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A dama solitária do incentivo à leitura

Moradora de Petrópolis toca sozinha, há 33 anos, projeto para levar livros infantojuvenis a escolas da Região Serrana do Rio

Cerca dois mil títulos de livros chegam às escolas da região serrana do Rio, anualmente, por um projeto voluntário de incentivo à leitura. Foto: Leemage/AFP

Todo ano, cerca de dois mil livros infantojuvenis circulam entre crianças e adolescentes de escolas e instituições de Petrópolis e arredores.  As obras chegam à região na carona do Clube Cultural Dragão Azul, projeto voluntário de incentivo à leitura, tocado há 33 anos, por uma única pessoa – a designer Maria Cristina Basilio, de 73 anos -, com poucos recursos, boa dose de empenho e muita paixão pela literatura.

Designer de formação, Maria Cristina, a Kiki, como é conhecida, trabalhou por 15 anos no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Sua intenção inicial, era apenas complementar a educação de seus três filhos. Mas, separada e morando em Petrópolis, precisou  deixar o emprego na capital para se dedicar aos rebentos, ainda pequenos. A montagem da peça O Boi e o Burro no Caminho de Belém, de Maria Clara Machado, no Natal de 1984, que reuniu 20 crianças, foi a largada para a criação do Clube Cultural Dragão Azul, batizado assim em homenagem a dois livros da escritora e dramaturga: O Cavalinho Azul e O Dragão Verde.

É um projeto voluntário e completamente familiar e doméstico. Sou eu, meus livros e a minha casa. Não tem vínculo político, nem com empresas, nada. Sou eu e eu

Maria Cristina Basilio
Criadora do Clube Cultural Dragão Azul

Durante dez anos, o clube promoveu passeios culturais com a garotada, pontuados pela leitura de livros infantis. Com essa ação,  em 1994 o Dragão Azul ficou em segundo lugar do concurso Os Melhores Programas de Incentivo à Leitura, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil – FNLIJ, seção nacional brasileira do International Board on Books for Young People – IBBY. Como prêmio, recebeu um acervo de 230 livros para crianças e jovens. Para Kiki, o Dragão Azul também provoca um efeito multiplicador.  “Quando recebo um prêmio e isso é noticiado, começam a pipocar outros projetos. As pessoas se entusiasmam”, acredita.

Kiki e a sua Olivetti, além dos livros, único patrimônio do Dragão Azul. Foto Cristina Bacelar
Kiki e a sua velha Olivetti:  único patrimônio do Dragão Azul, além dos livros. Foto de Cristina Bacelar

E entusiasmo jamais faltou. Os membros do grupo original já estavam adultos quando Kiki resolveu que o clube entraria em nova fase, a Novos Rumos, inspirada no projeto Ciranda de Livros, também da FNLIJ, pioneiro em levar obras infanto-juvenis para escolas públicas, na década de 1980. Assim, Kiki ofereceu seu acervo, como empréstimo, aos colégios próximos de sua casa. A rede foi crescendo e, ao longo desses mais de 30 anos, o projeto chegou a 56 escolas e instituições. No princípio, o prazo de devolução era de três a seis meses. Depois, passou a ser anual. O processo é simples: cada livro tem uma ficha, em que é inscrito o nome da instituição para onde ela se destina. O número máximo de exemplares, para cada escola, é de 300. Com apenas uma máquina de escrever Olivetti, único patrimônio do projeto, além dos livros, o Dragão Azul foi premiado outras duas vezes no concurso da FNLIJ, aumentando seu acervo, que hoje tem seis mil títulos.

O grande diferencial é o atendimento personalizado que cada escola recebe. Kiki conhece todos os livros de seu acervo e conversa com diretoras, professoras e alunos, selecionando os títulos não só por faixa etária ou pelos pedidos das turmas, mas também pelos projetos em curso nas aulas. Tocando sozinha o projeto, Kiki, muitas vezes,  vai de ônibus para as escolas, levando sacolas com os livros. Para as instituições de ensino mais distantes ou que recebem muitos livros, ela conta com a ajuda dos professores.  “É um projeto voluntário e completamente familiar e doméstico. Sou eu, meus livros e a minha casa. Não tem vínculo político, nem com empresas, nada. Sou eu e eu”, faz questão de frisar.

Kiki comenta os livros com alunos e professres de uma escola em Petrópolis. Foto de Cristina Bacelar
Kiki comenta os livros com alunos e professores de uma escola em Petrópolis. Foto de Cristina Bacelar

Para 2017, a previsão é trabalhar com 15 colégios. Entre eles, a Escola Municipal Dr. Rubens de Castro Bomtempo, no bairro Vila Felipe, em Petrópolis, que este ano recebeu 300 títulos. Com cerca de 900 alunos, do 1º ao 9º ano, a instituição participa do projeto desde 2005. Marcela dos Santos, professora do 9º ano, apresenta os livros para turma, mas não impõe leituras nem cobra trabalhos. “Normalmente, estimulo, comentando sobre as obras que li, o que desperta o interesse deles”, explica. O acervo circula bastante e o resultado aparece no rendimento escolar dos jovens leitores. “Eles têm um diferencial no repertório linguístico, falam e escrevem melhor. O aproveitamento nas outras matérias também aumenta”. Sara, de 13 anos, aluna de Marcela, concorda. “Sempre que leio, aprendo uma palavra nova e também melhoro a pontuação”.

Entre 2007 e 2014, Kiki promoveu oficinas com as crianças nas escolas. A partir de um tema, selecionava livros do lote de cada colégio participante e criava maquetes com os alunos. “A oficina Navegação, por exemplo, tinha leitura sobre a época das grandes descobertas. Foi linda e culminou com a construção de barcos”, lembra. Ela continua empolgada com seu projeto e não fala em prazo para acabar com o Clube Cultural Dragão Azul. “Gosto muito de proporcionar a essas crianças o que meus filhos tiveram e o que outras também têm”.  No entanto, Kiki avisa que, ano que vem, pretende atender menos escolas. “Vai depender da minha disposição física”, diz. “Mas depois da arrancada do início do ano, acabo ficando elétrica!”, empolga-se.

Escrito por Cristina Bacelar

Cristina Bacelar

Jornalista, atuou como produtora para televisões estrangeiras e trabalhou como repórter e redatora na publicação brasileira da revista HOLA!

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