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Carros elétricos no alto do pódio

Fórmula E fica cada vez mais emocionante, lucrativa, relevante e sustentável

O brasileiro Lucas Di Grassi comemora o título da temporada de Fórmula E. Foto Antonio Vincent/DPPI
O brasileiro Lucas Di Grassi comemora o título da temporada de Fórmula E. Foto Antonio Vincent/DPPI

No último domingo, enquanto disputava-se na Hungria o primeiro GP de Fórmula 1 sem um brasileiro na pista desde 1982, em Montreal, no Canadá, o piloto paulista Luca Di Grassi sagrava-se campeão mundial da Fórmula E, modalidade de disputa com carros elétricos organizada pela Federação Internacional de Automobilismo (FIA). Com nove etapas nesta sua terceira temporada (2016/2017), patrocinadores fortes e o anúncio da adesão de novas grandes fábricas de veículos, a categoria esportiva é um sinal do investimento mundial em carros elétricos, como forma de reduzir as emissões de carbono e combater o aquecimento global. Em uma corrida como a da Hungria, com 70 voltas e 306 quilômetros de percurso no total, especialistas calculam que os 20 carros da Fórmula 1 emitem cerca de 11 toneladas de CO2 – isso apenas na corrida, sem contar os dois dias de treinos. A corrida da Fórmula E, com seus carros movidos a bateria, tem baixíssima emissão de carbono e a modalidade persegue a meta de ser neutra nas emissões.

Possivelmente, no futuro, os motores de combustão somente possam competir em séries esportivas. Assim, se um dia a indústria automotiva for 100% elétrica, talvez a Fórmula E ganhe ainda mais importância para as montadoras

Jean Todt
Presidente da FIA

Di Grassi, que chegou a disputar a temporada 2010 na Fórmula 1, é piloto da equipe Abt Audi, da fábrica alemã. A tricampeã da competição de construtores de carros elétricos é a Renault francesa, que tem como diretor esportivo o tetracampeão de F 1 Alain Prost – seu filho, Nicholas, é piloto da equipe. Também disputam a Fórmula E a tradicional Jaguar, britânica; a Virgin, do milionário inglês Richard Branson, que já competiu na F1; a americana Andretti, com títulos na F Indy, a chinesa Techeetah e a indiana Mahindra. A Mercedes, atual tricampeã da Fórmula 1, já anunciou que terá sua equipe de carros elétricos na quinta temporada (2018/2019) e a também alemã Porsche, especializada em corridas longas da categoria turismo como as 24h de Le Mans, já assinou contrato para se juntar à Fórmula E na sexta temporada. A lista dos pilotos tem outros com experiência na principal categoria do automobilismo como o suíço Sebastian Buemi, o alemão Nick Heidfeld, e o brasileiro Nelson Piquet Jr.

Os carros da Fórmula E não são tão rápidos como os da F 1 – chegam a 230 km/h e as Mercedes e Ferraris passam dos 300km – mas os veículos elétricos avançam com velocidade no mercado automobilístico. No começo de julho, a sueca Volvo anunciou que todos os seus carros serão elétricos a partir de 2019 – o que vai torná-la a primeira fábrica tradicional a abandonar os motores movidos a combustíveis fósseis. Em junho, a alemã Porsche já comunicara que tem o objetivo de ter metade de suas vendas representadas por carros elétricos até 2023.  De acordo com recente relatório da International Energy Agency (IEA), o número de veículos elétricos em circulação no mundo passou a marca de 2 milhões em 2016, o que ainda representa apenas 0,2% dos carros nas ruas. Mas, com base nas informações das montadoras, a IEA calcula que o número de carros elétricos em circulação alcance entre 10 e 20 milhões até 2020 e chegue a algo entre 40 a 70 milhões até 2025.

As fábricas planejam com um olho no mercado e outro nas exigências das autoridades públicas, principalmente em países onde não há dúvida sobre as ameaças representadas pelas emissões de carbono e pelas mudanças climáticas. No dia 6 de julho, a governo da França informou que vai proibir a venda de todos os veículos a gasolina e a diesel a partir de 2040.  A Noruega já havia se comprometido a banir os carros a combustão a partir de 2025. E, três semanas depois da França, a Inglaterra anunciou a mesma decisão – proibir carros a diesel e gasolina – a partir da mesma época, 2040. Em Londres, já existe um programa de renovação da frota que incluiu subsídios para a substituição dos ônibus convencionais por modelos híbridos – elétricos e a combustão – ou por coletivos movidos exclusivamente à eletricidade.

