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O planeta torce pelo impeachment de Donald Trump

Presidente comete crime humanitário de consequências devastadoras

Trump, após anunciar a saída dos Estados Unidos do Acordo do Clima. Foto: Saul Loeb/ AFP Photo

Era o que faltava para colocar a Terra a caminho do precipício. Em uma medida insensata, Donald Trump declarou nesta quinta-feira (1 de junho) que retirou os EUA do Acordo do Clima de Paris, feito no âmbito da Conferência das Partes da Convenção da ONU da Mudança do Clima, negociado por representantes de 195 países e adotado por consenso em 12 de dezembro de 2015.  E colocou sua nação junto com Síria e Nicarágua, as únicas a não assinarem o documento.

A imprensa internacional, e principalmente a americana, não tem mais qualquer pejo em colar no presidente Donald Trump uma fieira de adjetivos, nenhum deles positivo. Imbecil, desequilibrado, prepotente, desastrado, impetuoso, perigoso. A cada dia esses adjetivos são mais apropriados.

O acordo trata de medidas vinculantes para mitigação de, e adaptação aos efeitos das emissões de gases de estufa, e ainda de um mecanismo de financiamento destas medidas para vigorar a partir de 2020. E a participação crucial dos Estados Unidos nas negociações foi um grande trunfo do governo de Barack Obama.

A imprensa internacional, e principalmente a americana, não tem mais qualquer pejo em colar no presidente Donald Trump uma fieira de adjetivos, nenhum deles positivo. Imbecil, desequilibrado, prepotente, desastrado,  impetuoso, perigoso. A cada dia esses adjetivos são mais apropriados.

Pode-se dizer que Trump comete agora um crime humanitário, de consequências devastadoras. A decisão foi tomada apesar de apelos em contrário do Papa Francisco e do presidente francês Emmanuel Macron (feitos durante sua patética visita à Europa), do secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, da comunidade científica, de parcela muito significativa da população mundial e até de sua filha, Ivanka Trump.

Trump e Scott Pruitt, diretor da Agência de Proteção Ambiental. Foto: Saul Loeb/AFP Photo

Ainda, seu secretário de defesa James Mattis e o secretário de estado Rex Tillerson acham que os EUA deveriam permanecer nas mesas de negociações. O Pentágono vem conduzindo há anos uma série de estudos sobre a mudança do clima, uma vez que ela representa um risco sério para a segurança nacional, com alterações como as das  rotas oceânicas para navios de guerra. Inundações e secas decorrentes do aquecimento também colocariam território americano em situação vulnerável.

Trump mais uma vez arrisca se tornar um pária na comunidade internacional. Canadá, União Européia e China continuarão rezando pela cartilha do clima. A Índia indicou que fará o mesmo

Sem adoção do acordo será muito difícil que o planeta mantenha a elevação de temperaturas terrestres e oceânicas abaixo dos 2ºC, marca considerada minimamente segura para salvar o planeta de desastres inúmeros, como a elevação do nível do mar e o derretimento das geleiras. Ninguém mais a acredita que a marca seja atingível, mas ela representa um elemento de pressão.

Após jogar por terra esforços de anos para se chegar ao acordo, não se sabe como ele pretende “buscar um novo tratado do clima justo com os interesses americanos.” Míope e mal assessorado, afirmou que pretende levar os EUA a reentrar no acordo de Paris ou “buscar uma nova negociação em termos justos para os Estados Unidos, suas empresas, seus trabalhadores, seu povo e seus contribuintes”.  E acrescentou: “Se conseguirmos, ótimo. Senão, tudo bem.”

 

O aceno para a suja indústria do carvão, que Obama regulamentara por decreto, não podia ser mais claro: o acordo resultaria em “onerosas restrições energéticas” que iriam prejudicar o crescimento econômico. E, para acrescentar insulto à injúria, o pronunciamento foi feito nos jardins da Casa Branca em tom de celebração, ao som de uma banda militar tocando, ironicamente, Summertime. Na verdade, com o avanço das energias solar e eólico e sua adoção ampla e disseminada por outras potências, sobretudo a China, a economia americana ficará menos, e não mais competitiva.

