Passos firmes, da Maré para o mundo

Grupo de dançarinos supera todos os obstáculos e busca oportunidade na Bélgica

Por Adriana Pavlova | ods9 • Publicada em 29 de março de 2016 - 08:00 • Atualizada em 29 de março de 2016 - 11:03

Dançarinos fazem exercícios durante a Semana de Portas Abertas no Centro de Artes da Maré
Os dançarinos Marllon, Gustavo, Luyd e Rafael, ansiosos e animados com a possibilidade de realizar um sonho na Europa
Os dançarinos Marllon, Gustavo, Luyd e Rafael, ansiosos e animados com a possibilidade de realizar um sonho na Europa

Nos últimos dias, quatro corações têm batido em ritmo mais acelerado durante as aulas e ensaios de dança no galpão de 1,2 mil metros quadrados que abriga o Centro de Artes da Maré, em pleno burburinho da Nova Holanda, uma das 16 comunidades que formam o Complexo de Favelas da Maré, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Depois de muitas incertezas, os dançarinos Marllon Araújo (19 anos), Gustavo Gláuber (19 anos), Luyd Carvalho (20 anos) e Rafael Galdino (20 anos) estão em contagem regressiva para embarcar para Bruxelas, na Bélgica, onde a partir do dia 2 de abril tentam uma vaga para três anos de estudos numa das mais renomadas escolas de dança contemporânea do mundo, a P.A.R.T.S, comandada pela incensada coreógrafa belga Anne Teresa De Keersmaeker. O quarteto faz parte do Núcleo 2 da Escola Livre de Dança da Maré, projeto nascido da parceria de 11 anos da Lia Rodrigues Companhia de Danças com a Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip) Redes de Desenvolvimento da Maré.

A Lia fala muito sobre a conexão entre a Zona Sul e a favela. Às vezes a gente vê mais pessoas de fora do que da Maré. Aqui é muito amplo, é um espaço onde mergulhamos em arte. A gente vai tentando fazer a conexão com a comunidade. Aos pouquinhos, um passo de cada vez, a gente está conquistando a comunidade e quebrando essa ideia de que o pobre não tem cultura.

Luciana Barros
Dançarina

“Foi tudo muito intenso e suado até aqui”, conta Marllon, que é filho de um pedreiro com a dona de uma barraquinha de lanches em Ramos. Ele entrou no grupo em 2014 e hoje faz bacharelado em dança na Universidade Federal do Rio de Janeiro. “Eu já estava desistindo de participar do Núcleo 2 porque a bolsa de R$ 200 mensais não dava para me manter mas surgiu a chance de uma pré-audição para P.A.R.T.S na Maré, a própria Lia ajudou a nos preparar e ainda conseguiu que a estagiária portuguesa da companhia nos desse aula de dança em inglês, para que a gente pudesse entender as instruções na audição.”

Depois de selecionados, faltava o dinheiro para a viagem, já que os patrocínios fixos do grupo são para pagar as bolsas de estudo e os quatro vêm de famílias de baixa renda. Enquanto Lia se desdobrava para conseguir as passagens – que surgiram de uma ajuda do Consulado da Bélgica no Rio – o quarteto aproveitou a apresentação de um trabalho do Núcleo 2 com dançarinos de fora da Maré, “Net”, para passar o chapéu entre o público e ainda vendeu quitutes para quem foi assistir à criação comandada pelo coreógrafo Renan Martins. Num domingo, eles se juntaram ainda com outros amigos e foram dançar no Arpoador para arrecadar mais dinheiro e conseguir fechar as contas. Vão com o dinheiro contado (cerca de R$ 600 para cada, para alimentação e transporte), mas vão. Passam por mais uma avaliação entre os dias 2 e 4 de abril. E se forem selecionados de novo, enfrentam mais uma semana de audições com outras 196 pessoas de todo o mundo.

“Todo o processo para a viagem foi formador. Os quatro selecionados se engajaram, tiveram atitude e perceberam na prática que todos os projetos são uma construção”, avalia Lia Rodrigues, que vinha tecendo a parceria com a P.A.R.T.S desde a visita da coreógrafa De Keersmaeker à Maré em 2014, e que já tem outras viagens alinhavadas para o grupo  até o fim do ano, como um estágio de verão no Centre National de la Danse, em Paris, e um intercâmbio com outra escola, em Lausanne, na Suiça. ”

O feito destes rapazes é mais uma das boas histórias nascidas entre as altas paredes do Centro de Artes da Maré, que nos últimos anos se transformou num local de peregrinação de coreógrafos, dançarinos e demais artistas da dança contemporânea do Brasil e do mundo, dado seu contexto inovador. A suada viagem de Marllon, Gustavo, Luyd e Rafael ilustra bem a potência transformadora de um projeto amplo de formação, técnico, artístico e profissional, idealizado por Lia ao lado da crítica e professora de dança Silvia Soter.

Desde 2012, o grupo formado hoje por 13 dançarinos de 18 a 27 anos, a maioria moradora da Maré, passa as tardes de segunda a sexta-feira tendo aula de balé clássico, dança contemporânea e ensaiando com professores convidados, além de volta e meia fazer workshops com nomes internacionais. Viajaram para França para um intercâmbio com jovens de uma escola nos arredores de Paris, participaram de uma performance da campanha Jovem Negro Vivo, da Anistia Internacional, e estiveram no processo de criação de uma parte do novo espetáculo da companhia de Lia Rodrigues, que estreia em maio, na Alemanha. Já tiveram aulas de teoria e história da dança e discussões sobre questões de gênero e sexualidade. Um trabalho intenso, diário, que vem claramente empoderando essa turma. Muitos deles hoje estão cursando bacharelado em dança na UFRJ.

Com apoio de Silvia Soter e de Eliana Sousa Silva – diretora da Redes e personalidade ativa na luta pelos direitos na Maré – Lia concebeu todas as criações de seu grupo na Maré na última década, fez mostra de repertório, engajou moradores locais como dançarinos, ofereceu workshops com grandes nomes da cena internacional da dança,   como a própria De Keersmaeker e a portuguesa Vera Mantero. A coreógrafa também foi peça fundamental na inaguração do Centro de Artes da Maré em 2009 – que conta com uma ampla programação – e na criação da Escola Livre de Dança da Maré, que atualmente tem sete oficinas gratuitas e cerca de 250 alunos.

“O Centro de Artes é importante para a Maré e passou a ser importante também para a cidade”, diz Luciana Barros, que está no Núcleo 2 desde a sua criação. “A Lia fala muito sobre a conexão entre a Zona Sul e a favela. Às vezes a gente vê mais pessoas de fora do que da Maré. Aqui é muito amplo, é um espaço onde mergulhamos em arte. A gente vai tentando fazer a conexão com a comunidade. Aos pouquinhos, um passo de cada vez, a gente está conquistando a comunidade e quebrando essa ideia de que o pobre não tem cultura.”

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Adriana Pavlova

Trabalhou durante 13 anos no jornal O Globo, de onde saiu em 2005 para morar em São Paulo. Foi setorista de dança na Folha de S. Paulo de 2007 a 2010 e colaborou regularmente com as revistas Época São Paulo e Exame. De volta ao Rio, é crítica de dança do Globo desde 2013. Em 2015 tornou-se mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Artes da Cena da Escola de Comunicação da UFRJ.

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