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Crescimento da população e sobrecarga ambiental

Países mais pobres devem liderar aumento demográfico do século XXI

Poluição em Pequim. Foto de Wang Xibao/ Imagine China/ AFP
Poluição obriga pedestres a usarem máscaras nas ruas de Pequim. Foto de Wang Xibao/ Imagine China/ AFP

A Divisão de População da ONU atualizou e divulgou as estimativas e as projeções demográficas do mundo, das diversas regiões geográficas e econômicas e de todos os países, com cenários da dinâmica populacional até 2100 (Revisão, junho de 2017). Hoje, 11 de julho, é o Dia Mundial da População.

As tendências são claras e os números impressionantes. A população mundial que, em 1700, estava em torno de 660 milhões de habitantes passou para 1 bilhão por volta do ano 1800, atingiu 1,6 bilhão em 1900, chegou a 6,1 bilhões no ano 2000, passou para 7,6 bilhões, em 2017, e deve alcançar, na projeção média da ONU, 8,6 bilhões em 2030 e 11,2 bilhões de habitantes em 2100.

A população mundial cresceu 50% no século XVIII, 60% no século XIX, 280% no século XX, deve crescer 84% no século XXI e, talvez, se estabilizar no século XXII. O ritmo de crescimento demográfico aumentou desde os primórdios da Revolução Industrial e Energética e atingiu um ponto máximo no século passado, quando apresentou o maior crescimento percentual da história da humanidade. Atualmente, o ritmo está se desacelerando. Mas em termos de volume, o mundo teve um acréscimo de 4,5 bilhões de pessoas no século XX e deve adicionar outros 5,1 bilhões de habitantes no século XXI. Desta forma, em termos demográficos, o século XX teve o maior aumento relativo e o século XXI terá o maior aumento absoluto.

Contudo, conforme mostra o gráfico abaixo, há expressivas diferenças na dinâmica demográfica, segundo o grau de desenvolvimento. O grupo de países mais desenvolvidos (de alta renda per capita) tinha uma população de 814 milhões de habitantes em 1950, passou para 1,26 bilhão em 2017 e deve ficar mais ou menos estável, com 1,28 bilhão de pessoas até 2100. O grupo de países menos desenvolvidos (renda média) tinha uma população de 1,5 bilhão de pessoas em 1950, passou para 5,2 bilhões em 2017 e pode atingir 6,7 bilhões em 2100. O grupo de países muito menos desenvolvidos (renda baixa) tinha uma população de 195 milhões de habitantes em 1950, passou para 1 bilhão em 2017 e pode chegar a 3,2 bilhões em 2100.

Arte: Fernando Alvarus

Ainda segundo as projeções da ONU, a população dos países mais desenvolvidos deve atingir um pico de 1,3 bilhão de habitantes, em 2045, e diminuir para 1,28 bilhão em 2100. A população dos países menos desenvolvidos deve atingir um pico de 6,8 bilhões de habitantes, em 2077, e diminuir para 6,7 bilhões em 2100. O Brasil deve crescer até 232,8 milhões de habitantes em 2047 e diminuir para 190 milhões em 2100. Em contraste, os países muito menos desenvolvidos (os mais pobres do mundo) vão crescer de forma exponencial, triplicando de tamanho e tendo um  acréscimo líquido de 2,2 bilhões de pessoas entre 2017 e 2100.

Arte: Fernando Alvarus

Assim, fica claro que o maior crescimento demográfico do século XXI deve acontecer entre as nações mais pobres e com menores direitos de cidadania. Isto ocorre, basicamente, por conta dos diferenciais de fecundidade. As Taxas de Fecundidade Total (TFT), no quinquênio 2010-15 estavam em 2,5 filhos por mulher no mundo, de 1,7 filho por mulher nos países desenvolvidos, 2,4 nos países menos desenvolvidos e 4,3 filhos por mulher nos países muito menos desenvolvidos. As projeções para 2100 indicam TFTs de 2 filhos por mulher no mundo, 1,9 filho tanto nos países desenvolvidos, quanto nos países menos desenvolvidos e 2,1 filhos por mulher nos países muito menos desenvolvidos.

Fosso demográfico

Esses diferenciais confirmam que o mundo vive uma situação caracterizada como fosso demográfico. Cerca da metade da população mundial possui taxas de fecundidade abaixo do nível de reposição (TFT = 2,1 filhos por mulher) e caminha para o decrescimento populacional, com elevado envelhecimento da estrutura etária. A outra metade possui taxas de fecundidade acima do nível de reposição, o que mantém o persistente aumento vegetativo e uma estrutura etária relativamente jovem.

