquela aparição surreal: uma deusa do cinema que tenta vender jornal em Ipanema. Foto Joaquim Ferrreira dos Santos
Os turistas curtem e disparam cliques naquela aparição surreal: uma deusa do cinema que tenta vender jornal em Ipanema. Foto Joaquim Ferrreira dos Santos

Vender jornal impresso é um negócio cada vez mais difícil e as calçadas de Ipanema estão assistindo a uma das apostas mais radicais na tarefa de reverter o processo. Quem está à frente da banca na esquina das ruas Barão da Torre com Joana Angélica, em Ipanema, é ninguém menos que a jornaleira Marilyn Monroe. Em certos dias ela assume o balcão com o mesmo vestido branco de decote generoso que usou no filme “O pecado mora ao lado”, a da cena do respiradouro do metrô.

Tem jornal que todo dia manda seus exemplares aqui para a banca, eu exponho na vitrine, mas na verdade eu nunca vendi um exemplar sequer. As pessoas estão procurando mais é jornal velho, porque não têm o que usar nas necessidades de seus gatos e cachorros. Este sim é um mercado em expansão

Meire Ximenes
Jornaleira

Pelo resultado comercial obtido na última quinta-feira (9/11) ainda não será dessa vez que o jornal impresso dará um suspiro de esperança rumo a um futuro melhor. Durante todo aquele dia, com as unhas esmaltadas no vermelho mais sanguinolento disponível no mercado, as mãos graciosas de MM tinham conseguido o baixo resultado de sempre. Pela manhã chegaram cinco O Globo, cinco O Dia, um Valor, cinco Meia Hora, dois Expresso e cinco Extra. De toda essa papelada, MM vendeu apenas um exemplar, do Extra.

“Tem jornal que todo dia manda seus exemplares aqui para a banca, eu exponho na vitrine, mas na verdade eu nunca vendi um exemplar sequer”, diz a jornaleira, referindo-se ao diário Povo e, na outra ponta da balança social, o classudo Valor. Devoluções de 100%. Há tempos também que ela não recebe qualquer freguês interessado nas notícias de O Dia. “As pessoas estão procurando mais é jornal velho, porque não têm o que usar nas necessidades de seus gatos e cachorros. Este sim é um mercado em expansão”.

Marilyn na vida real se chama Meire Ximenes, carioca natural do subúrbio de Cascadura, e orgulha-se de ter no rosto, de nascença, a pintinha que em Marilyn era falsa. Comprou a banca há um ano, depois de ter tido outras em Copacabana. Ela própria não é uma leitora de jornais. Lê as primeiras páginas, quando vai arrumá-las para a exposição de todo dia. Diz que não tem tempo para ver o que os jornais noticiam por dentro e prefere se informar pelas redes sociais, por ser mais prático e as notícias irem direto ao que interessa. As revistas, na sua análise, também não exalam futuro. Quase não são procuradas. Nos melhores momentos, saem as de caça-palavras. Outro dia, a apresentadora de TV Leda Nagle passou por lá. Comprou uma revista sobre berinjelas.

Apesar de tudo, Marilyn está tranquila.

“As revistas e os jornais impressos vão acabar, mas as bancas continuarão”, MM diz. “A minha já é mais uma loja de conveniência do que qualquer outra coisa. Não tenho do que reclamar. Se os jornais encalham, vendo cada vez mais álbum de figurinha, refrigerante, incenso, cigarro… Biscoito Globo, por exemplo, sai aos montes”.

Em certos dias Meire assume o balcão com o mesmo vestido branco de decote generoso que usou no filme "O pecado mora ao lado"
Em certos dias Meire assume o balcão com o mesmo vestido branco de decote generoso que usou no filme “O pecado mora ao lado”. Foto Patrick Benfica

O ponto de Meire, conhecido no bairro como “A banca da Marilyn”, fica numa calçada entre grifes badaladas, como a da boate Hippopotamus, o italiano contemporâneo do Picci, o italiano tradicional do La Mole e o popularíssimo Itahy. Protegida por esse movimento, a banca permanece aberta por um horário mais extenso do que o das tradicionais de Ipanema, todas assustadas com a violência e obrigadas a cerrar suas portas num horário cada vez mais diurno.  É neste início da madrugada que Marilyn vende mais água e chiclete, um comércio aguçado pela necessidade de os casais perfumarem o hálito e melhorar a performance do que pode acontecer em seguida aos jantares, drinques e danças. Os jornais continuarão intocados também nesse comércio noturno.

