Carta de um peregrino

Fim do caminho, hora de agradecer pelas dores e experiências compartilhadas

Por Giovanni Faria | ods15vida-sustentavel • Publicada em 7 de agosto de 2016 - 18:50 • Atualizada em 2 de setembro de 2017 - 23:45

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Uma das muitas paisagens da Galícia, que encantam os peregrinos
Uma das muitas paisagens da Galícia, que encantam os peregrinos
Uma das muitas paisagens da Galícia, que encantam os peregrinos

Caro Santiago,

Valeu, você é um santo. Seu Caminho é longo e duro. Machuca, às vezes sangra, mas não dói. Fez-me sorridente, confiante, cabeça erguida. Depois de 29 dias e mais de 900 quilômetros a pé, chego à sua milenar catedral e, pela primeira vez, dobro os joelhos, os jogo ao chão e agradeço pela força física e, especialmente, espiritual dispensadas na trajetória. Não tem medalha, nem tem pódio, mas me sinto um vencedor.

Meu amigo Santiago: quando tive sede em Burgo Ranero, apareceu o espanhol José Antônio. Deu-me água em sua casa e sacou da gaveta uma fita métrica. Disse-me: aqui tem cem centímetros. Imagine que cada um deles represente um ano de sua vida. Quantos já viveu? A maior parte. Então, ande, siga em frente, não pare, porque da fita o que nos resta é a menor parte, cada dia que passa ainda menor.

O Caminho de Santiago de Compostela é um patrimônio da Humanidade, uma rota cultural europeia. Mais do que isso, uma experiência pessoal cujo valor não pode ser medido por escalas convencionais. Um peregrino, cuja origem da palavra remete a “aquele que atravessa os campos”, é um ser de luz. Dorme pouco, anda muito. Do pão e vinho, ganha a força física. Da solidão de longas caminhadas e da convivência com desconhecidos, agora “amigos de infância”, alimenta a alma e o espírito.

Valeu, Santiago. Pelo suor em cada subida – e são centenas – e pelas lágrimas – e foram milhares – que borraram as botas sujas de poeira. Em cada um dos mais de 150 lugarejos, “pueblos” e cidades pelo Caminho, sempre uma fonte de água, um morador a incentivar, uma experiência a compartilhar.

E que rota, Santiago! As marcas das civilizações que ocuparam a península ibérica estão a cada passo. Especialmente as romanas, nas igrejas, calçadas e pontes – mais de 40 que fazem o peregrino parar e admirar, como a de Hospital e Puente de Órbigos, com seus 19 arcos.

Santiago, que Caminho! Desde a França, e atravessando toda a Espanha, só tranquilidade, nenhum sobressalto. O peregrino anda de madrugada, guiado pelas estrelas. Se precisar, lanterna. Nada o incomoda, nem o sol escaldante de agosto, nem mesmo os cães – e como são grandes! – de Foncebadón.  Até Paulo Coelho falou deles em seu livro.

A catedral de Santiago de Compostela, um dos patrimônios da humanidade
A catedral de Santiago de Compostela, um dos patrimônios da humanidade

Santiago, e que cidade é esta que leva seu nome! Na Praça do Obradoiro, chegada de todos os peregrinos, quanta emoção. Exaustos, centenas deles encontram forças para abraços e choros. Mas os sinos lembram: é meio-dia. Hora da missa.

Santiago, que missa é essa? O que é o botafumero, cuja lenda diz que se tratava de um grande incenso que pendulava pela catedral para tirar o odor dos peregrinos que chegavam. Soluços são ouvidos, há quem não resista e se debulhe em lágrimas enquanto a geringonça, puxada em cordas por uma dúzia de padres, espalha fumaça pela catedral lotada.

Meu caro Santiago: obrigado pela vista descomunal dos Pirineus, pelos vales de Navarra, no País Basco, pelos dias e dias a ver uvas pela Rioja, pelo trigo, cevada e girassol da longa e dura “meseta” de Castilla y León, e, por fim, pelos bosques e florestas da inigualável Galícia.

Caminho cumprido, Santiago! E pela segunda vez. Agora, mais devagar, com menos ansiedade. Uma viagem ao centro de mim. Uma experiência ímpar, ainda mais ao lembrar que foi compartilhada por Thomás, meu filho, que estava à minha frente 21 dias. Não nos vimos no Caminho, mas, como pai, posso dizer, com orgulho, que enxerguei e segui seus passos pelo chão.

Meu amigo Santiago: quando tive sede em Burgo Ranero, apareceu o espanhol José Antônio. Deu-me água em sua casa e sacou da gaveta uma fita métrica. Disse-me: aqui tem cem centímetros. Imagine que cada um deles represente um ano de sua vida. Quantos já viveu? A maior parte. Então, ande, siga em frente, não pare, porque da fita o que nos resta é a menor parte, cada dia que passa ainda menor.

Por fim, Santiago. Volto agora a vestir a capa de turista, sem que, jamais, retire aquela de peregrino – este agradece, aquele exige. O Caminho não acaba aqui. Continua pela vida afora, nunca mais sairá da gente. Como diz a oração do Cebreiro, a vila celta mais mística desta viagem, “…de nada adianta ter feito o Caminho se você não aplicar no dia a dia aquilo que aprendeu nessa jornada.”

Venha. Faça o Caminho. Calce as botas, ajuste a mochila, empunhe o cajado. E, assim, entenderás perfeitamente por que estou agradecendo tanto a Santiago. Buen Camino!

Giovanni Faria

É jornalista e trabalhou por 33 anos no jornal O Globo e nas rádios CBN e Globo. É professor da PUC-Rio e da Facha. Também é formado em Direito. Desde que levou um "susto" no coração há quatro anos, adotou a caminhada como atividade diária. Nasceu em Friburgo, mora em Niterói, vive em Búzios, mas desde 2014 não tira o Caminho de Santiago de Compostela da cabeça nem dos pés. A mulher, Christiane, e o filho Thomás já cruzaram a Espanha a pé também - agora só faltam as filhas Victória e Catarina.

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