Despoluição da Baía, só faltam 30 anos

Cartão postal da cidade recebe atletas olímpicos em situação crítica

Por Emanuel Alencar | ODS 6Rio 2016 • Publicada em 21 de julho de 2016 - 08:15 • Atualizada em 5 de junho de 2019 - 03:27

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Cerca de 18 mil litros por segundo de esgotos ainda são despejados na baía sem qualquer tratamento
Cerca de 18 mil litros por segundo de esgotos ainda são despejados na baía sem qualquer tratamento
Cerca de 18 mil litros por segundo de esgotos ainda são despejados na baía sem qualquer tratamento

Quando Ricardo Winicki, o Bimba, despontar com seu veleiro na Baía de Guanabara para buscar o ouro inédito em sua quinta olímpiada, um sentimento dúbio o acompanhará. Se por um lado defenderá “em casa” as cores brasileiras na classe RS:X da vela, num dos ambientes aquáticos mais bonitos do planeta; por outro carregará a frustração de navegar nas águas mais sujas que já conheceu. Aos 36 anos, o esportista, tetracampeão pan-americano, já conheceu 40 países e lamenta as precárias condições do cartão-postal carioca.

Nunca velejei numa água tão suja, tão poluída, como a da Baía de Guanabara. Ao mesmo tempo, nunca velejei num lugar tão bonito. Preparada (a baía) não está. Lixo flutuante atrapalha. Muito. Na Guanabara, se você estiver velejando a 50km/h e pegar um saco plástico pela frente, pode até ser catapultado. O barco para imediatamente. Pode machucar, é perigoso.

Ricardo Winicki, o Bimba
Velejador olímpico do Brasil

Decorridos 22 anos do maior programa de saneamento, a Baía de Guanabara padece com problemas gravíssimos. A meta de tratar 80% dos esgotos que nela desembocam foi abandonada há um ano e especialistas afirma que a despoluição total só pode ser pensada em 30 anos e com investimentos de cerca de US$ 5 bilhões.

– Nunca velejei numa água tão suja, tão poluída, como a da Baía de Guanabara. Ao mesmo tempo, nunca velejei num lugar tão bonito. Preparada (a baía) não está. Lixo flutuante atrapalha. Muito. Na Guanabara, se você estiver velejando a 50km/h e pegar um saco plástico pela frente, pode até ser catapultado. O barco para imediatamente. Pode machucar, é perigoso – diz Bimba.

O velejador destaca que todos os competidores já conhecem amplamente as condições da baía – “Todos os atletas já passaram aqui mais de 10 vezes, todo mundo está 100% acostumado, com anticorpos” –, e não quer nem pensar num desfecho melancólico para os Jogos:

– Vai ser um mico se uma medalha for decidida por causa do lixo. Como no evento-teste do ano passado, em que um holandês disse que só ganhou (a prova) porque pegou menos lixo na quilha. Espero sinceramente que isso não ocorra.

Baía saturada, diz relatório

As notícias envolvendo as metas de despoluição de 80% da Baía para 2016 começaram a circular na mídia em dezembro de 2012, ainda no governo Sérgio Cabral. Era algo inexequível a curto prazo, mas o plano foi reiterado por diversas vezes ao longo de mais de dois anos. Hoje, de acordo com o engenheiro Adacto Ottoni, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), o índice de esgotos tratados não ultrapassa a marca dos 25%. Isso significa que 18 mil litros por segundo ainda são despejados na baía sem qualquer tratamento.

Aos 36 anos, Bimba, tetracampeão pan-americano, já conheceu 40 países e lamenta as precárias condições do cartão-postal carioca
Aos 36 anos, Bimba, tetracampeão pan-americano, já conheceu 40 países e lamenta as precárias condições do cartão-postal carioca

Especialistas envolvidos em projetos de saneamento nos últimos anos calculam o percentual de tratamento de esgotos em 35%, numa estimativa otimista. Boa parte dos 8,5 milhões de moradores da bacia hidrográfica da Guanabara sequer têm acesso a redes formais de esgoto. Em saneamento, o Rio ainda vive o século XIX.

