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A força está com os afrofuturistas

Movimento que nasceu nos Estados Unidos, nos anos 1960, atravessa o tempo e ganha novo vigor no Brasil do Século XXI


Nas artes plásticas, no cinema, na literatura e na música, a estética afrofuturista se revigora no Brasil. Foto: Mariwô/Reprodução/Facebook

Mulheres e homens do futuro exploram um espaço sideral em que o manto negro que tudo permeia tem a cor de suas peles. A cena de ficção científica ilustra um movimento que nasceu nos anos 1960, nos Estados Unidos, e ganha nova força no Brasil do Século XXI: o afrofuturismo, estética artística/filosófica que une elementos hi-tech a traços da ancestralidade africana, nas artes plásticas, literatura, histórias em quadrinhos e cinema. Nela, o negro assume o papel de protagonista de seu destino e se coloca no centro, não mais na periferia das narrativas.

Com ou sem rótulo, nós, homens e mulheres negros, seguiremos pisando firme no mundo, criando para nós mesmos uma nova história

Fábio kabral
Escritor

A rápida definição, para quem nunca ouviu falar do termo, é do escritor Fábio Kabral, que lançou recentemente o livro, O Caçador Cibernético da Rua Treze, pela Editora Malê.  “O meu entendimento de afrofuturismo, aliado às minhas concepções da teoria afrocêntrica, me diz que nós, pessoas negras, seguiremos escrevendo a nossa própria história, da nossa própria forma, e com as nossas próprias mentes e mãos, como sempre fizemos, desde os primórdios dos tempos”. Nessa estética artística afrocentrada, unem-se mitologia e filosofia africanas, fantasia, pós-colonialismo, ciência e tecnologia, tudo, logicamente, com personagens negros.  Em sua obra, Kabral conta a história do caçador João Arolê, um morador de Ketu Três, cidade futurística recheada de arranha-céus, com carros voadores, entidades espirituais e tecnologias movidas a espíritos.

João Arolê, protagonista do livro O Caçador Cibernético. Arte: Rodrigo Cândido (Divulgação)

Ícones como o jazzista e filósofo Herman Poole Blount, o Sun Ra, ajudaram a definir a estética na década de 60, mas o termo foi cunhado por Mark Dery  (que, por ironia, é branco), nos anos 90. O movimento, que permeou grande parte da cultura negra do século XX, chega forte ao século XXI, como se ele próprio fosse capaz de viajar no tempo. “Para ser bem sincero, eu resisti a esse rótulo – mais uma tentativa de encaixar as pessoas pretas em potes de azeitonas desconstruídas, em vez de simplesmente nos verem como seres humanos. Porém, visto que passei a ser considerado um dos expoentes, resolvi me apropriar do termo”, diz Kabral. “Se será um termo datado ou sequestrado eu não sei, mas, com ou sem rótulo, sempre seguirei criando novas histórias. Com ou sem rótulo, nós, homens e mulheres negros, seguiremos pisando firme no mundo, criando para nós mesmos uma nova história”.

Essa presença do futuro negro no presente segue firme na música brasileira contemporânea. A celebração da diáspora negra da cantora Ellen Oléria se concretizou em seu último trabalho, o álbum Afrofuturista. A intenção nesse que é o seu terceiro disco solo foi trazer uma maior plasticidade a seu som, que seguia sendo mais acústico e calcado na MPB desde que saiu da banda de rock Soatá. Desta vez, ela reuniu elementos eletrônicos, como sintetizadores, pedais de guitarra e efeitos em geral. Mas Ellen já flerta com o movimento há um certo tempo.

Ellen Oléria, na capa do álbum Afrofuturista. Foto: Divulgação

“No início de 2012, minha esposa, Poliana Martins, fez um curso na Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) chamado ‘Diáspora africana nas américas’. Compartilhamos muito sobre a bibliografia, as aulas, as provocações… Uma delas partiu do professor João Vargas, quando ele sugeriu que a mestiçagem tinha se tornado um dos grandes ‘ciborgues’ do nosso tempo. A busca pelo conceito de ciborgue a partir de uma abordagem afrodiaspórica de tantos encontros étnicos nos arremessou a uma profunda investigação do afrofuturismo”, conta Ellen. “Assim, ele se apresentou para nós e nós o concebemos e multiplicamos como um discurso, uma linguagem, uma estética, uma rede identitária e política, um lugar ou um devir que atualiza as heranças afrodiaspóricas, num encontro com as tecnologias de produção e reprodutibilidade do saber. Ser afrofuturista é uma maneira de construir e remontar identidades de maneira ficcional ou poética, potencializando reais”.

De vibe afropop, a cantora baiana Xenia França, radicada em São Paulo, lançou, recentemente, seu primeiro disco, onde reverencia o R&B, a música eletrônica, o samba-reggae, o jazz e o rock, em uma viagem para lá de afrofuturista. É um convite à dança e, em meio aos sons modernos, surge o batuque do batá, tambor utilizado nos cultos das religiões de matriz africana típicos de Cuba e de algumas regiões do Brasil.

Cena do filme Branco Sai, Preto Fica: mistura de documentário e ficção científica. Foto: Divulgação

Reunindo a cultura soundsystem caribenha e ritmos afro-latinos tradicionais na mesma nave espacial, o coletivo Senzala Hi-Tech une passado, presente e futuro. Da crew fazem parte o atleta de taekwondo Diogo Silva, que levou a medalha de ouro nos Jogos Panamericanos de 2007, o rapper Sombra, o produtor e músico Minari Groove Box e o cartunista e percussionista Junião (Lavoura).

Desde sempre, como cria da Santa Cruz, na periferia de Salvador, entendi a importância de transitar através das brechas. A bicha preta do Nordeste quer se expressar e não só dançando axé, mas também ouvindo o afrojazz com o batidão carioca

Caique Cerqueira
Produtor

Na sétima arte, campo tradicional das peripécias hi-tech e dos futuros útópicos e distópicos, o filme “Branco Sai, Preto Fica” (2015), de Adirley Queirós, baseado em uma história real, mistura elementos de documentário e ficção científica.

Outro representante do afrofuturismo no Brasil é o movimento cultural Mariwô, que une múltiplas narrativas – música, dança, audiovisual, moda, artes visuais e tecnologia –  para falar de elementos ancestrais, mitologias africanas, tecnologia e inovação.  O produtor baiano Caique Cerqueira é o responsável por unir produtores afro com foco no futuro da representação artística negra. “Desde sempre, como cria da Santa Cruz, na periferia de Salvador, entendi a importância de transitar através das brechas. A bicha preta do Nordeste quer se expressar e não só dançando axé, mas também ouvindo o afrojazz com o batidão carioca. Dentro desse trânsito, vim pro Rio de Janeiro no intuito de produzir encontros. Vejo que, como eu, tem uma galera firmeza reinventando a gambiarra, e nossa energia nos une. Daí veio a ideia da Mariwô. É uma brecha no espaço, que se abre de tempos em tempos para a celebração da ancestralidade no futuro. É o afropresentismo”, conclui Caique.


Escrito por Gilberto Porcidonio

É repórter do jornal "O Globo" e sociólogo em formação pela PUC-Rio. Especializa-se em cultura e questões raciais. Como poeta, mantém o alter-ego Frederico Latrão e, como escritor, é um dos autores da coletânea "Larica Carioca", sobre os quitutes dos bares do Rio de Janeiro, além de manter o blog 'O Títere'.

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