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Martinha: ‘Fui presa mais de 200 vezes na ditadura’

Baiana, a travesti de 62 anos começou a se prostituir aos 8 após fugir de casa com medo da mãe, que ameaçava envenená-la


O #Colabora foi até Salvador, na Bahia, para conhecer aquela que viria a ser a personagem do segundo episódio da série LGBT+60: Corpos que Resistem: Marta Maria de Sá, travesti de 62 anos, mais conhecida como Martinha.

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Durante a viagem do Rio para a capital baiana, aproveito para ler uma reportagem sobre Martinha escrita pelo jornalista Jordan Dafné para o Correio 24 horas. A cada parágrafo, eu precisava parar um pouco. A história de Martinha é forte e de deixar qualquer roteirista de boca aberta.

Na época do boom da AIDS, Martinha conta que travestis eram expulsas dos ônibus de Salvador. (Foto: Karol Azevedo)

Quando criança, foi expulsa de quatro colégios. Por causa dos trejeitos femininos, era considerada “um mau exemplo para os colegas”. Em casa, a realidade também era dura. Sofria ameaças da própria mãe que afirmava que lhe daria uma injeção de estricnina (veneno para rato) enquanto ela dormia ou enfiaria pimenta em seu ânus. Sem escola e com medo de ficar em casa, Martinha foi para rua. Dormia pelas praças de Salvador. A prostituição foi a saída encontrada para sobreviver. Martinha era uma menina. Tinha apenas 8 anos quando fez seu primeiro programa.

Eu precisava conhecê-la.

Pegavam a gente, levavam para a praia deserta, mandavam uma segurar no membro da outra e mandavam a gente cantar ‘Ciranda Cirandinha’

Martinha
Travesti, 62 anos

Martinha chega à sede do Grupo Gay da Bahia – local escolhido por ela para a entrevista – no Pelourinho, com duas muletas. O corpo está debilitado. Nos últimos anos, sofreu dois AVCs. Escolho o lugar que seria mais confortável para ela sentar. Não foge de nenhuma pergunta e se mantém séria em praticamente todas. O riso tímido só vem quando brinca ao falar que o silicone a deformou.

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A seriedade é de quem precisou ser forte e resistir, sempre. Pelo corpo, marcas da ditadura. Foi presa mais de 200 vezes. Na época do golpe militar, que teve início em 1964, foi vítima de uma verdadeira caça a tudo que era não era considerado como bons costumes sociais. “A gente ia comprar uma carne no açougue de manhã, a polícia via e levava”, conta. Os abusos físicos e sexuais eram constantes: “Pegavam a gente, levavam para a praia deserta, mandavam uma segurar no membro da outra e mandavam a gente cantar ‘Ciranda Cirandinha’”. Na sobrancelha, mostra a cicatriz após uma ‘cabada’ de revólver que levou de um policial.

Martinha mostra cicatriz resultado de violência policial durante a ditadura militar: ‘A gente ia comprar uma carne no açougue de manhã, a polícia via e levava’. (Foto: Karol Azevedo)

Apesar do passado doloroso, ela sonha. E seu sonho é dos mais nobres. Quer abrir uma casa de apoio para LGBTs que são expulsos de casa. Quase chegou a realizar, mas colocaram fogo na casa que comprou após um período em que se prostituía quase 24 horas por dia.

Vítimas da AIDS, da violência policial ou da transfobia, praticamente todas suas amigas travestis ou trans já se foram. Martinha é uma resistente. “Eu acho que é como se Deus me escolhesse para poder estar viva para poder contar essas histórias para as gerações de hoje”.

Obrigada a sair de casa aos 8 anos, Martinha quer abrir uma casa de apoio para LGBTs: ‘É como se Deus me escolhesse para estar viva’. (Foto: Yuri Fernandes)

LGBT+60: CORPOS QUE RESISTEM

 


Escrito por Yuri Fernandes

Formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora, é mineiro de Ipatinga. Sempre sonhou em morar no Rio de Janeiro e realizou seu desejo em 2014 ao passar para o programa de estágio da TV Globo. Trabalhou nas redações do "Bom Dia Brasil", do "Jornal Nacional" e do "EGO". Tem grande interesse em pautas de inclusão social e diversidade de gênero. Acredita que o jornalismo pode e deve ser usado como forma de combater a opressão a minorias. Cresceu vendo novelas e sempre manteve essa paixão viva.

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5 Comentários

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  1. Uma pauta muito legal e informações relevantes. É bom ver que na nossa terra,Ipatinga, tbm tem gente boa. Pq aqui a coisa está sombria…Somos a resistência.

  2. A comemoração da vida nem sempre é daria e para muitos onde a tortura ainda acaba sendo o acolhimento cotidiano não se sabe quando se vai ter comemoração, eu sei que esparramar sua historia vai gerar muitos frutos que estarão alegrando seus dias enquanto haver dias para alegrar-se, muito obrigado por nos lembrar sobre o quanto somos brutos, precisamos nos nivelar com sentimentos mais nobres que fogem da violência pregada pelo machismo.

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