Os carros da Fórmula E não são tão rápidos como os da F 1 - chegam a 230 km/h e as Mercedes e Ferraris passam dos 300km . Foto Antonio Vincent/DPPI
Os carros da Fórmula E não são tão rápidos como os da F 1 – chegam a 230 km/h e as Mercedes e Ferraris passam dos 300km . Foto Antonio Vincent/DPPI

Essa tendência explica o interesse das fábricas na Fórmula E que tem o objetivo de repetir a Fórmula 1 que tradicionalmente sempre serviu como cenário de testes para tecnologias que depois eram estendidas aos carros de passeio. O presidente da FIA, o francês Jean Todt, disse, em entrevista durante a etapa de Nova York da Fórmula E, há duas semanas, que o interesse na categoria vem crescendo velozmente tanto das equipes como dos patrocinadores. O futuro dos carros de passeio, para Todt, ex-presidente da Ferrari, é elétrico. “Possivelmente, no futuro, os motores de combustão somente possam competir em séries esportivas. Assim, se um dia a indústria automotiva for 100% elétrica, talvez a Fórmula E ganhe ainda mais importância para as montadoras”, afirmou.

Desde que assumiu a presidência da FIA, em 2009, Todt fez com que a entidade deixasse de ser apenas uma organizadora de competições esportivas. A FIA passou a promover campanhas de segurança no trânsito e a patrocinar pesquisas para a redução das emissões de carbono. Foi o francês – casado com atriz Michelle Yoh, ermbaixatriz da Boa Vontade das Nações Unidas – quem idealizou a Fórmula E e conseguiu as parcerias para garantir sua expansão. Na temporada terminada domingo, foram nove etapas – Hong Kong, Marrakesh, Cidade do Médico, Buenos Aires, Mônaco, Paris, Berlim, Nova York e Montreal – e 12 corridas no total: as últimas três etapas tiveram duas provas, sábado e domingo.  Entre os patrocinadores, estão o banco suíco Julius Bar, a operadora de cartões Visa e a seguradora Aliansz, todos com tradição em investimento em esportes; parceiros do automobilismo como a fábrica de pneus Michelin, o fabricante de relógios e cronômetros TagHeuer e a montadora alemã BMW, que negocia participar da categoria; além de investidores com foco no setor como a fabricante de caminhões elétricos Charge e Qualcomm, empresa de tecnologia, que já desenvolveu abastecimento sem fio para carros elétricos e trabalha para aperfeiçoar ferramentas nessa linha.

Ainda na próxima temporada, que tem largada marcada para Hong Kong em dezembro, os pilotos ainda devem usar dois carros por corrida. Estão previstas 11 etapas, inclusive a primeira no Brasil: em março, na capital paulista. Cada prova dura cerca de uma hora, mas as baterias dos carros elétricos duram apenas a metade desse tempo. Assim, no meio da prova, os pilotos fazem um pit stop para trocar de carro; economizar a bateria também faz parte da preocupação dos pilotos para ficar mais tempo na pista ou usar mais potência no fim. Na quinta temporada (2018/2019), a previsão da Fórmula E é que os carros passem a usar uma bateria – desenvolvida pela McLaren Technologies, outra marca da Fórmula 1 – que dure uma prova inteira.

Os carros elétricos são a principal ação sustentável da Fórmula E, mas não a única. As baterias são recarregadas através de geradores que utilizam glicerina como combustível. De acordo com a direção da categoria, os geradores com glicerina – combustível não tóxico, sem cheiro e biodegradável que pode ser conseguido através de biodiesel ou de algas plantadas em águas salgadas – garantem ter baixíssimo nível de emissão de carbono e também de barulho causado pelos carros, cerca de 40 decibéis a menos que uma fórmula 1.  A italiana Enel, especializada em energias renováveis, também é parceira da categoria para desenvolver projetos para evitar emissões do controle do uso de energia elétrica a painéis solares para captar energia para áreas dos circuitos.

O futuro dos automóveis pode mesmo ser elétrico como prevê Jean Todt, mas as competições esportivas têm mais ameaças ao ambiente do que apenas as corridas e seus carros movidos a combustão de diesel ou gasolina. Cálculos indicam que as corridas em si representam apenas 1% das emissões de carbono geradas pela Fórmula 1, que impacta muito mais o ambiente com o uso de matérias-primas, a fabricação de peças e dos próprios carros e a energia gasta com equipamentos como os túneis de vento. E o mais difícil de reduzir: as equipes voam, a cada ano, mais de 160 mil quilômetros – com seus carros, pilotos, mecânicos e toneladas de equipamentos –  para fazer testes e disputar provas em 20 países em quatro continentes. É muito carbono.

Escrito por Oscar Valporto

Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Está de volta ao Rio após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. É criador da página no Facebook #RioéRua, onde publica croniquetas semanais sobre suas andanças pela cidade.

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