ODS 1
“A gente não aceita mais migalha”: mulheres negras sustentam reciclagem no Brasil


De Carolina Maria de Jesus às cooperativas de hoje, a luta é a mesma: ser vista como gente; força de trabalho feminina e negra representa 79% dos catadores organizados


Aos 43 anos, Roselaine Mendes Ferreira já não consegue passar muito tempo em pé, por conta de um problema na coluna desde os 20 — consequência de carregar, desde os 7 anos, carrinhos com até 400 quilos de material reciclável pelas ruas de Curitiba, capital do Paraná. Hoje, com as dores ainda presentes, ela ocupa um cargo na parte administrativa da ONG União Nacional de Catadoras e Catadores do Brasil (Unicatadores) e trabalha na catação apenas aos finais de semana. Não parou porque, em algum momento, parar significaria perder o espaço que levou anos para conquistar.
Leu essa? Catadores enfrentam preconceito, miséria e insegurança
Roselaine conheceu a catação aos 7 anos, através da mãe, que foi abandonada pelo marido com seis filhos pequenos e, para sustentar a casa, dividiu a vida entre catar recicláveis e o serviço de servente. Juntos, mãe e filhos puxavam carrinho no centro de Curitiba, cidade que descreve como: extremamente preconceituosa, racista, machista.
A gente carrega o planeta nas costas. E é hora da sociedade reconhecer isso — não com elogio vazio, mas com política, com grana, com direito. A gente não aceita mais migalha
Foi na capital paranaense que, mesmo sabendo da realidade que vivia, ouviu que sua mãe era “vagabunda, não quer trabalhar”. Pessoas que ousavam sugerir que carregar 400 quilos nas costas, no frio, na chuva, sem banheiro – mesmo em períodos menstruais -, fosse preguiça. Como se a catação não fosse trabalho.
Quando Roselaine iniciou na profissão, “não tinha vergonha, mas não tinha orgulho do que fazia,” conta. Foi só em 2012, quando conheceu o Fórum de Cidadania, coordenado pelo Ministério Público do Trabalho, e depois o Movimento Nacional dos Catadores, que entendeu que sua função era essencial e que “toda a população deveria me agradecer pelo trabalho” diz.
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Veja o que já enviamosA reportagem do #Colabora conversou com catadoras de recicláveis que são mães, filhas, articuladoras políticas, gestoras ambientais e lideranças regionais para entender os pormenores dessa profissão que é majoritariamente exercida por mulheres negras, e ainda carrega uma série de estigmas e invisibilidade.


