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A volta do álbum de figurinhas?

Um inusitado passeio pela crise brasileira a bordo do LinkedIn


No século 21 da comunicação instantânea e das redes sociais, nós passamos a ser as figurinhas carimbadas. Foto Pixabay
No século 21 da comunicação instantânea e das redes sociais, nós passamos a ser as figurinhas carimbadas. Foto: Pixabay

Os maiores de 35 anos certamente vão se lembrar. Afinal, era indescritível o prazer infantil de ser levado pelos pais a uma banca de revistas (que ainda vendia jornais! Vários deles!) para comprar pequenos pacotinhos de adesivos autocolantes, voltar para casa correndo, abrir a embalagem com cuidado e colar as desejadas figurinhas em algum álbum temático – de princesas a jogadores de futebol. A prática, morta com os anos, se resume hoje a alguns grandes eventos esportivos, como a Copa do Mundo. Ou não. Na verdade, diria que, no século 21 da comunicação instantânea e das redes sociais, as figurinhas hoje somos nós.

Pelo menos é o que se pode notar diante da crescente movimentação brasileira no LinkedIn, a rede de busca de contatos profissionais. Em quase três semanas – 18 dias, para ser mais precisa – foram nada menos que 12 pedidos de “amizade” de profissionais de todos os espectros. Esse fenômeno tem sido uma constante. Ando requisitada na rede, embora pouco ou raramente passe por lá. Como usuária passiva e pouco atuante, senti-me como figurinha desejada de colecionadores afoitos. Por que alguém gostaria de fazer contato com uma jornalista desconhecida (e desempregada, diga-se), que vive do outro lado do Atlântico mergulhada em pesquisas acadêmicas para a tese de mestrado? Como essa mesma jornalista pode ser interessante para um técnico em administração do interior de São Paulo que escreve “em busca de apoio para uma recolocação urgente”?

Fica a impressão de haver hordas de usuários ávidos por qualquer conexão capaz de conduzir a uma vaga. De acordo com o LinkedIn, o serviço cresceu e ganhou, nos últimos tempos, 5 milhões de usuários, saltando para um total de 30 milhões no Brasil, a terceira maior população da rede social, atrás apenas de Estados Unidos e Índia

Observar o LinkedIn tem sido um laboratório interessantíssimo. Um termômetro do que se lê no economês dos jornais nesses tempos de desgoverno no Brasil.  Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de desemprego no trimestre encerrado em agosto ficou em 12,6%, o que significa que o país tinha pelo menos 13,1 milhões de cidadãos desempregados. Desespero? Haveria um vale-tudo na busca por uma recolocação profissional? Poderia ser esse um retrato da crise?

Pode ser. Fica a impressão de haver hordas de usuários ávidos por qualquer conexão capaz de conduzir a uma vaga. De acordo com o LinkedIn, o serviço cresceu e ganhou, nos últimos tempos, 5 milhões de usuários, saltando para um total de 30 milhões no Brasil, a terceira maior população da rede social, atrás apenas de Estados Unidos e Índia. Isso significa nada menos que 317 Maracanãs lotados de gente. A maioria dos usuários é homem (55%). Pelo menos 10 milhões estão em São Paulo. O Rio de Janeiro aparece em segundo lugar entre os estados com mais de um milhão de usuários ativos (3 milhões), seguido de Minas Gerais (2 milhões).

“Aumentamos de 25 milhões para 30 milhões de usuários, mas sem conexão com a crise política e econômica do país”, diz Renato Sales, da assessoria do LinkedIn Brasil. “É bem comum mesmo essa situação dos pedidos de conexão, mas ela está mais relacionada à cultura do Brasil com redes sociais do que à crise em si”, afirma.

A maioria dos novos contatos não se dá ao trabalho de enviar alguma mensagem. Quem o faz, porém, surpreende. Parece claro que muitos sequer leem os perfis disponíveis. Afinal, se o fizessem, por exemplo, saberiam que estou longe do país, estudando e, portanto, não tenho empregos a oferecer na Europa e muito menos no Brasil. Alguns enviam currículo e dados pessoais sem qualquer cuidado. Outros mandam pedidos de ajuda claros, dando copy/paste em mensagens enviadas certamente a outras dezenas de usuários.

Há quem derrape nas curvas do português, embora garanta ter mil e uma habilidades linguísticas não só na nossa língua, como nos idiomas de Shakespeare, Cervantes, Goethe e outros. E há até quem ofereça serviços trabalhando como palhaços e duendes

Alguns, ao menos, são da área de comunicação. Mas enviam texto padrão. “Prezados Srs., envio meu currículo para cadastro e concorrer a uma futura vaga: marketing/ mídias Sociais/ jornalista. Sou graduada em Jornalismo, Educação Física (Licenciatura/Bacharel), pós-graduada em Jornalismo Cultural e MBA Internacional em Marketing Digital Estratégico. Experiência prática em Jornalismo/ Marketing: Reportagem, Apuração, Edição de texto/imagem e Assessoria de Imprensa, nos variados canais como: TV, rádio, jornal, revista, assessoria de imprensa e sites desde 1996. Tenho Inglês (avançado), Espanhol (avançado), Francês (básico). Hoje administro o xxxxx. Disponibilidade para viagens. Portadora de dupla nacionalidade (brasileira/portuguesa). Coloco-me à disposição. Cordialmente, xxx”.

Há quem seja artesão. Quem derrape nas curvas do português, embora garanta ter mil e uma habilidades linguísticas não só na nossa língua, como nos idiomas de Shakespeare, Cervantes, Goethe e outros. E há até quem ofereça serviços trabalhando como palhaços e duendes! Sim, há pelo menos dois seres encantados registrados no serviço!

Dados oficiais do LinkedIn identificaram, ainda, 81 passeadores de cachorro e, mais importante, 38 mágicos entre os usuários. A esses, meus sinceros votos de uma rápida e bem-sucedida recolocação profissional. Quem sabe podem ser esses os responsáveis por tirar coelhos de alguma cartola capaz de recolocar o Brasil nos trilhos.


Escrito por Renata Malkes

Renata Malkes

Carioca nada da gema, desde 2016 vive na Alemanha, onde faz mestrado em Estudos de Paz e Pesquisa de Conflito. Jornalista, inconformista e flamenguista. Inquieta. Mochileira e cervejeira. Entre 2002 e 2010 foi correspondente do jornal O Globo no Oriente Médio. Trabalha como repórter freelancer da agência estatal alemã Deutsche Welle. Fala inglês, alemão, hebraico, espanhol e se arrisca no árabe. É fã de humus e uma contadora de 'causos' com as antenas ligadas em direitos humanos, política internacional, filosofia e psicanálise.

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