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Morte de grávidas no Brasil: pesadelo longe do fim

Levantamento da Fundação Abrinq mostra que o país está bem distante de atingir meta da ONU de redução de óbitos maternos

Mulheres grávidas. Foto de Marie Bienaimé / BSIP/ AFP
A taxa de mortalidade de grávidas pretas e pardas é maior que a de gestantes brancas. Foto de Marie Bienaimé / BSIP/ AFP

O Brasil está em dívida com a ONU. O rombo vem crescendo e, antes mesmo de quitar o compromisso assumido anteriormente, o país já acumula um novo déficit. Seis dos sete Objetivos de Desenvolvimento do Milênio foram atingidos – a única meta que não foi cumprida trata da redução da mortalidade materna. O desafio permanece e o pior, foi transferido automaticamente para os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), a nova agenda global que entrou em vigor em 2015 e vai até 2030.

Levantamento da Fundação Abrinq alerta que as metas dos ODS estão sob risco e os óbitos maternos continuarão pressionando a dívida social brasileira. Ou seja, pela segunda vez consecutiva, a meta não será cumprida. Precificar o tamanho desse rombo é impossível, mas é fácil entender a dimensão do endividamento, dado que a causa mortis das mulheres grávidas no Brasil está intimamente ligada à pobreza e, por consequência, à ausência de uma política pública de saúde para as gestantes.

Só em 2015, morreram 1.738 grávidas no Brasil. A taxa de mortalidade materna do país foi de 54,9 para cada 100 mil nascidos vivos, bem acima, portanto, da meta da ONU que é de 35 mortes a cada 100 mil nascidos vivos. Regionalmente, as disparidades, ainda segundo o levantamento da Abrinq, tornam-se mais evidentes, uma vez que as regiões Sudeste (49,8) e Sul (40,8) foram as únicas a apresentar taxas mais baixas do que a nacional, em 2015. As regiões Norte (65,1), Nordeste (64,7) e Centro-Oeste (56,3) apresentam as mais altas taxas de mortalidade materna, compartilhando uma média de 62 mortes maternas para cada 100 mil nascidos vivos. Pressão alta, ou eclâmpsia, hemorragia, infecção e aborto clandestino lideram o ranking dos principais motivos por trás das mortes.

Se o país atacasse o problema especialmente em cinco estados, onde a situação é crítica, seria possível reduzir a taxa brasileira de mortalidade materna em 50%

Denise Cesario
gerente executiva da Fundação Abrinq

A gerente executiva da Fundação Abrinq, Denise Cesario, está convencida de que “se o país atacasse o problema especialmente em cinco estados, onde a situação é crítica, seria possível reduzir a taxa brasileira de mortalidade materna em 50%”. Só que nada indica, diz ela, que o Brasil esteja imbuído da tarefa.

Roraima é o estado com o número de óbitos maternos mais elevado do país: 97,4 para 100 mil nascidos vivos. Nos estados vizinhos do Nordeste, como Maranhão e Piauí, as taxas são igualmente elevadas, e bem acima dos parâmetros considerados desejáveis pelas Nações Unidas: 87,8 e 83,3 respectivamente, para 100 mil nascidos vivos. O oposto de Roraima é Santa Catarina, com a menor taxa do Brasil: 28,8 óbitos de grávidas para cada 100 mil nascidos, em 2015, o que iguala o estado a países como a Ucrãnia (24), Armênia (25), Irã (25) e Azerbaijão (25). Minas Gerais e São Paulo também estão entre os estados com taxas semelhantes. Chama a atenção, sublinha Denise Cesario, que São Paulo se situe entre os estados com menores taxas de mortalidade materna, uma vez que reúne o maior contingente populacional do país.

As desigualdades não são apenas regionais. Se somarmos as mulheres negras com as pardas, chegaremos à conclusão de que a cor da pele também é um indicador importante para refletir sobre os óbitos maternos. Em 2015, morreram 1.079 grávidas negras e pardas no país contra 559 gestantes brancas. As mães solteiras morrem mais que as casadas e as viúvas. Os óbitos maternos no país seguem, portanto, a mesma lógica que permeia os indicadores sociais da pobreza, onde os negros encabeçam a lista.

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