Mais 15 milhões de casos de violência doméstica

Cartazes colocados por ativistas feministas em Paris com preocupação mundial: “França no confinamento: +30% de denúncias de violência conjugal” (Foto: Marie Magnin/ Hans Lucas/AFP)

Agência da ONU também prevê 1 milhão de casos de gravidez indesejada com lockdown e outras medidas restritivas contra a pandemia

Por José Eduardo Mendonça | ODS 16ODS 5 • Publicada em 25 de maio de 2020 - 09:19 • Atualizada em 26 de maio de 2020 - 10:05

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Cartazes colocados por ativistas feministas em Paris com preocupação mundial: “França no confinamento: +30% de denúncias de violência conjugal” (Foto: Marie Magnin/ Hans Lucas/AFP)

A ordem de não circulação de pessoas por conta do coronavírus pode produzir um aumento de 20% na violência doméstica, já que as mulheres permanecem em casa com seus agressores, de acordo com a ONU. Cada três meses de lockdown resultariam em 15 milhões de casos de abuso doméstico a mais do que seria normalmente esperado. As projeções ressaltam o que a ONU qualificou como uma “pandemia oculta”.  Ao mesmo tempo, os lockdowns estão tornando muito mais difícil que serviços sociais e humanitários cheguem às mulheres isoladas em casa.

Além disso, dezenas de milhões delas podem não conseguir acessar anticoncepcionais e mais meninas serão forçadas a se casarem ou se submeterem à mutilação genital como resultado da pandemia. “Estes novos dados mostram o impacto catastrófico que a Covid-19 poderá logo ter sobre mulheres e garotas globalmente”, disse Natalia Klein, do Fundo de População da agência. “A pandemia está aprofundando desigualdades e milhões delas estão perdendo a capacidade de planejar suas famílias e proteger seus corpos e sua saúde”.

Os pesquisadores previram que 44 milhões de mulheres em 114 países de baixa e média renda perderão acesso à contracepção, levando a 1 milhão de casos de gravidez indesejada caso o lockdown se estenda por três meses e cause mais disrupção nos serviços. Este número pode subir para 7 milhões se as restrições continuarem por seis meses, de acordo com estudo feito pela Universidades John Hopkins, dos Estados Unidos, e Victoria, da Austrália, e pela organização global de saúde Avenir Health. 

“São cenários muito realistas” disse Ramiz  Alakbarov, vice-diretor do Fundo.  “O que queremos dizer é: por favor não deixem de priorizar os serviços de saúde reprodutiva e planejamento familiar. Para as mulheres, esta é uma crise dentro da crise”, acrescentou. Alakbarov lembra que estes serviços podem sofrer com os esforços para combater o coronavírus. As mulheres também estão também evitando visitar clínicas com medo da infecção e por restrições ao movimento.

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Com a disrupção de cadeias de fornecimento pelo coronavírus, muitos tipos de anticoncepcionais terão seus estoques esgotados em seis meses em mais de uma dúzia de países mais pobres. Pesquisadores afirmam ainda que acontecerão 13 milhões a mais de casamentos de crianças. Isso seria mais um efeito da recessão.

De acordo com a ONU, “não há uma única sociedade onde conseguimos a igualdade entre homens e mulheres, e assim a pandemia acontece em meio a estas desigualdades, e as exacerbam”. No momento, as mulheres representam 70% da força global de trabalho.

Em muitos países, mulheres estão tendo que usar códigos para pedir ajuda em farmácias. “Sabemos que normalmente as janelas de oportunidade para que mulheres com parceiros abusivos de pedir ajuda é muito limitada”, diz Sandra Horley, diretora-executiva da Refuge, ONG britânica de apoio a vítimas de violência doméstica. “Esta janela ficou agora mais estreita”.

José Eduardo Mendonça

É jornalista, com passagens por publicações como Exame, Gazeta Mercantil, Folha de São Paulo, e criador da revista Bizz e do suplemento Folha Informática. Vem nos últimos anos se dedicando aos temas ligados à sustentabilidade e foi pioneiro ao fazer, para o Jornal da Tarde, em 1976, uma série de matérias sobre energia limpa.

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