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O aplicativo do desapego

Ferramenta incentiva os negócios locais e a redução do consumismo

De acordo com o Ibope, 38% dos brasileiros têm pelo menos duas coisas em casa que quase não usam e poderiam ser vendidas. Foto Antonio Saba / Cultura Creative
De acordo com o Ibope, 38% dos brasileiros têm pelo menos duas coisas em casa que quase não usam e poderiam ser vendidas. (Foto Antonio Saba / Cultura Creative)

Um estudo feito pelo Ibope mostrou que 38% dos brasileiros têm pelo menos duas coisas em casa com pouco uso que poderiam ser comercializadas, o que significaria um movimento de R$ 105 bilhões no mercado de bens usados. E você – com aquele vestido que comprou para ir a uma festa e nunca mais usou ou com um eletrodoméstico que parecia essencial, mas só foi ligado uma ou duas vezes – ainda está de fora? Pois a tecnologia anda abrindo cada vez mais caminhos para a economia colaborativa, e eles se cruzam e geram esquinas. Ou pelo menos o Skina, um aplicativo para celulares que facilita o encontro de quem quer comprar ou vender mercadorias pouco usadas, a preços camaradas.

Os usuários estão reaproveitando seus produtos usados, incentivando um consumo mais sustentável. Em vez de ir ao shopping, buscam consumir de uma maneira mais consciente e local

Gabriel Di Bernardi
Diretor do Skina

Sim, você já deve conhecer outras iniciativas deste moderno comércio de usados, a exemplo dos grupos de desapego em redes sociais como o Facebook. Por meio deles, é possível prolongar a vida dos produtos, de uma certa forma reciclando-os dentro de um mercado local. A vantagem do app é que ele usa a geolocalização dos usuários para mostrar ofertas que estão ao redor, separadas por preços e categorias (como moda, assessórios e eletrônicos, que totalizam 60% da preferência dos usuários). Pode ser bem mais fácil e mais barato encontrar o que você precisa do que ir a um shopping. E você ainda pode juntar o dinheiro da venda daquele vestido e do tal eletrodoméstico para as compras.

O aplicativo do Skina está disponível, gratuitamente, para Android e iOS. Foto Reprodução
O aplicativo do Skina está disponível, gratuitamente, para Android e iOS. Foto Reprodução

“Fizemos um ano em julho deste ano e, em novembro, saímos na lista dos melhores apps de 2016 da Google. O aplicativo já alcançou 4 milhões de downloads em todo o Brasil, e ainda tem um baita potencial. Já existiam outros, mas em dois meses ficamos cinco vezes maiores que a concorrência”, diz Gabriel Di Bernardi, diretor de Marketing do Skina, creditando o sucesso ao fato de o app ter sido idealizado com moderadores para falar com os usuários, e sempre de maneira bem informal. “Somos uma startup carioca de classificados, do mesmo grupo da OLX, que usa a geolocalização como facilitador do processo de compra e venda. As pessoas compram de casa, sem pegar nem ônibus, e combinam de se encontrar em frente à padaria, por exemplo. Já houve um caso de alguém que estava vendo o celular num sinal de trânsito e encontrou uma televisão à venda nas redondezas. Estacionou e comprou. Se você abrir o Skina agora, ele vai mostrar o que está em volta de você, a 10m, 50m, 100m. Mas você pode ir aumentando o raio até São Paulo, por exemplo”.

Primeiro é preciso baixar o aplicativo, disponível gratuitamente para Android e iOS. Se você está em Botafogo, por exemplo, ele abre e mostra o que tem à venda em volta, e vai ampliando o raio. Depois, é só colocar foto, nome e preço do produto que quer passar adiante. Deixando o app instalado, assim como no WhatsApp, você recebe notificação de quem quer entrar em contato. E seleciona a pessoa para quem vendeu com nome e avaliação, como no Uber. Também há um chat on-line para fechar o tipo de transação. “Ali é possível barganhar: “É R$ 100? Posso pagar R$ 80? Mas nós não intermediamos nada. O que temos é uma curadoria rígida. Os curadores dizem o que pode e o que não pode. Carros, apartamentos e armas, por exemplo, não entram”, esclarece Gabriel. A maior parte da base de usuários se concentra na região Sudeste, nos estados de Rio de Janeiro e São Paulo.

Segundo a “Forbes”, a economia colaborativa é o modelo econômico mais recente, baseado na criação de redes descentralizadas que utilizam e dão valor para ativos subutilizados. É aí que entram iniciativas como o Skina, que, por enquanto, ainda não encontrou uma forma de lucrar com isso. “Hoje a gente não ganha nada. Estamos testando maneiras de monetizar esta relação. Um dos testes é com pagamento on-line, que tem uma taxa de 5% de serviço”, diz o diretor de Marketing. Mas os usuários estão no lucro. “Eles estão reaproveitando seus produtos usados, incentivando um movimento diferente de consumo, mais sustentável. Em vez de ir diretamente para o shopping, buscam consumir de uma maneira mais consciente e local, comprando um produto com valor abaixo do mercado e fortalecendo vínculos com sua própria comunidade no processo”, acrescenta Gabriel, brincando que santo de casa faz milagre sim: “Já vendi Iphone, cabo de Iphone, roupas… E já comprei também”.

Ainda de acordo com Gabriel, o foco do Skina são os chamados youngsters. “Os jovens de alma, antenados”, explica ele: “A gente sente que a nova geração está cada vez mais aberta a esse tipo de brechó moderno”. A professora de inglês Vivian Fernandes, de 23 anos, está entre os quatro milhões de usuários do aplicativo. “A primeira coisa que vendi foi uma capinha de Iphone. No início bateu aquele medo. Afinal, é um desconhecido que você nunca viu a pessoa com quem você vai negociar para comprar ou vender. Fui sozinha, e disse para um amigo: “se eu não voltar em 15 minutos, vai atrás de mim”, lembra ela, rindo. “Depois disso já comprei e vendi muita coisa aqui em Vila Valqueire, onde moro. Tem produtos novos e muito baratos. Encontrei uma saia a R$ 10. E já vendi um short de paetês, um pijama, dois livros… Meu cofrinho do Skina está cheio”.

Para o jornalista Hugo Franco, o interessante no aplicativo é a possibilidade de se desfazer de algo que você não usa, e não o de ter lucro. “Primeiro vendi um boné que estava encostado, praticamente novo, no mesmo dia em que anunciei, bem próximo do meu trabalho, em Niterói. Depois disso já negociei várias coisas. Já comprei até um móvel, mas aí precisei pagar um frete, claro”, conta ele. “Mesmo assim vale a pena”.

Escrito por Paula Autran e Reneé Rocha

Paula Autran e Reneé Rocha

Paula Autran e Reneé Rocha se completam. No trabalho e na vida. Juntos, têm umas quatro décadas de jornalismo. Ela, no texto, trabalhou no Globo por 17 anos, depois de passar por Jornal do Brasil, O Dia e Revista Veja, sempre cobrindo a cidade do Rio. Ele, nas imagens (paradas ou em movimento), há 20 anos bate ponto no Globo. O melhor desta parceria nasceu em novembro passado. Chama-se Pedro, e veio fazer par com a irmã, Maria.

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