Gerações de mulheres catadoras
Em 1958, o jornalista Audálio Dantas foi à favela do Canindé, em São Paulo, fazer uma reportagem. Lá encontrou Carolina Maria de Jesus — mulher negra, mãe solo de três filhos, catadora de papel, moradora de um barraco na beira do rio Tietê. Em seus cadernos, escrevia tudo: a fome, a luta diária por direitos básicos e a violência da miséria.
Dois anos depois, em 1960, esses diários viraram Quarto de Despejo: Diário de Uma Favelada. O livro esgotou 10 mil exemplares em uma semana. Foi traduzido para 14 idiomas. Virou best-seller internacional. Mas Carolina morreu pobre, em 1977.
A autora escrevia sobre suas vivências e percepções da favela. Ela foi uma das primeiras mulheres negras brasileiras a denunciar por escrito a relação entre quem a sociedade joga fora materialmente (o lixo) e quem a sociedade joga fora socialmente (os favelados, os catadores, os pobres, os pretos). “A favela é o quarto de despejo da cidade. Nós somos o lixo que eles jogam fora”, escreveu Carolina
Claudete Costa conheceu a pobreza aos 8 anos, quando a mãe, vítima de violência doméstica, decidiu fugir com os filhos para sobreviver. Foi nas ruas da cidade maravilhosa, que recebeu lições duras e claras: cortar papelão à noite, vender velas e rosas durante o dia. Os filhos aprenderam a vender doce e pedir doações. Aos 10 anos, Claudete iniciou na catação noturna.
Quando a gente entra no Guinness, quando a gente ganha prêmios, quando a gente senta com o presidente da República, é naquilo que convém. No resto, eles não nos chamam e ainda querem passar por cima
Hoje, aos 46, é presidenta da cooperativa Reciclando Para Viver, vice-presidenta da Unicopas (União Nacional das Organizações Cooperativistas Solidárias) e parte da coordenação nacional do movimento dos catadores. Chegou até aqui sem que ninguém a poupasse: foi mãe aos 16 e, assim como Maria Carolina de Jesus, criou três filhos sozinha, na Cidade de Deus, comunidade pobre na zona sudoeste do Rio de Janeiro.
Uma chave importante virou dentro dela quando, aos 21, fez um curso chamado Jovem Liderança, em uma ONG. Foi quando entendeu que aquilo que fez durante toda a vida foi, não só ações de liderança, mas uma luta por dignidade e direitos. “Eu já faço isso, eu vou cada vez mais me qualificar nessa pegada”, lembra de ter pensado.
Desde então, Claudete acumulou reconhecimentos. Ganhou o prêmio Trabalho Decente e Saúde no Rio Mais 20, em primeiro lugar entre 130 mulheres de todo o mundo. Entrou no Guinness com catadores durante o Carnaval de 2024, após ela e equipe de mais de 100 catadores reciclaram cerca de 10 toneladas de latinhas durante o Carnaval de 2023. Candidatou-se à deputada estadual. Mas o reconhecimento não foi refletido no bolso. “Financeiramente ainda não tô no limite que eu sonho. A gente acaba pagando para trabalhar.”
Claudete explica que mercado da reciclagem move cerca de R$ 80 bilhões por ano no Brasil, segundo a Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (ABREMA). Mas quem lucra são os grandes empresários e indústrias. Os catadores, que construíram essa cadeia desde sempre, não participam desse lucro.
A exclusão é histórica. “A reciclagem começou com os escravos. Era coisa de preto, pobre e favelado”, diz, e lamenta que a branquitude venha cada vez mais esmagando quem realmente vem da luta. “Quando a gente entra no Guinness, quando a gente ganha prêmios, quando a gente senta com o presidente da República, é naquilo que convém. No resto, eles não nos chamam e ainda querem passar por cima”, defende.


A força das catadoras
Essa exclusão sentida por Claudete é refletida, também, nos números. Mulheres negras são a força motriz da reciclagem organizada no Brasil. Um levantamento da Associação Nacional de Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis (ANCAT) junto a 760 organizações de catadoras e catadores revela que elas compõem a maioria absoluta da categoria: 56% são mulheres, sendo 79% negra ou parda.
Os números do Atlas Brasileiro da Reciclagem (Ano II – 2024) confirmam o que o movimento já sabia: a reciclagem no Brasil tem cor e tem gênero, intersecção que não é coincidência, mas reflexo de exclusões históricas. Mulheres representam 44% da força de trabalho no Brasil, mas nas cooperativas de reciclagem são 56%. Negros e pardos somam 56% dos trabalhadores no país — entre os catadores, esse percentual salta para 79%.
A dupla jornada de injustiça ambiental não foi superada porque ainda vivemos em uma sociedade marcada pela apropriação e exploração de gênero
Contrariando outras profissões, 61% dos cargos de direção nas organizações de catadores são ocupados por mulheres, em sua maioria entre 25 e 44 anos. São elas que negociam contratos, representam cooperativas, organizam o trabalho coletivo — mesmo com apenas 24% tendo concluído o ensino médio.
Essas lideranças emergem em condições adversas. Quase 15% das catadoras têm mais de 60 anos e continuam trabalhando. A baixa escolaridade — 74% sabem ler e escrever, mas só 24% concluíram o ensino médio — contrasta com o peso da responsabilidade que carregam.
E esses dados são apenas das organizadas. Segundo o SNIS (2023), 73,4% dos municípios brasileiros reconhecem catadores autônomos dispersos nas cidades — a maioria deles, mulheres negras na informalidade absoluta.