Trump dissera anteriormente que o aquecimento global é um engodo perpetrado pela China – também uma grande poluidora do ambiente. Ele tem o poder de se retirar do acordo sem ouvir o Congresso, com o mesmo instrumento usado por seu antecessor Barack Obama para ratificar o tratado sem consultar a casa, dominada por republicanos – uma ordem executiva, como chamam um decreto.

Trump mais uma vez arrisca se tornar um pária na comunidade internacional. Canadá, União Européia e China continuarão rezando pela cartilha do clima. A Índia indicou que fará o mesmo. Mas existe o temor de que a retirada dos EUA enfraqueça o tratado. Segundo o presidente da Finlândia, Juha Sipila, será hora de “encontrar parceiros, porque esta ação não pode ser brecada”.

O que diz a ciência? Os descrentes da ciência do clima vêm propagando uma suposta freagem da mudança do clima, baseados em leitura tendenciosa de alguns estudos, segundo os quais o aquecimento teria alcançado seu pico para daí por diante arrefecer. Não é o que dizem mensurações feitas por satélites, segundo os autores de um trabalho publicado recentemente no Scientific Reports.

Os cientistas trabalham em três instituições de grande respeito – o Laboratorio Nacional Lawrence Livermore, o MIT (Massachusetts Institute of Technology) e a Universidade de Seattle. Analisaram dados de temperaturas de três grupos diferentes de satélites por um período de 21 anos, de janeiro de 1979 a dezembro de 2016.

A ideia de que a mudança do clima atingiu um pico data de 2013, quando um vazamento de parte do relatório do Painel Internacional da Mudança do Clima da ONU (IPCC) sugeriu que o clima havia aquecido menos rapidamente nos últimos 15 anos. Algumas pessoas leram errado as informações e acharam que o aquecimento brecara. Só que não. O que os estudos realmente sugeriam era que a taxa da mudança do clima desacelerava, mas que o sistema como um todo acelerava, ou aquecia. E mesmo esta aparente diminuição da taxa fora um erro de calibração de instrumentos de mensuração.

O trabalho foi uma resposta a afirmações tendenciosas partidas da Casa Branca. E é parte de um esforço de cientistas de comunicarem melhor suas conclusões a um público mais amplo e provocar um debate sobre elas. Nas últimas semanas, o termo mudança do clima praticamente desapareceu do website da Agência de Proteção Ambiental, criada em 1970 por Richard Nixon e cada dia mais esvaziada por Trump, que colocou em seu comando Scott Pruitt, segundo o qual o CO2 nada tem a ver com o aquecimento, e vamos seguir queimando carvão. Quando Trump anunciou a saída dos EUA do Acordo de Paris, o deputado americano Tim Walberg comentou: “Deus vai cuidar da mudança do clima, se for real, e os humanos não podem fazer nada para ajudar”.

O Papa Francisco, melhor informado, deu a Trump uma cópia de sua importante e oportuna encíclica sobre a preservação do meio ambiente. O secretário de estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, pediu ao presidente americano que não retirasse seu país do acordo de Paris.

“Nos encorajaram a continuarmos participando”, disse Tillerson. ” Além da encíclica, Francisco deu a Trump um medalhão com a imagem de uma oliveira, um símbolo da paz, como explicou – Trump era muito capaz de não saber. O presidente escreveu depois no Twitter: “Deixo o Vaticano mais determinado que nunca a perseguir a PAZ no mundo”. Aham. Estava acompanhado de seu principal estrategista, Steve Bannon, que não tem um julgamento muito piedoso do pontífice – ele seria um socialista, um elitista global (???) e um promotor do migração muçulmana para a Europa. Já Bannon figura como peça proeminente de negócios escusos da fortuna imobiliária de Trump.

