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Sete heranças portuguesas que são a cara do Brasil

Historiador lista curiosas e pouco conhecidas marcas da colonização portuguesa no Rio de Janeiro e no país

Caravela na Praça XV: as muitas heranças de Portugal no Centro (Foto Marcio Menasce)
Caravela na Praça XV: uma das muitas heranças de Portugal no Centro do Rio (Foto: Márcio Menasce)

No dia 22 de abril de 1500, as caravelas Pinta, Nina e Santa Maria  aportaram em solo brasileiro pela primeira vez, sob o comando de Pedro Álvares Cabral. Este episódio, como se sabe, é chamado de descobrimento do Brasil. Passados 517 anos, parte do que Portugal deixou por aqui ao longo destes mais de cinco séculos também pode ser descoberta, ou melhor, redescoberta pelos brasileiros. Convidado do programa “Como Será?”, da TV Globo, que será exibido neste sábado, 22 de abril, o historiador Antônio Edmilson Rodrigues ajuda a contar essa história que vai além das referências óbvias e, por vezes, surpreende. Confira nossa lista.

1 – Ora, pombas

Talvez pouca gente saiba, mas os pombos, hoje encontrados em  qualquer esquina ou praça das grandes cidades, que por transmitir doenças são até chamados de ratos com asas, não são nativos do Brasil. Eles foram trazidos propositalmente nos navios, diretamente de Portugal. Não que os colonizadores quisessem espalhar qualquer doença, é claro. Segundo o historiador, os pombos foram “importados” para terras brasileiras porque estavam associados à religiosidade, e a Coroa Portuguesa era extremamente católica. Os pássaros eram, então, símbolos de proteção divina. “Desde a Idade Média, o Divino Espírito Santo é representado pela imagem de uma pomba. Por isso, esses pássaros foram trazidos ao Brasil”, conta Rodrigues.

Os pombos que estão por toda parte no Rio foram trazidos em navios diretamente de Portugal (Foto Marcio Menasce)
Os pombos, que estão por toda parte no Rio, foram trazidos em navios diretamente de Portugal (Foto: Marcio Menasce)

2 – Árvore que dá em barco

Outra herança de Portugal com a qual praticamente tropeçamos em cada esquina são as amendoeiras. Mas, diferentemente dos pombos, essas árvores foram trazidas por razões práticas. “As amendoeiras eram usadas como lastro de navio. Elas vinham nos porões só para equilibrar as embarcações. Eram sementes, pedaços de tronco e galhos. As sementes foram se espalhando naturalmente pela terra, e acabaram nascendo em toda a orla do Rio de Janeiro. Depois, elas foram plantadas propositalmente nos subúrbios, porque eram áreas de muito calor e terra. Ali as amendoeiras serviam para urbanização das ruas, demarcando os trajetos e ainda faziam sombras grandes”, explica o professor.

As amendoeiras, que se espalham por todo o Rio de Janeiro, vieram de Portugal em navios (Foto Marcio Menasce)
As amendoeiras que se espalham por todo o Rio de Janeiro vieram de Portugal em navios (Foto Marcio Menasce)

3 – Misericórdia!

Na maior parte das cidades com colonização portuguesa você vai encontrar um deles, lugares denominados Largo da Misericórdia. No Rio de Janeiro, não é diferente. O largo fica no Centro, junto ao Museu Histórico Nacional e à Igreja Nossa Senhora do Bonsucesso. Segundo o historiador, era tradição portuguesa batizar com este nome os pontos referenciais para o início da urbanização das cidades. Portanto, ele ressalta, esta foi a primeira área verdadeiramente urbanizada do Rio.

4 – Olha o chão

Lá mesmo, no Largo da Misericórdia, está outra marca portuguesa, com certeza: o calçamento com as chamadas pedras pé de moleque. São iguais às que se vê nas cidades históricas de Minas Gerais, ou em Paraty, na Costa Verde do Rio. “Esse tipo de calçamento era usado para ajudar a travar as rodas das charretes. Por isso, ele é feito de pedras totalmente irregulares, cada uma tem formato e tamanho aleatórios. Isso impedia as charretes e carruagens de escorregar nas ladeiras”, destaca Rodrigues.

O Largo da Misericórdia no Centro do Rio, foi o marco do início da urbanização da cidade, como aconteceu com outros locais colonizados por Portugal (Foto Marcio Menasce)
O Largo da Misericórdia, no Centro do Rio, foi o marco do início da urbanização da cidade (Foto: Marcio Menasce)

5 – Se essa rua fosse minha…

Um símbolo imaterial da presença portuguesa por aqui é a forma de nomear as ruas em homenagem a santos e pessoas com importância social ou política. De acordo com Rodrigues, antes do período de residência da família real no Brasil, as ruas não tinham nomes. Eram conhecidas como “rua da praia”, ou “rua de dentro” etc. A partir da chegada de Dom João VI, começou a mudança e os nomes foram gradativamente trocados.

6 – O segredo do chafariz

Também no Centro do Rio, está mais uma curiosidade da marca da colonização brasileira.  O conhecido Chafariz do Mestre Valentim é um simbolo do projeto colonizador português. Em seu topo está a Esfera Armilar, a mesma que ornamenta a bandeira portuguesa e que representa a  presença universal do país. Ou seja, sua determinação de conquistar terras por todo o mundo. Aliás, o monumento pouco se parece com um chafariz tradicional – hoje nem verte mais água. Apenas olhando-se bem atentamente, é possível ver pequenas bicas nas laterais, que eram usadas para pegar água por marinheiros que aportavam por ali.

O Chafariz do Mestre Valentin guarda símbolo do imperialismo português (foto Marcio Menasce)
O Chafariz do Mestre Valentim guarda símbolo do imperialismo português (Foto: Marcio Menasce)

7 – Festa abrasileirada

Apesar de todas os símbolos materiais da presença portuguesa no Brasil, como as construções coloniais, os azulejos, ou mesmo os doces e o bacalhau, há outras marcas culturais que eles deixaram no Brasil e que, de tão incorporadas pelos brasileiros, já não têm quase nada em comum com sua origem. Um exemplo são as festas juninas. Segundo Rodrigues, essas festas são comemoradas até hoje em Portugal, mas não têm qualquer semelhança com a maneira como as celebramos no Brasil. “Em Portugal, junho é o mês das festas porque 13 de junho é o dia do padroeiro de Lisboa, Santo Antonio.  Dia 24 é do padroeiro do Porto, São João. E o dia de São Pedro, padroeiro de Vila Nova de Gaia, é 29. O país inteiro comemora essas três datas. Aqui no Brasil, herdamos a tradição, mas as festas acabaram ficando diferentes, incorporando os hábitos sertanejos e de outras partes do mundo. Os portugueses, por exemplo, não dançam quadrilha, mas outras danças tradicionais de lá”, diz Rodrigues.

Escrito por Márcio Menasce

Márcio Menasce

É jornalista. Trabalhou no Globo, no Dia, na Folha de S.Paulo e como repórter do Dia Online. Também esteve em assessoria de imprensa, nas áreas de negócios e tecnologia da informação.

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