“Eu percebi que eu poderia ir além”
Bruna Cavalcante conheceu a catação através da avó, hoje com 98 anos. Criança, ajudava a separar material sem entender bem o porquê — ainda que soubesse que a mistura do almoço dependia daquilo.
Quando a mãe começou a trabalhar na Cooperativa de Arujá, em São Paulo, ouvia ela dizer: “Aprendi o que é PET, aprendi a importância do papelão”. Terminados os estudos, foi trabalhar lá também.
O ponto de virada veio com a morte da tia. Bruna assumiu o lugar dela e entendeu que podia fazer mais do que separar material — podia representar a cooperativa no movimento nacional. Hoje, aos 29 anos, é presidenta da Cora (Cooperativa de Reciclagem de Arujá).
O caminho não foi fácil. “Você é muito nova, você merece um emprego melhor, você não tem futuro aí”, ouviu de amigos e familiares. Quanto mais falavam, mais ela se erguia. A força vinha de quem dependia dela: mães solo, ex-presidiários, pessoas negras que não conseguiam emprego em outro lugar.
Um estudo publicado em 2023 pelo IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada sobre as condições de vida e trabalho das mulheres catadoras define: “As catadoras são personagens de uma trama capitalista e patriarcal que mistura gênero, raça e classe social”.
A gente não quer ser vista como coitadinha só porque é mãe solo, só porque é preta, só porque cuida da família sozinha. A gente quer respeito pelo nosso trabalho, pela nossa capacidade
Os pesquisadores descrevem a realidade das catadoras nas ruas: labor solitário, expostas ao sol e à chuva, disputando espaço com automóveis, puxando carros à mão em pisos irregulares. Nos lixões e aterros, a precarização é ainda maior — exposição a gases tóxicos, riscos de acidentes, sem infraestrutura para necessidades básicas como banheiro ou alimentação. Muitos locais funcionam como ponto de prostituição e tráfico.
A pesquisa traça uma linha direta entre a população negra escravizada que cuidava do lixo urbano no século XIX e as catadoras negras de hoje. Ao enfrentar situações tão precárias, as catadoras vivenciam sentimentos de autoanulação, passam a não se perceber como seres humanos: diversos problemas psíquicos podem atingi-las — desânimo, ansiedade, baixa autoestima, humilhação.
Mas o estudo também mostra um paradoxo. Esses fatores negativos podem contribuir para a tomada de consciência da opressão e estimular a organização coletiva. As cooperativas abrem possibilidades de resgate humano e conquista de direitos. O que essas mulheres fazem ao se articularem é resistência contra o apagamento e empoderamento.


Clima, gênero, raça: a interseção que ninguém quer ver
Isabella de Carvalho Vallin, educadora popular e doutoranda em Ciência Ambiental na USP, pesquisou em 2016 o que chamou de “dupla jornada de injustiça ambiental” vivida por mulheres catadoras, que enfrentam a injustiça ambiental em pelo menos dois níveis simultâneos: na moradia e no trabalho.
“As mulheres entrevistadas passavam mais tempo na favela em que viviam do que os homens, pois eram responsáveis por cuidar dos filhos, dos idosos e dos afazeres da casa, isso as expunha de forma mais intensa aos riscos ambientais identificados”, explica.
“Por outro lado, também estavam expostas aos riscos associados ao trabalho e à estrutura precária do galpão que tinham, ficando sujeitas à contaminação e infecção.” A investigação fez parte da pesquisa “Gênero e Meio Ambiente: dupla jornada de injustiça ambiental em uma cooperativa de mulheres catadoras de materiais recicláveis”.
Dez anos depois da publicação, Isabella reconhece avanços — como maior visibilidade do movimento nacional, reconhecimento crescente do papel das mulheres nas cooperativas e projetos de formação e liderança feminina.
A gente começa a trabalhar muito cedo. O trabalho judiou tanto
Mas sintetiza que a precarização persiste, já que “a dupla jornada de injustiça ambiental não foi superada porque ainda vivemos em uma sociedade marcada pela apropriação e exploração de gênero”, em que os debates climáticos ainda são “fortemente dominados por uma visão masculina, tecnicista e racialmente branca, que privilegia grandes soluções econômicas e tecnológicas e invisibiliza o cotidiano da vida e do cuidado”.
É por isso que, segundo Isabella, é imprescindível reconhecer a crise climática também como uma crise de colonialidade e de racismo estrutural. “Enquanto as políticas climáticas não partirem das experiências concretas das mulheres negras periféricas, quilombolas, indígenas e catadoras, continuarão sendo pensadas de forma desigual.”
No projeto “Catadoras Empoderadas”, realizado em 2025 pelo Pimp My Carroça — organização que desenvolve iniciativas de artivismo e tecnologias sociais para fortalecer o trabalho e o reconhecimento das catadoras — 15 mulheres catadoras de São Paulo escreveram juntas o Manifesto das Catadoras pelo Clima.
Nele, expressam o desejo de serem reconhecidas como agentes da justiça ambiental e climática pelo trabalho que realizam e que mitiga as emissões de gases de efeito estufa. Exigem ser incluídas nas decisões sobre o clima, já que são um dos grupos mais impactados pelas mudanças climáticas.


