O lugar mais quente da Terra

Na Badwater Basin, 86 metros abaixo do nível do mar, uma crosta fina de sal cobre o solo até onde a vista alcança. Foto Carla Lencastre | Junho de 2019

Temperatura mais alta já registrada no planeta é observada em 2020 e 2021 no deserto do Vale da Morte, na Califórnia: 54,4 graus Celsius

Por Carla Lencastre | ODS 13 • Publicada em 1 de setembro de 2020 - 09:00 • Atualizada em 14 de julho de 2021 - 17:15

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Na Badwater Basin, 86 metros abaixo do nível do mar, uma crosta fina de sal cobre o solo até onde a vista alcança. Foto Carla Lencastre | Junho de 2019

Foi um agosto e tanto na Califórnia em 2020. Uma forte onda de calor levou a uma série de blecautes. O fogo, fenômeno natural que surge todo verão e faz parte do ecossistema local, veio agressivo. Uma tempestade histórica de relâmpagos intensificou os incêndios. Sem energia, em meio ao calor abrasador e à tempestade elétrica e piromaníaca, a Califórnia bateu um recorde que simboliza a crise climática. Às 15h41m (hora do Pacífico) do dia 16 de agosto, domingo, a temperatura observada no deserto do Parque Nacional do Vale da Morte foi de 54,4 graus Celsius, a mais alta já registrada de forma confiável na Terra.

Com as alterações no clima causadas pelo homem, o calor escaldante na Califórnia não é um fenômeno isolado. Julho de 2020 foi o segundo mês mais quente já registrado no mundo. Ou o primeiro, se levarmos em conta apenas o Hemisfério Norte. Um mês antes, em junho, a cidade siberiana de Verkhoyansk alcançou 38 graus Celsius, a mais alta temperatura já registrada no Ártico.

Em 2021, pelo segundo ano consecutivo, a temperatura no Vale da Morte chegou novamente a 54,4 graus Celsius. O recorde foi registrado no sábado 10 de julho pelo US National Weather Service em Furnace Creek, o centro de visitantes do parque nacional e mesmo local da temperatura máxima de 2020. Por três dias consecutivos, o termômetro no Vale da Morte chegou a 53,3 graus Celsius, com noites em torno de 32 graus Celsius. Também no início de julho de 2021, no domingo 4, foi batido outro recorde de temperatura, este na Europa. Na Lapônia, no norte da Finlândia, os termômetros marcaram 33,6 graus Celsius. É a temperatura mais alta já registrada na região. O mês de junho de 2021 foi o mais quente da história do país.

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Placa adverte sobre o forte calor numa região que já foi cenário de filme de Michelangelo Antonioni, música do Pink Floyd e capa de álbum do U2. Foto Carla Lencastre
Placa adverte sobre o forte calor no Vale da Morte, região que já foi cenário de filme de Michelangelo Antonioni, capa de álbum do U2 e inspirou música do Pink Floyd. Foto Carla Lencastre | Junho de 2019

Vale da Morte: temperatura recorde em 2020

Nos Estados Unidos, em 2020, o termômetro chegou à marca extraordinária de 54,4 graus Celsius (ou 130 graus Fahrenheit, na escala local) a 58 metros abaixo do nível do mar em Furnace Creek, centro de visitantes do Parque Nacional do Vale da Morte. Repleto de cânions dourados, Death Valley National Park, na divisa dos estados de Califórnia e Nevada, chega até a 86 metros abaixo do nível do mar. A temperatura extrema ainda precisa ser verificada pelo US National Weather Service e oficialmente reconhecida pela World Meteorological Organization (WMO), agência das Nações Unidas. O processo para validar a temperatura pode durar meses e leva em conta desde o equipamento utilizado e a localização do sensor até as condições meteorológicas da região. Mas, por enquanto, especialistas em clima da WMO que estiveram no local nos dias subsequentes não duvidam do recorde.

“Tudo que vi até agora indica que é um registro legítimo”, disse ao Washington Post Randy Cerveny, líder da equipe de clima e extremos climáticos da WMO. “Minha recomendação é que a WMO, em princípio, aceite o recorde. Nas próximas semanas iremos examiná-lo em detalhes junto com o comitê americano de extremos climáticos”.

O Vale da Morte é o ponto mais baixo, quente e seco dos EUA. A umidade relativa do ar raramente alcança dois dígitos e chove menos de 50mm por ano. Em 2018, no mês julho mais quente registrado no planeta, o Vale da Morte teve temperatura média de 42,27 graus Celsius. Naquele mês, em 21 dias a temperatura no deserto ficou acima de 48,88 graus Celsius.

O recorde atual do deserto californiano é de 54 graus Celsius em 30 de junho de 2013. Isso sem levar em conta os lendários 56,66 graus Celsius de 10 de julho de 1913. A marca é calorosamente contestada por especialistas em clima por diferentes razões, desde ter sido anotada por um meteorologista inexperiente à incongruência com outras temperaturas registradas na região naquele verão, passando pela confiabilidade do próprio termômetro.

Temperaturas extremas são mais do que números impressionantes. Devem ser levadas em conta no planejamento urbano, de saúde pública, da agricultura, para citar apenas alguns exemplos. E, claro, colaboram para que cientistas possam avaliar o quanto as mudanças climáticas estão aquecendo o planeta. Ondas de calor mais longas e severas podem se tornar cada vez mais frequentes como consequência das mudanças climáticas causadas pelo homem. Quão mais quente a Terra ainda pode ficar nos próximos anos? Ainda não sabemos.

