Um dia sem mulheres

Mexicanas farão greve geral de 24 horas em protesto contra o crescimento do feminicídio no país

Por Agostinho Vieira | ods5 • Publicada em 7 de março de 2020 - 19:54 • Atualizada em 10 de março de 2020 - 11:14

Marcha de mulheres em frente ao palácio do governo na Cidade do México. (Foto: Pedro Pardo/ AFP)

No filme “Um dia sem mexicanos”, do cineasta Sérgio Arau, a Califórnia entra em estado de choque quando um terço da população desaparece da noite para o dia. São médicos, policiais, operários, babás e outros profissionais que garantiam a segurança e o bem-estar da população branca. Em comum, os 14 milhões de desaparecidos têm as raízes hispânicas e o fato de serem pouco valorizados, como se fizessem apenas parte da paisagem. Na próxima segunda-feira, dia 9 de março, a vida vai imitar a arte. Não mais nos Estados Unidos, mas em pleno México. E não apenas em busca de valorização e reconhecimento, mas lutando por segurança e pelo direito à vida. E mais, os 14 milhões agora podem chegar a 60 milhões. Todas mulheres.

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A cada dia, dez mulheres são vítimas fatais de violência de gênero no México. E 90% dos casos terminam impunes. As lideranças feministas do país acusam o presidente Andrés Manuel López Obrador, conhecido como AMLO, de não ter dado até hoje uma resposta firme aos assassinatos e maus-tratos sofridos pelas mulheres. Em um protesto no mês passado, em frente ao Palácio Nacional, foram pintadas as frases “presidente indiferente!” e “Estado feminicida”. Na greve da próxima segunda-feira, a palavra de ordem é “El nueve ninguna se mueve”. A ideia é que nenhuma mulher mexicana vá trabalhar ou estudar, nenhuma mulher realize trabalhos domésticos e sequer façam quaisquer compras.

A intenção com essas ações é tornar visível todas as tarefas feitas por mulheres que, muitas vezes, parecem invisíveis, mas que são indispensáveis para que o país funcione. Dados oficiais do governo mexicano mostram que as mulheres representam cerca de 40% da força de trabalho nacional e 77% da força de trabalho doméstica não remunerada. Em cifras, significa que o trabalho das mulheres no México movimenta cerca de 26 bilhões de pesos, o equivalente a R$ 6,5 bilhões. Quando se considera também o trabalho não remunerado, os valores chegam a 37 bilhões de pesos, ou R$ 9 bilhões.

Até o momento, o presidente López Obrador vem insistindo em colocar o problema do feminicídio no México dentro de um contexto geral de pobreza e desigualdade: “Hay que proteger la vida de hombres y mujeres”, disse em uma de suas coletivas de imprensa. A morte da menina Fátima Cecília Aldrightt Antón, de sete anos, no mês passado, ajudou a acirrar ainda mais os ânimos. O seu corpo foi encontrado sem roupas dentro de um saco plástico com sinais de violência sexual. Ela havia desaparecido quatro dias antes, em frente à escola onde estudava, na Cidade do México. A sequestradora era conhecida da família e cometeu o crime a pedido do marido, que ameaçou violentar as próprias filhas se a mulher não encontrasse outra vítima.

Até a primeira-dama do país, Beatriz Gutiérrez, chegou a dizer que participaria do movimento do próximo dia 9 de março, segunda-feira. Mas acabou sendo dissuadida pelo presidente que argumenta que os partidos conservadores estão por trás da convocação. A jornalista Carmen Aristegui, apresentadora de um dos jornais televisivos mais famosos do México, já anunciou que não estará na bancada do jornal na noite do dia 9. Nas redes sociais, a greve está sendo convocada com as hashtags #UnDíaSinNosotrase e #UnDíaSinMujeres.

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Agostinho Vieira

Formado em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ. Foi repórter de Cidade e de Política, editor, editor-executivo e diretor executivo do jornal O Globo. Ainda na Infoglobo, empresa que administra os jornais O Globo, Extra e Valor Econômico, exerceu por oito anos a função de diretor executivo de Negócios. Também foi diretor do Sistema Globo de Rádio e da Rádio CBN. Ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo, em 1994, e dois prêmios da Society of Newspaper Design, em 1998 e 1999. Tem pós-graduação em Gestão de Negócios pelo Insead (Instituto Europeu de Administração de Negócios) e em Gestão Ambiental pela Coppe/UFRJ. Atualmente é Editor Chefe do Projeto #Colabora.

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