 Enquanto isso, pesquisa feita em oito países informava que a maioria de seus cidadãos estava disposta a alterar seus estilos de vida em favor do clima. O trabalho, feito no EUA, China, Índia, Grã-Bretanha, Austrália, Brasil, África do Sul e Alemanha, mostrou que 84% da pessoas agora enxergam o aquecimento global como um “risco global catastrófico”.

“Há  certamente um enorme fosso entre o que as pessoas esperam dos políticos e o que estão fazendo. É chocante”, disse Mats Andersson, vice-presidente da Global Catastrophic Risks, que bancou a pesquisa.

O ex-presidente americano Barack Obama não se encaixa neste perfil. Em Milão, coincidindo com a atabalhoada viagem de Trump, propiciadora de uma montanha de memes hilários nas redes sociais, Obama disse, no Seeds & Chips Global Food Innovation Summit que, durante sua presidência, tornou a mudança do clima “uma alta prioridade” por acreditar que “com todos os desafios que e enfrentamos, é este que irá definir os contornos deste século talvez mais dramaticamente que os outros. Em longa fala, afirmou que “nenhuma nação, grande ou pequena, rica ou pobre, vai estar imune aos impactos a mudança do clima. Isto já acontece na América, onde algumas cidades experimentam enchentes em dias de sol, onde incêndios selvagens são mais duradouros e perigosos, onde nosso estado ártico, o Alasca, vê a erosão rápida de suas costas, com geleiras encolhendo a taxa não vista em tempos modernos”.

Tanto nos EUA quanto no resto do mundo, cidades podem ficar 8ºC mais quentes até o ano 2100. O impacto será grande sobre a saúde de cidadãos urbanos, incapacitará trabalhadores com prejuízo deles e das empresas para as quais trabalham, e exercerá pressão ainda maior sobre recursos naturais já estressados, como a água. Este aquecimento atingiria 5% das maiores cidades por população, que sofrem com as ilhas de calor, afirma o autor da pesquisa publicado na Nature Climate Change, Francisco Estrada, cientista do Instituto de Estudos Ambientais da Holanda. As cidades de médio porte,  com aquecimento ligeiramente menor, podem perder entre 1.4% e 1.7% de seus PIBs até 2050 e 2.3% a 5.4% até 2100, No pior cenário, as perdas chegariam a 10.9% dos PIBs.

Cidades cobrem apenas 1% da superfície da Terra mas respondem por 80% do PIB mundial e por cerca de 78% da energia consumida globalmente. E produzem mais de 60% das emissões de CO2 pela queima de combustíveis fósseis.

Este cenário está fazendo com que literalmente percamos o sono, segundo estudo publicado no Science Advances. Não é nem ciência de foguete sabermos como se dorme mal no calor excessivo. Vai sobrar mais para quem não pode ter condicionado, idosos e crianças.

De acordo com os pesquisadores, americanos estarão dormindo menos seis horas por semana em 2050. O número chegará a 14 noites por mês se as emissões de gases de efeito estufa prosseguirem à taxa atual. A privação de sono é terrível, e é associada a diversos problemas de saúde, como depressão, doenças do coração , diabetes e obesidade.

Escrito por José Eduardo Mendonça

José Eduardo Mendonça

É jornalista, com passagens por publicações como Exame, Gazeta Mercantil, Folha de São Paulo, e criador da revista Bizz e do suplemento Folha Informática. Vem nos últimos anos se dedicando aos temas ligados à sustentabilidade e foi pioneiro ao fazer, para o Jornal da Tarde, em 1976, uma série de matérias sobre energia limpa.

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Um Comentário

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  1. Excelente texto.
    É assustador, muito mais que a prepotência e arrogância de Trump, afinal os EUA não são o jardim da casa dele, ele está tomando atitudes que refletirão em td planeta, não sei mais o q dizer, mas é desolador.

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