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Mulheres são as maiores vítimas da falta de banheiro

Brasil tem mais de 4 milhões de pessoas sem acesso a banheiro e população feminina é a mais afetada


Mais de 4 milhões de pessoas no Brasil não tem acesso a banheiro: mulheres sofrem mais (Foto: Custódio Coimbra)
Mais de 4 milhões de pessoas no Brasil não tem acesso a banheiro: mulheres sofrem mais (Foto: Custódio Coimbra)

Como o gênero influencia no saneamento básico? Essa foi a pergunta inicial a que Sarika Saluja, gerente geral da World Toilet Organization (WTO), tentou responder em painel no World Toilet Summit 2019, que está sendo realizado em São Paulo.  “Geralmente, são as mulheres que ficam responsáveis por buscarem água em suas casas, por fazerem tarefas domésticas que necessitam de água, pelos cuidados com as crianças. E também são elas que correm mais riscos de serem abusadas sexualmente, enquanto vão a um banheiro longe de suas casas. E também são elas que precisam de mais privacidade e de condições melhores durante a menstruação e a gravidez”, disse Sarika Saluja.

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De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS)/Unicef, de 2015, mais de 1 bilhão de pessoas no mundo ainda não possui acesso a um banheiro. Isso significa que uma em cada quatro pessoas faz suas necessidades fisiológicas ao ar livre, uma prática que potencializa a contaminação da água e a proliferação de doenças, como a esquistossomose. No Brasil, são mais de 4 milhões de pessoas sem acesso a banheiro.

Quando uma adolescente menstrua e sabe que na escola onde estuda não tem um banheiro, ela perde o interesse em ir à aula. Quando uma mãe tem diarreia ou alguém de sua família está doente, ela, muitas vezes, precisa faltar ao trabalho, para cuidar de si e de seus familiares.

Marisa Cesar
CEO do Grupo Mulheres do Brasil

No caso das mulheres, as chances de contaminação são maiores, como explica a ginecologista Juliana Aquino. “Nosso órgão genital é interno, então, bactérias encontram mais condições para se proliferarem. Se a mulher não se olha com um espelho e também não consegue fazer exames anuais, não consegue ver lesões e não consegue se tratar”, disse

A médica também explica que outro fator do corpo que influencia é a entrada da vagina ser perto do ânus e, por isso, pode haver contato com fezes; diferente do homem que tem o órgão genital para fora. Já quando tem acesso a um algum vaso sanitário, também é mais fácil de ser contaminada, porque, ao sentar, por entrar em contato com bactérias resistentes que ficam no bacia.

“Uma coisa que a gente esquece é que muita mulher não tem acesso a absorvente, como moradores de rua, por exemplo. Elas usam o pano que conseguirem e, às vezes, não tem nem acesso à água para lavar esses paninhos, para tomar um banho. Já tive uma paciente, moradora de rua, que tinha larvas na vulva. Precisamos tirar uma parte da vulva, cirurgia que só é geralmente realizada em pacientes com câncer”, conta.

Vista de um banheiro numa favela de Dhaka, em Bangladesh: World Toilet Summit, em São Paulo, discute o drama da falta de banheiros (Foto: Mamunur Rashid/ NurPhoto)
Vista de um banheiro numa favela de Dhaka, em Bangladesh: World Toilet Summit, em São Paulo, discute o drama da falta de banheiros (Foto: Mamunur Rashid/ NurPhoto)

A médica ressalta ainda que diarreia, esquistossomose e até câncer de pênis são outras doenças que podem ser causadas pela falta de saneamento e pela falta de higiene. De acordo com Atlas on Children’s Health and the Environment“ – WHO 2017, a diarreia mata 2.195 crianças por dia no mundo e faz mais vítimas do que a Aids, a malária e o sarampo juntos. É a segunda causa de morte entre meninos e meninas entre 1 mês e 5 anos no mundo. 

Em dois anos ddo Água na Escola – Gotas do Futuro, passamos em 15 cidades, levando informação para alunos mais de 30 mil alunos. A ideia é que eles cresçam entendendo que saneamento é um direito e que esse direito permite acesso à dignidade

Daiane dos Santos
Ginasta campeã mundial e embaixadora do Instituto Trata Brasil

CEO do Grupo de Mulheres do Brasil, Marisa Cesar destacou o impacto da falta de banheiro no dia-a-dia das mulheres.  “Quando uma adolescente menstrua e sabe que na escola onde estuda não tem um banheiro, ela perde o interesse em ir à aula. Quando uma mãe tem diarreia ou alguém de sua família está doente, ela, muitas vezes, precisa faltar ao trabalho, para cuidar de si e de seus familiares. Isso faz com que a mulher produza menos e, às vezes, nem tenha acesso a uma capacitação profissional e a um emprego”,  disse Marisa durante o debate mo primeiro dia do World Toilet Summit 2019.

No Brasil, segundo pesquisa do IBGE, as mulheres trabalham quase o dobro de horas do que os homens, com os cuidados domésticos e com parentes. Enquanto elas dedicaram, em média, 21,3 horas semanais a essas atividades; eles só usaram 10,9 horas para este tipo de tarefa.  Marisa Cesar destacou que a questão é muito mais ampla do que simplesmente ter água na torneira e acesso a um vaso sanitário. É um trabalho que também passa pela cultura, de reeducação em relação ao uso da água, do banheiro; assim como de levar capacitação para essas mulheres. 

Esse trabalho de mudança de mentalidade vem sendo feito pela ginasta campeã mundial Daiane dos Santos e a equipe da Trata Brasil, que tem Daiane como embaixadora há dez anos. “Em dois anos ddo Água na Escola – Gotas do Futuro, passamos em 15 cidades, levando informação para alunos mais de 30 mil alunos, do 1ª ao 5º ano do Ensino Fundamental, de forma lúdica, sobre saneamento básico. A ideia é que eles cresçam entendendo que saneamento é um direito e que esse direito permite acesso à dignidade”, afirmou Daiane.


Escrito por Paula Passos

Jornalista, especialista em Marketing, com passagens pela TVU Recife, Portal LeiaJá e Rede Globo NE. Trabalhou com assessoria de comunicação para o terceiro setor. Hoje, cursa mestrado em Comunicação (UFPE). Nas horas vagas, escreve crônicas no @blogdetalhe.

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