O lixo flutuante que preocupa Bimba é só a ponta do iceberg do leque de problemas. O espelho d’água da Guanabara foi eleito como estacionamento de embarcações do pré-sal, o petróleo encontrado em águas profundas que renderia enormes dividendos ao país. Nas palavras do deputado estadual Flávio Serafini (PSOL), que conduziu uma comissão especial sobre a Guanabara na Assembleia Legislativa do Rio, “a baía está saturada”.

– O problema de degradação está relacionado também à cadeia da indústria do petróleo. Em 2011, segundo Docas, 1.500 navios atracaram na Guanabara. Em 2015, foram mais de 5 mil. E 90% desses navios dão suporte ao pré-sal. Isso tem que ser redimensionado, rediscutido. Qual é a capacidade da baía para receber a cadeia produtiva do petróleo? O fundeio, o estacionamento dos navios, não tem qualquer controle. Quem licencia é a Marinha e não passa por nenhum órgão ambiental – critica.

Mas a queda do preço do barril do petróleo também implica baixos investimentos em saneamento. Principal fonte de recursos em obras de saneamento no Rio nos últimos anos, o Fundo Estadual de Conservação Ambiental (Fecam), abastecido por 5% da receita das compensações financeiras do pós-sal e 10% das do pré-sal, secou. Neste 2016, R$ 150 milhões do fundo foram liberados para as obras da linha 4 do metrô. E nada para saneamento.

O secretário estadual do Ambiente, André Corrêa, reconhece as dificuldades, mas garante que todos os esforços paliativos estão sendo feitos para ao menos garantir que as competições de vela transcorram sem contratempos:

– Conclui as 17 ecobarreiras (estruturas que recolhem lixo nos rios que desembocam na baía) e já temos 12 ecobarcos em operação. Vamos tirar a maior quantidade de lixo possível da baía. Lixo zero é impossível. Mas acredito que nossas ecobarreiras ficarão de legado – diz Corrêa.

10% do necessário em saneamento

Sobre a despoluição, o secretário diz que os programas padecem de um enorme “déficit de credibilidade”. Para ele, só faz sentido pensar em despoluição num prazo de pelo menos 20 anos:

– Além da falta de credibilidade, houve comunicação equivocada. O que se investiu até agora é cosquinha. Fizemos 10% do necessário em saneamento. Não adianta enganar a população. Em breve vamos divulgar um relatório da saúde ambiental da Guanabara.

Emanuel Alencar

Jornalista formado em 2006 pela Universidade Federal Fluminense (UFF), trabalhou nos jornais O Fluminense, O Dia e O Globo, no qual ficou por oito anos cobrindo temas ligados ao meio ambiente. Atualmente, é editor de Conteúdo do Museu do Amanhã. Tem pós-graduação em Gestão Ambiental e cursa o mestrando em Engenharia Ambiental pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Apaixonado pela profissão, acredita que sempre haverá gente interessada em ouvir boas histórias.

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Um comentário em “Despoluição da Baía, só faltam 30 anos

  1. Hylton Sarcinelli Luz disse:

    É muito difícil de acreditar, tanto pelo fato de serem 22 anos promessas e de iniciativas não concluídas, com muito dinheiro jogado fora, transformado em alimento para os gordos abutres que se nutrem das vísceras do cofres públicos, consolidando um cenário de desperdícios na forma de obras inacabadas e descrédito frente as agências internacionais que subsidiaram os empréstimos internacionais. Afora este cenário trágico que a muitas décadas assola na nação em todos os âmbitos, precisamos também considerar que despoluir a Baia da Guanabara sem um plano de sanear e despoluir os rios que desaguam em seu leito é uma tarefa infinita em termos de trabalho e em termos de recursos investidos. Não sou especialista no tema, mas meu bom senso me diz que sendo a baia o estuário de uma bacia hidrográfica o trabalho deve ser realizado em conjunto, em todo este organismo hídrico, não em um ponto isolado, muito menos em seu ponto final sem que sejam tomadas iniciativas coordenadas em todos os segmentos anteriores, caminhando progressivamente das nascentes em direção a baia. Desta maneira planejada para executar um trabalho completo se fará não apenas a despoluição da Baia da Guanabara, mas dos cursos de água potável, dos mananciais de água doce que garante a vida de todos os viventes ao longo deste trajeto. O curso dos rios não pode continuar sendo canal para drenar esgoto e lixo.

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