As altas taxas de fecundidade dos países de baixíssima renda decorrem da elevada percentagem de gravidez indesejada. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que existem cerca de 225 milhões de mulheres em período reprodutivo sem acesso aos métodos de regulação da fecundidade, a maioria na África Subsaariana

Todavia, a despeito dos diferentes ritmos regionais e socioeconômicos do metabolismo demográfico, na média mundial, a população global vai passar de 7 bilhões de habitantes em 2011, para 8 bilhões em 2023, 9 bilhões em 2037, 10 bilhões em 2055 e 11 bilhões em 2088. A maior parte desse crescimento acontecerá nos países pobres. Somente a África Subsaariana terá um aumento de 3 bilhões de habitantes, passando de 1 bilhão em 2017 para 4 bilhões em 2100.

As altas taxas de fecundidade dos países de baixíssima renda decorrem da elevada percentagem de gravidez indesejada. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que existem cerca de 225 milhões de mulheres em período reprodutivo sem acesso aos métodos de regulação da fecundidade, a maioria na África Subsaariana. A falta de planejamento familiar poderá ser mitigada se a promessa de universalizar o acesso à saúde reprodutiva, proposta nos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), for alcançada até 2030.

Evidentemente, quadruplicar a população na África Subsaariana, em 83 anos, colocará desafios hercúleos. A região já está em situação social e ambiental muito difícil e ainda terá que lidar com os efeitos das mudanças climáticas, cujos cenários não são nada promissores para o continente. Para dar dois exemplos: a cidade de Lagos, na Nigéria, a maior do continente, vai perder muita área densamente povoada para a elevação do nível do oceano Atlântico e a perda dos glaciares do monte Kilimanjaro vai diminuir o fluxo de água e contribuir para a crise hídrica.

Nesse mês de julho, o diretor-geral da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), o brasileiro José Graziano da Silva, disse que, pela primeira vez em 25 anos, a fome aumentou no mundo, revertendo os sinais claros de melhoria que havia anteriormente. Graziano disse que 60% daqueles que enfrentam a fome hoje estão em países afetados por conflitos armados ou sofrem as consequências das mudanças climáticas, a maioria na África Subsaariana.

Na verdade, o problema é global. O mundo já ultrapassou quatro das nove fronteiras planetárias, segundo o Stockholm Resilience Center. Duas fronteiras, a Mudança climática e a Integridade da biosfera, são consideradas “limites fundamentais” e funcionam como o elo fraco da corrente, que, se rompido, pode comprometer o equilíbrio de Gaia.

Pegada ecológica

A Pegada Ecológica global, em 2013, estava 68% acima da Biodiversidade da Terra. A cada ano, a Global Footprint Network calcula o Dia da Sobrecarga da Terra (Earth Overshoot Day). Este dia marca o momento em que o sistema de produção e consumo absorveu todos os insumos naturais oferecidos pelo planeta previstos para os 12 meses do ano. O Dia da Sobrecarga da Terra ocorreu em 19 de dezembro de 1987, no dia 01 de novembro do ano 2000, no dia 23 de setembro de 2008 e será no dia 02 de agosto em 2017.

A humanidade tem esgotado cada vez mais cedo a cota apropriada da riqueza natural do planeta. Portanto, no próximo 2 de agosto a economia global sairá do verde do superávit ambiental para entrar no vermelho do déficit ambiental, no decorrer de 2017. No restante do ano, a humanidade estará no cheque especial. Significa que as atuais gerações estarão dilapidando as condições de vidas das demais espécies da comunidade biótica e degradando a saúde dos ecossistemas, comprometendo o futuro das próximas gerações.

Se o quadro atual já é crítico, poderá ficar insustentável com a sobrecarga de 11,2 bilhões de indivíduos, em 2100, pois a humanidade já ultrapassou a capacidade de suporte do planeta. Um novo equilíbrio homeostático só será alcançado com o decrescimento demoeconômico, já que a economia precisa caber dentro dos limites de uma ecologia biologicamente compartilhada. Desta forma, as projeções demográficas da ONU não trazem previsões alvissareiras, pois o excesso de gente, consumo de luxo e lixo, que já causa tantos danos, poderá gerar, em um futuro não muito distante, um colapso ambiental de consequências devastadoras.

Escrito por José Eustáquio Diniz Alves

José Eustáquio Diniz Alves

José Eustáquio Diniz Alves, sociólogo, mestre em economia e doutor em Demografia pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (CEDEPLAR) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com pós-doutorado no Núcleo de Estudos de População – NEPO/UNICAMP. Professor titular da Escola Nacional de Ciências Estatísticas (ENCE) do IBGE.

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