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O minério que fez a riqueza dos exploradores do Vale da Morte não foi o ouro, mas o bórax, ou borato de sódio. Foto Carla Lencastre
O minério que fez a riqueza dos exploradores do Vale da Morte não foi o ouro, mas o bórax, ou borato de sódio. Foto Carla Lencastre | Junho de 2019

Como é visitar o Vale da Morte, o lugar mais quente do mundo

O Vale da Morte parece uma paisagem proibida. Mas justifica um passeio de dois ou três dias. O nome surgiu em meados do século 19, quando mineradores em busca de rotas mais curtas para o ouro da Califórnia tentavam cortar caminho pelo árido vale e perdiam animais na região, se perdiam uns dos outros e, às vezes, acabavam perdendo a si mesmos e morrendo de calor e de sede. O minério que fez a riqueza dos exploradores do vale não foi o ouro. Entre o final do século 19 e o início do 20 a Pacific Coast Borax Company (PCBC) extraiu bórax, ou borato de sódio, em diversas minas e enriqueceu muita gente.

Naquela virada de século a dramaticidade de um panorama desértico ainda não se encaixava no conceito de paisagem turística. Mas na primeira metade do século 20 o lucro com a extração do bórax começou a diminuir e as empresas de mineração participaram ativamente da transformação do vale em destino esteticamente apreciável. Instalações para funcionários da PCBC, por exemplo, foram convertidas em resorts que funcionam até hoje, e os caminhos abertos para a escoação de minério passaram a ser aproveitados para passeios.

Hoje o turismo é a principal atividade econômica do Vale do Morte, que foi reconhecido como Monumento Nacional em 1933. Em 1976 foi proibida a prospecção de novas áreas para a mineração. O Death Valley National Park, um dos maiores parques nacionais americanos, surgiu em 1994. A extração de bórax segue em pequenas propriedades particulares dentro do parque, e a Califórnia é um dos maiores produtores de bórax no mundo. No Vale da Morte, o National Park Service controla as atividades das minas para minimizar o impacto ambiental. Diferentemente do que as altas temperaturas e o nome indicam, o vale tem fauna e flora únicas. Há centenas de espécies de plantas do deserto e algumas de animais.

Décadas depois da corrida do ouro, o Zabriskie Point, uma das atrações do deserto mais concorridas e inspiradoras, emprestou sua impressionante paisagem (e o nome) para o filme de Michelangelo Antonioni em 1970, com música de Pink Floyd, e para a capa do álbum The Joshua Tree, do U2, em 1987. Trilhas percorrem os cânions em tons de dourado, as Badlands, locação de Star Wars. A área do mirante Dante’s View, nas Black Mountains, a 1.668 metros de altitude, fez as vezes do deserto do planeta Tatooine, criado por George Lucas no Star Wars original, o Episódio IV (1977), e no Episódio VI, o Retorno do Jedi (1983).

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Quando se olha para baixo, 86 metros abaixo do nível do mar há um campo de sal cercado por montanhas, algumas com neve no topo. É a Badwater Basin, onde uma crosta fina salgada cobre o solo até onde a vista alcança. Em alguns pontos, dependendo da época do ano, é possível ver água sobre o sal e sob o sol. Ao voltar o rosto para o céu escuro à noite vê-se a Via Láctea. O Vale da Morte é considerado um dos melhores lugares do mundo para observar estrelas. Mesmo em uma noite parcialmente nublada e sem lua a quantidade é estonteante.

O vale tem algumas poucas opções de hospedagem. O Oasis at Death Valley reúne dois hotéis construídos pela Pacific Coast Borax Company entre as décadas de 1920 e 1930, nos arredores da fornalha, quer dizer, do Furnace Creek, onde foi registrado o recorde de 54,4 graus Celsius. Em uma área repleta de palmeiras, graças a uma fonte de água natural subterrânea, o lugar é realmente um oásis no Vale da Morte. Foi renovado há dois anos para aliar o glamour do passado, quando recebia artistas de Hollywood, a práticas sustentáveis, como o uso de energia solar e a economia de água. A piscina do hotel, por exemplo, é abastecida com água natural a 30 graus Celsius, usada depois para regar os jardins.

Em 2018, 1,7 milhão de pessoas estiveram nesta espetacular terra de extremos. Para quem sai do Brasil o Vale da Morte pode ser combinado com qualquer roteiro pela Califórnia ou com uma visita a Las Vegas. No inverno a temperatura média fica em torno de aprazíveis 20 graus Celsius, podendo alcançar 30 graus. Os escaldantes meses de verão, como julho e agosto, não são a melhor época do ano para um passeio no parque.

Carla Lencastre

Jornalista formada pela Universidade Federal Fluminense (UFF), trabalhou por mais de 25 anos na redação do jornal O Globo nas áreas de Comportamento, Cultura, Educação e Turismo. Editou a revista e o site Boa Viagem O Globo por mais de uma década. Anda pelo Brasil e pelo mundo em busca de boas histórias desde sempre. Especializada em Turismo, tem vários prêmios no setor e é colunista do portal Panrotas. Desde 2015 escreve como freelance para diversas publicações, entre elas o #Colabora e O Globo. É carioca de mar e bar. Gosta de dias nublados. Ama viajar. Está no Instagram e no Twitter em @CarlaLencastre 

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