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Ignorado por Trump, Dalai Lama recebe apoio de congressistas americanos

O presidente dos EUA não dá sinais de que vai receber o líder espiritual tibetano

Tenzin Gyatso, o 14º Dalai Lama, recebe o apoio de congressistas americanos, como a democrata Nancy Pelosi (de branco). Foto:  Tenzin Choejor /OHHDL

As ruas do minúsculo vilarejo de McLeod Ganj, na cidade de Dharamsala (estado de Himachal Pradesh, no norte da Índia), amanheceram mais agitadas do que o normal no dia 10 de maio. O relógio marcava 8h da manhã. Em dias normais, as mães levariam seus filhos para a escola, e os turistas espirituais caminhariam na direção de monastérios budistas e centros de meditação. Mas, naquele dia, a atmosfera era bem outra. As mulheres desfilavam com suas “chubas” de seda, os longos e elegantes vestidos típicos do Tibete. Os homens exibiam seus trajes de gala, também chamados “chubas”: uma espécie de paletó tibetano.

Um estrangeiro desavisado poderia pensar que o motivo de tantos tibetanos saírem às ruas tão cedo com suas melhores roupas seria alguma festividade matinal para marcar o aniversário de Buda, segundo o calendário indiano. Mas a razão da pompa era outra. “Os americanos estão chegando”, lembrou o dono de uma lojinha de incensos, chás e artesanato tibetano.

A China usa sua força econômica para reprimir o apoio aos tibetanos

Nancy Pelosi
Líder democrata no Congresso americano

Para irritação de Pequim, uma delegação de congressistas americanos desembarcou em McLeod Ganj para prestar publicamente solidariedade a Tenzin Gyatso, o 14º Dalai Lama, líder budista e espiritual dos tibetanos, em um momento em que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, flerta com o líder chinês Xi Jinping. Desde que assumiu, Trump tem ignorado a espinhosa questão tibetana e não dá sinais de que vai receber “Sua Santidade” (como o Dalai é chamado por seu povo), como fizeram seus antecessores.

Hoje em dia, ser americano não traz exatamente prestígio em muitas partes do mundo. Mas, entre os refugiados tibetanos, os americanos são vistos como uma espécie de “salvadores da pátria”. Seus “amigos americanos” há anos apontam o dedo na direção dos chineses, acusando-os de desrespeitarem os direitos humanos no Tibete, embora os próprios acusadores atropelem esses mesmos direitos onde lhes convém. A região apelidada de o “Teto do Mundo” foi invadida pelas tropas de Mao Tsé-Tung, em 1950, e um banho de sangue ocorreu nos anos subsequentes (estima-se que 1,2 milhão de tibetanos tenham sido mortos). De 2009 até hoje, 147 tibetanos já se imolaram em protesto contra a repressão de Pequim.

Apesar de todo o desrespeito aos direitos humanos no Tibete, a China é a principal parceira comercial dos EUA. No final das contas, é a ganância que conta

Tenzin Tsundue
Poeta e ativista tibetano

A China costuma descrever a ação como “libertação pacífica” do Tibete e afirma que trouxe prosperidade a uma região que era conhecida pelo atraso econômico e social. Há 58 anos, o Dalai Lama foi obrigado a fugir de Lhasa para buscar exílio na Índia, terra natal de Buda. O líder espiritual foi seguido por dezenas de milhares de tibetanos (cerca de 100 mil vivem no exílio indiano e seis milhões no Tibete).

Apresentação para dar boas-vindas aos congressistas americanos. Foto:  Tenzin Choejor /OHHDL

McLeod Ganj é um dos vários locais na Índia com forte presença da diáspora tibetana. Esse vilarejo de sete ruas tornou-se um ímã de turistas espirituais por ser a casa do líder budista. Mesmo pequeno, o lugar é fonte de muitas dores de cabeça para a gigantesca China. E no dia 10 não foi diferente. A delegação de americanos era composta por sete democratas e um republicano.

No Templo de Tsuglag khang, em frente à residência do Dalai Lama, um imenso pôster resumia a pressão feita pelos tibetanos na Era Trump. Nele estavam impressas fotos do Dalai Lama sendo recebido por George H. W. Bush, por Bill Clinton, por George W. Bush, e por Barack Obama. E Trump, vai receber o Dalai Lama? Era a pergunta pendurada no ar. Nancy Pelosi, líder democrata no Congresso americano e uma antiga aliada dos tibetanos, encabeçava a delegação. “A China usa sua força econômica para reprimir o apoio aos tibetanos”, disse, ao lado do Dalai Lama, em seu discurso para milhares de tibetanos, indianos e estrangeiros.