A faixa foi passada — e depois?
Em janeiro de 2023, Aline Sousa subiu a rampa do Palácio do Planalto ao lado de Luís Inácio Lula da Silva, que naquele dia assumia a presidência do Brasil. Mulher negra, catadora desde os 14 anos, mãe de sete filhos, terceira geração de catadoras. Foi ela quem colocou a faixa presidencial no presidente — visibilidade inédita que correu o mundo.
Desde então, o governo federal recriou mecanismos como o Programa Diogo Sant’Ana Pró-Catadores, que estimula colocar os catadores no centro da política de reciclagem e logística reversa, após anos de estagnação, explica Isabella.
Também criou um pacote de ações e investimentos de mais de R$ 425 milhões destinados a fortalecer cooperativas e associações, modernizar infraestrutura, ampliar acesso a crédito e assistência técnica, pontua.
Ainda assim, há lacunas. Roselaine, que tem dores nas costas desde a infância, menciona a importância da aposentadoria especial — como para pescadores e agricultores familiares — que ainda não existe para catadores. “A gente começa a trabalhar muito cedo. O trabalho judiou tanto”, pontua.
Entre outras demandas reivindicadas pela categoria, está o pagamento pelo serviço das cooperativas e programas de habitação específicos para catadores e catadoras.
Bruna fala do protagonismo feminino como algo que vai além da renda. As mulheres catadoras transmitem valores, sustentam famílias inteiras. Mas quando perguntada sobre o que precisa avançar, ela é direta: respeito. “A gente não quer ser vista como coitadinha só porque é mãe solo, só porque é preta, só porque cuida da família sozinha. A gente quer respeito pelo nosso trabalho, pela nossa capacidade.”
Reconhecimento, dignidade, condições melhores, políticas públicas que funcionem. E que parem de tratá-las como frágeis quando são as mais fortes. “Não dá para pensar em mudanças climáticas sem considerar as catadoras e catadores de materiais recicláveis”, diz Bruna. “A gente carrega o planeta nas costas. E é hora da sociedade reconhecer isso — não com elogio vazio, mas com política, com grana, com direito. A gente não aceita mais migalha.”
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Mariana Rosetti e Paola Churchill
Mariana Rosetti é jornalista independente, repórter, fotógrafa e produtora, com atuação focada em direitos humanos, meio ambiente e segurança pública — sempre pelas lentes de gênero. Investiga histórias que revelam desigualdades estruturais e amplificam vozes historicamente invisibilizadas. Foi finalista do Prêmio Patrícia Acioli de Direitos Humanos com uma reportagem sobre violência obstétrica no cárcere; Paola Churchill é jornalista freelancer. Escreve sobre gênero e cultura em veículos como Azmina, Ponte jornalismo, BBC, Remezcla, Revista Claudia, Capricho, Mongabay Brasil, Núcleo Jornalismo, Noize, Bazaar, Folha de S.Paulo, Estadão, Marie Claire, Vogue, Tab UOL e Universa. Acredita no jornalismo como uma ferramenta para revelar desigualdades e ampliar vozes que costumam ficar à margem







































