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Casca de banana, bactéria e detergente biodegradável para tratar água

Dispositivo criado por estudantes do ensino médio de São Paulo ganha destaque no World Toilet Summit


A professora Leila e as alunas Júlia, Anally e Keiko no World Toilet Summit: estudantes criaram dispositivo para tratar águas das casas antes de cair na rede de esgoto (Foto: Paulo Passos)
A professora Leila e as alunas Júlia, Anally e Keiko no World Toilet Summit: estudantes criaram dispositivo para tratar águas das casas antes de cair na rede de esgoto (Foto: Paulo Passos)

Um projeto simples e barato para tratar a água antes mesmo de cair na rede de esgoto, criado por estudantes do ensino médio, ganhou um inesperado destaque nesta terça-feira (19/11), último dia do World Toilet Summit Brasil 2019,  que reuniu especialistas em saneamento do mundo inteiro em São Paulo. “A água é um recurso vital e finito. Precisamos garantir o saneamento; e uma forma disso acontecer é através da ciência para todos”, disse Anally Souza, de 16 anos, aluna do 1º ano do Ensino Médio do Colégio Santo Américo, no Jardim Colombo, na capital paulista, ao apresentar seu projeto no dia em que é também comemorado o World Toilet Day.

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Anally e as colegas Júlia Rodrigues e Keiko Hanasiro, ambas com 15 anos, criaram, na escola, o Vitágua, um experimento que trata a água das torneiras e do chuveiro, antes de ser despejada nos rios da cidade.  A professora Leila Stavale que, além de engenheira ambiental, é coordenadora dos projetos de iniciação científica do colégio, contou que o projeto vem sendo desenvolvido na escola desde o início do ano.  “Nossa intenção é que o ensino saia da sala de aula e que também ultrapasse as barreiras do Ensino Médio”, disse a professora de Biologia, que acompanhou as estudantes no painel Legados e iniciativas brasileiras no Dia Mundial do Banheiro.

Nosso objetivo, a longo prazo, é impactar áreas periféricas e rurais, de um jeito econômico e sustentável

Julia Rodrigues
Estudante de 15 anos do Colégio Santo Américo

Anally e Júlia moram em Taboão da Serra, município de quase 300 mil habitantes na Região Metropolitana de São Paulo. Keiko vive no Jaguaré, bairro da Zona Oeste da capital paulista. Elas tiveram a ideia de criar um protótipo para limpar a água, depois de perceberem que o tratamento de esgoto de suas regiões era ineficaz.  “Nosso objetivo, a longo prazo, é impactar áreas periféricas e rurais, de um jeito econômico e sustentável”, contou Júlia, adiantando que o projeto já recebeu algumas propostas de financiamento. Cada exemplar tem um custo de R$ 50 e a ideia, que vem sendo testada, é a de um dispositivo de três fases que purifica a água e a entrega já limpa no sistema de saneamento. 

“Nosso dispositivo tem três fases principais. Na primeira etapa, a água é purificada por cascas de banana, que ajudam a eliminar os pesticidas e agrotóxicos presentes no esgoto doméstico; na segunda parte, é usado uma bactéria (Bacillus Subtilis), que se alimenta de micro-poluentes do esgoto; e, na última fase, usamos um detergente biodegradável, que dissolve gorduras e triglicerídios da água. Assim, a água cai na rede de esgoto já tratada”, acrescentou Júlia Rodrigues.

Nós precisamos de apoio para criar um protótipo para ser efetivamente testado nas casas. Após a exposição aqui no World Toilet Summit, laboratórios e empresas já entraram em contato conosco. Foi muito bom

Keiko Hanasiro
Estudante de 15 anos do Colégio Santo Américo

Elas, agora, entram na fase de experimentação e tentam colocar essa estrutura nos ralos de pia e banheiros. “Nós precisamos de apoio para criar um protótipo para ser efetivamente testado nas casas. Após a exposição aqui no World Toilet Summit, laboratórios e empresas já entraram em contato conosco. Foi muito bom”, disse Keiko Hanasiro. “Ainda estamos em negociação. Não temos nada definido, mas queremos continuar; e o evento de hoje nos animou mais ainda, porque é bom saber que há pessoas que também se preocupam com o saneamento básico”, adicionou Júlia, que pretende fazer medicina.

Quando a estudante disse aos pais que iria se apresentar no World Toilet Summit, um evento internacional, eles ficaram surpresos. “Eles sabiam que eu fazia o projeto na escola, mas não tinham noção do que era. Ficamos muito felizes com o convite”.  O projeto Vitágua também foi aprovado para participar do International Festival of Engineering, Sciences and Technology, na Tunísia, em março de 2020. Elas também buscam apoio para estar presentes ao evento. 

Para Anally, o projeto tem tudo para ser viável. “Nosso objetivo é ajudar a limpar o Rio Tietê a médio e longo prazo. Por isso, buscamos criar um dispositivo econômico e sustentável, que pode ser usado em qualquer casa”, disse a estudante do Santo Américo. O projeto Vitágua foi elogiado por Édison Carlos, presidente executivo da Trata Brasil, que disse estar emocionado, depois de ver o trabalho das garotas. “Nosso trabalho é exatamente incentivar a sociedade a investir na expansão do saneamento básico. Queremos ser um polo de atração, para juntar iniciativas da sociedade, governo e empresas”, afirmou.   

 


Escrito por Paula Passos

Jornalista, especialista em Marketing, com passagens pela TVU Recife, Portal LeiaJá e Rede Globo NE. Trabalhou com assessoria de comunicação para o terceiro setor. Hoje, cursa mestrado em Comunicação (UFPE). Nas horas vagas, escreve crônicas no @blogdetalhe.

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