O que é “dororidade”?

Conceito feminista trata das dores que unem as mulheres negras para além do machismo

Por Revista AzMina | ODS 10ODS 5 • Publicada em 5 de julho de 2022 - 07:00 • Atualizada em 13 de julho de 2022 - 10:37

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(Glória Maria*) – Há grandes chances de “sororidade” ter sido uma das primeiras palavras que você ouviu quando conheceu o movimento feminista. É um termo bastante usado para remeter à ideia do acolhimento de mulheres que estão juntas tentando vencer o patriarcado. Isso foi pauta até no BBB, lembra? Mas você já ouviu falar em “dororidade”?

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Não é apenas a luta contra o machismo que une as mulheres: quando se trata de mulheres negras, há um sofrimento que é embasado nas opressões de raça. Além de enfrentarem a dor do machismo, ainda há o enfrentamento do racismo. O feminismo branco hegemônico excluiu as mulheres negras. E é para acolher essas mulheres, em um lugar onde a sororidade não as alcança, que surge o conceito de “dororidade”.

O que significa “dororidade”?

O conceito foi cunhado pela professora e escritora Vilma Piedade, que escreveu o livro “Dororidade”, publicado em 2017. “A sororidade parece não dar conta da nossa pretitude. Foi a partir dessa percepção que pensei em outra direção, num novo conceito que, apesar de muito novo, já carrega um fardo antigo, velho, conhecido das mulheres: a Dor – mas, nesse caso, especificamente, a Dor que só pode ser sentida a depender da cor da pele. Quanto mais preta, mais racismo, mais dor”, conta Vilma no livro.”

O conceito de dororidade busca olhar como as ausências, os silenciamentos, os apagamentos e os racismos epistêmicos nos afetam. Quais são as implicações do racismo? Qual é a cor dessa dor? Essa dor, ela é preta

Danila de Jesus
Pesquisadora da UFBA

Parte do diagnóstico, da dor, mas não para aí, o conceito convoca ao enfrentamento das violências herdadas pela colonização: o não lugar, a não escuta, a invisibilidade das mulheres negras. É o que explica Danila de Jesus, doutoranda, mestre e pesquisadora no NEIM-UFBA (Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher da Universidade Federal da Bahia).

E isso se reflete na prática das mulheres negras na resistência do machismo e do racismo e na busca do bem viver. Sempre que uma mulher negra acolhe a outra, isso é dororidade. São exemplos iniciativas de mulheres negras que visam dar suporte e apoio a outras mulheres negras. O Indique uma Preta, por exemplo, faz isso conectando pessoas negras ao mercado de trabalho. Já o AfroGrafiteiras é um projeto de formação em arte urbana que foca na expressão e promoção do protagonismo de mulheres afro-brasileiras. São projetos tocados por mulheres negras para promover os direitos de todas elas.

Por que a dororidade é importante?

“O conceito de dororidade busca olhar como as ausências, os silenciamentos, os apagamentos e os racismos epistêmicos nos afetam. Quais são as implicações do racismo? Qual é a cor dessa dor? Essa dor, ela é preta”, afirma Danila, em entrevista à Revista AzMina.

Ao encontrar um ponto em comum – a mulher negra -, o conceito de dororidade aprofunda o diálogo do feminismo com o movimento negro. Assim, ele se encontra também com o feminismo interseccional, que cruza as opressões e mostra que as mulheres pretas são as mais afetadas pelos processos de racismo, machismo e opressões de classe. Como explica a filósofa e professora norte-americana Angela Davis, “quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela, porque tudo é desestabilizado a partir da base da pirâmide social onde elas se encontram”.

Mas o feminismo incorporado no Brasil foi, por muito tempo, branco – com demandas que atendiam majoritariamente pautas de mulheres brancas, urbanas, de classe média. É por isso que, segundo Danila, a “dororidade” surge para pensar em lutas anti-racistas que o termo sororidade não alcançava.

“Um dos problemas do pensamento feminista foi perceber o movimento como um projeto único, moldado para a mulher branca, ocidental, de classe média, instruída. Uma visão mais relativista de feminismo é incorporada em 1980, em que o movimento começa a pensar em questões relativas aos diferentes tipos de mulher, considerando aspectos culturais, sociais e, principalmente, étnicos”, explica Vilma no livro.

Mas qual a diferença entre “dororidade” e “sororidade”?

O termo “sororidade” vem do latim “sorór”, que significa “irmãs”. Não se conhece a criadora do termo, mas ele surge no contexto da Revolução Francesa (1789-1799). Lembra do lema “Liberté, Egalité, Fraternité”? Então, para as mulheres que lutavam pelos seus direitos, na época, a palavra de ordem era “Sororité”.

É a solidariedade e empatia entre as mulheres. Na prática, ela remete à união de mulheres, que se protegem, se escutam sem julgamentos, se apoiam. Mas ignorar a interseccionalidade, ou seja, como raça e classe, além de gênero, atravessam as mulheres ou como elas experienciam a vida em sociedade, é quase como uma sororidade seletiva.

Apesar de diferentes, esses conceitos não se anulam. Em uma de suas falas, Vilma Piedade diz que a dororidade vem para dialogar com a sororidade e não anulá-la. É também uma provocação: o movimento feminista precisa olhar para a luta antirracista.

Por que falamos pouco de “dororidade”?

Além de ser recente, esse não é um conceito que surgiu na Europa ou nos Estados Unidos, que costumam estar no centro das discussões da cultura ocidental. Segundo Danila, por conta disso ainda é algo pouco debatido. A autora Vilma Piedade, inclusive, usa do “pretoguês” da socióloga e ativista antirracista Lélia Gonzalez, que reivindica a marca da africanização no português falado no Brasil, para construir o conceito de dororidade – subvertendo a lógica eurocentrada.

Para a pesquisadora da UFBA, é importante ampliar o uso do termo a partir do letramento racial e da consciência sobre raças em ambientes como o da educação. É possível fazer isso, por exemplo, no cumprimento da Lei 10.639, que obriga o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana nas escolas, inserindo no currículo o conceito para que seja discutido em ambientes formativos.

*Glória Maria, cofundadora da Batalha do Paraisópolis, é jornalista com foco no território e produtora audiovisual

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