O conceito de impermanência (tudo muda constantemente, nós mudamos, o mundo muda) é central para entender a filosofia budista. Os tibetanos aprenderam de forma amarga que essa impermanência vale também na geopolítica. Entre os anos 50 e 70, os EUA apoiaram uma guerrilha tibetana contra a China por meio de uma das operações mais secretas da CIA. Mas tudo mudou nos anos 70, quando Richard Nixon _ republicano como Trump _ liderou a aproximação de Washington com Pequim. O apoio americano à resistência tibetana desapareceu em nome de interesses comerciais maiores. Mas mesmo assim os presidentes americanos costumam alfinetar a China na questão dos direitos humanos no Tibete.

Novamente, no século XXI, a impermanência geopolítica assombra os refugiados. O presidente americano disse que construiu uma relação forte com Xi Jinping, “meu amigo, que tem feito um trabalho maravilhoso como líder”.
Diante da incerteza, o Dalai Lama – sempre com seu jeito bem-humorado – demonstrou seu desconforto com Trump antes mesmo de sua vitoria. Um vídeo imperdível mostra o líder budista descrevendo o cabelo e a boca miúda de Trump.

Estava prevista uma viagem do Dalai Lama aos EUA em abril. Mas foi cancelada. O Dalai, hoje com 81 anos, estava fisicamente exausto, justificaram seus representantes. Em junho ele deverá desembarcar nos EUA. Mas Washington não consta do seu roteiro.

Pequim chama o Dalai Lama de “perigoso separatista”, apesar de o budista não mais pregar a independência, mas defender apenas a autonomia para o Tibete. A pressão diplomática chinesa tem feito com que vários governos se recusem a receber o Prêmio Nobel da Paz de 1989. O Dalai Lama já teve até mesmo o visto negado pela África do Sul.

A visita da delegação americana a McLeod Ganj serviu para injetar um pouco de ânimo entre os refugiados e tibetanos já nascidos na Índia. Mas a expressão de tristeza ainda era visível no rosto de muitos ali presentes. Sua causa parece perdida. O Tibete é muito precioso para Pequim e nada sugere uma mudança no horizonte.

Há alguns anos, o governo chinês tem colocado em prática uma política de migração de chineses da etnia Han no Tibete. Hoje, eles já ultrapassam numericamente os tibetanos na região. No Tibete – uma plataforma de mísseis balísticos chineses e região riquíssima em matérias-primas, como lítio e cobre – nascem cinco rios da Ásia. Chance zero de Pequim baixar a guarda nessa questão.

O único parlamentar republicano da delegação, Jim Sensenbrenner procurou convencer o público de que seu partido está unido com os democratas na questão tibetana, apesar da frieza de Trump. “Os partidos americanos não estão em desacordo nisso. Estou muito orgulhoso de estar aqui. É preciso oferecer Justiça aos tibetanos na questão religiosa, cultural e linguística”. Detalhe: o republicano não se referiu à questão política. O democrata Jim McGovern foi um pouco mais enfático: “ Eu vou insistir com o meu governo para que se engaje regularmente com o Dalai Lama”.

O poeta e famoso ativista tibetano Tenzin Tsundue admitiu que saiu do templo com sentimentos mistos. “A não violência deve ser uma mensagem para os dois lados: para a China e para os Estados Unidos também. Apesar de todo o desrespeito aos direitos humanos no Tibete, a China é a principal parceira comercial dos EUA. No final das contas é a ganância que conta”, lamentou. Para aplacar o sentimento de orfandade da comunidade tibetana na Índia, Lobsang Sangay, primeiro-ministro dos tibetanos no exílio, afirmou: “Nós ainda esperamos que a nova administração de Trump continue a tradição de receber o Dalai Lama”.

“Na base da paciência está o céu”, diz um provérbio tibetano. A comunidade vai precisar de muita paciência na Era Trump.

Escrito por Florência Costa

Florência Costa

Jornalista freelancer, especializada em cobertura internacional e política, foi correspondente na Rússia pelo Jornal do Brasil e serviço brasileiro da rádio BBC. Em 2006 mudou-se para a Índia para ser correspondente do jornal O Globo É autora do livro “Os Indianos”.

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