Meire, ao contrário dos jornalistas, continua tranquila. Não conjuga os verbos da crise em nenhuma das suas declinações e quando não está incorporada ao personagem tem uma voz objetiva, de mulher de negócios. Nada a ver com a voz melosa que usa para imitar a musa no famoso “happy birthday, mr president“, uma das brincadeiras de que é capaz na banca para animar as vendas. É uma empoderada sem discurso de gênero, determinada a crescer no empreendedorismo a céu aberto. Além de inaugurar uma geladeira para sorvetes no final deste novembro (está retirando a máquina de pipocas), ela se redesenha para outras atividades fora da banca. Quer agregar novo item de arrecadação ao seu borderô. Mês passado, começou a oferecer seus préstimos artísticos num mercado tipicamente carioca – o de celebridades de rua. São personalidades que as agências de publicidade consideram a alma do Rio, como o gari Sorriso, o farmacêutico Zé das Medalhas, o saudoso Profeta Gentileza e outros nomes famosos da galeria “gente boa”.

Para formar nesse grupo, ela inverteu os códigos e pela primeira vez na história do mercado de notícias no Rio de Janeiro uma jornaleira contratou um jornalista. Patrick Benfica é o assessor de imprensa da Marilyn Monroe carioca. Os resultados para tão pouco tempo de divulgação de imagem da jornaleira têm sido bons: saíram matérias num telejornal da Record e no jornal Extra, todas dizendo em algum momento que “Marilyn vive e bota banca em Ipanema“.

Patrick também abriu uma página para sua estrela no Instagram.  Mesmo quando ela veste trajes civis, são todos bem atochados para deixar desabrochar as curvas de Meire, rata de academia. Para compor o personagem também não dispensa o sapato de salto alto. Está sempre de rímel, usa batom de vermelho forte, perfume de acento mais forte ainda, um certo Gold, da Hinode, um genérico nacional que ela acha ser idêntico ao Chanel número cinco da mitologia de MM. Balança os cabelos e inclina o corpo como se sentisse o eterno bafejar do metrô lhe passando abaixo. O tipo vai se compondo aos poucos, e Meire promete para os próximos dias um cabelo no tom pérola, quase branco, mais próximo do tom da atriz americana.

Os turistas curtem e disparam cliques naquela aparição surreal: uma deusa do cinema que tenta vender jornal em Ipanema. Como não está conseguindo, ela busca, tão carioca, vencer a crise com expedientes que também têm a cara da cidade.

“Eu não posso dar detalhes, mas estou conversando com uma cervejaria para participar de um evento”, diz Marilyn. “O meu grande sonho é fazer presença vip no Copacabana Palace, porque foi lá que a Marilyn ficou quando veio ao Brasil”.

Meire nunca viu um filme completo de Marilyn (1926-1962) e também não é uma expert em sua vida. A atriz americana, como se sabe, não veio ao Brasil, embora de fato tenha tido um jogo rápido, em 1946, quando ainda se assinava Norma Jean Baker, com o playboy Jorge Guinle, da família proprietária do hotel. O uso da imagem de MM por Meire é de pouco mais de um ano. No carnaval de 2016, ela pintou o cabelo, fantasiou-se com o vestido branco e tornou-se uma das personagens mais fotografadas da festa. O corpo, bem desenhado, ajuda a esconder a idade, expediente clássico de toda celebridade de cinema. A Marilyn de verdade morreu aos 36, a de Ipanema já está um pouquinho além, mas ainda faz bonito.

“Parece que a Marilyn era deprimida, se abatia com os problemas, a falta de bons filmes, os amores complicados”, diz Meire. “Eu sou da luta. Os jornais não vendem mais? Não tem problema. Vou ser musa de Hollywood!”


Escrito por Joaquim Ferreira dos Santos

Joaquim Ferreira dos Santos

Jornalista e autor de vários livros, entre eles “Feliz 1958 – O ano que não devia acabar” e as biografias de Leila Diniz, Antonio Maria e Zózimo Barrozo do Amaral. Organizou a coletânea “As cem melhores crônicas brasileiras” e também publicou livros como cronista. Define-se principalmente como um repórter de Cidade. No #Colabora, Joaquim escreve sobre o que vai pelas calçadas e espaços públicos do Rio.

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