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Universidade da Correria: como eliminar seu chefe

Curso criado por Anderson França forma empreendedores em territórios populares


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Na parede, pintada por Anderson e Suelen, a palavra-chave escrita em giz: acredite (Foto Valquiria Daher)

Ambulante por sete anos, Anderson França vendeu revista, comida, camisa… “Tudo o que você imaginar”, lembra ele, sentado sobre um tatame de pallet, numa das salas da sede nova da Universidade da Correria (UC), no Galpão da Cidadania, na renovada região portuária do Rio. Dos tempos de camelô para cá, a vida desse carioca de Madureira deu muitas voltas, mas foi lá, naquele passado de dureza, correria mesmo pelo pão nosso de cada dia, que começou a história dessa universidade, que não forma doutor ou bacharel, mas, sim, dá o caminho das pedras para quem não quer mais ter chefe, decidiu ser dono do próprio nariz, ou seja, se tornar empreendedor.

“Perdi o emprego que era associado à faculdade, perdi tudo, tive que me virar, vender coisas na rua para pagar a minha comida, porque eu morava de favor em Vila Aliança. Naquele momento, não sabia que aquilo ia me dar norte para eu fazer as coisas que faço hoje. Foi uma escola importante”, lembra Anderson.

Criamos um laboratório de ensino, mas, na época, 2011, não tinha patrocínio. Resolvi vender alguma coisa. Fui à favela do Acari, comprei 200 camisetas e sai vendendo até ter dinheiro para formar a primeira e a segunda turmas na Maré.

Anderson França
Escritor e empreendedor

Com 58 mil seguidores em sua página no Facebook e um livro – “Rio em Shamas” – lançado este mês pela editora Objetiva, Anderson é o que muita gente almeja ser nesse início de século XXI, um influenciador digital. O dom de viralizar informação – o Santo Graal da comunicação contemporânea – ajuda a UC, mas não é o mais importante para os números que o curso já apresenta, acredita Anderson. Desde 2013, quando foi criada na Favela da Maré, 4 mil alunos – principalmente de baixa renda – já passaram pela universidade, 10 mil pessoas foram alcançadas por palestras, 200 negócios foram criados e R$ 180 mil em recursos captados para os empreendedores.

Um pouco dessa história, Anderson, conhecido como Dinho, vai contar nesta sexta (18/11) na segunda edição do Menos30 Fest, festival de empreendedorismo e inovação promovido pela TV Globo em São Paulo, na Escola Britânica de Artes Criativas. A proposta é falar das oportunidades e tendências para negócios inovadores, mas também desenvolver uma atividade criativa com o público. Tudo a ver com a proposta da Universidade da Correria, que, no entanto, tem uma metodologia própria para incentivar um empreendedorismo de impacto social em territórios populares.

Suelen e Anderson na nova sede da Universidade da Correria
Suelen e Anderson na nova sede da Universidade da Correria

Essa ponte de Anderson com grandes empresas começou a ser construída quando ele fundou a Dharma ACV, agência de comunicação no Complexo da Maré, que realizou, por exemplo, o primeiro TED X numa favela, com convidados como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Dali nasceram vários negócios criativos, e Anderson começou a orientar, informalmente, gente que também queria empreender.

“Depois, criamos um laboratório de ensino, mas, na época, 2011, não tinha patrocínio. Resolvi vender alguma coisa. Fui à favela do Acari, comprei 200 camisetas e fui vendendo até ter dinheiro para formar a primeira e a segunda turmas na Maré. Em 2014, a Google patrocinou um evento, depois vieram Fundação Telefônica, Brazil Foundation, Sesi, Sebrae… E escrevemos nossa metodologia de ensino, em oito etapas”, detalha Anderson, pouco antes de iniciar uma das aulas de sábado na UC, em que os alunos desenham seus modelos de negócio em uma… camiseta, sempre ela. “Foi onde tudo começou”, explica ele.

Na aula, alunos escrevem valores de seus negócios em uma camiseta
Na aula, alunos escrevem valores de seus negócios em uma camiseta

Outro recomeço para Anderson partiu de um post em seu perfil no Facebook que se tornou sucesso instantâneo: “O dia que fui ao Olympe”. Mulher dele, Suelen Masiero relembra a história: “Dinho se priva muito das coisas, acha que não deveria ter acesso a certas experiências. Quando ele fez 40 anos, programei algo que ele não quis fazer, e então decidi ir ao Olympe, ele nem sabia o que era. Na época eu estava me formando em Gastronomia”, lembra ela. “Chegamos em casa, ele escreveu sobre a noite e, quando acordamos no dia seguinte, o post tinha 10 mil likes e não sei quantos compartilhamentos”. Depois disso, Su convenceu o marido a não mais escrever somente no perfil pessoal e a criar uma página, que fala de Zona Norte, trabalho, entretenimento, da vida deles e também de política. Os posts têm sempre milhares de curtidas e compartilhamentos, mas, por vezes, causam polêmicas como as críticas à esquerda feitas durante as eleições para prefeito.

Não vamos aceitar dinheiro da prefeitura para deixar claro o nosso posicionamento em relação ao Crivella. Não tem como colaborar com um governo que tem um projeto de poder que a gente não aceita

Anderson França
Escritor e empreendedor

“O período eleitoral foi polêmico, a gente só fez uma narrativa, querendo que a cidade se posicionasse, refletisse sobre o que vai acontecer nos próximos quatro anos. (Marcelo) Freixo depois fez uma autocrítica. Mas o importante é que quem está construindo a cidade não depende das eleições, a política não é o único meio, aqui (na Universidade da Correria) estamos construindo a cidade”, diz Anderson, oposição desde já ao governo de Marcelo Crivella. “Não vamos aceitar dinheiro da prefeitura para deixar claro o nosso posicionamento em relação ao Crivella. Não tem como colaborar com um governo que tem um projeto de poder que a gente não aceita”, explica.

E essa “construção da cidade” passa necessariamente pela mulher, na opinião de Dinho e Su. A nova turma da Universidade da Correria é quase toda do sexo feminino. Foram 700 inscrições para 60 vagas – o curso custa R$ 600, mas há alunos patrocinados por pessoas físicas e jurídicas. Para fazer a seleção, de cara foram cortados os homens, depois foi avaliado o impacto social de cada projeto. “A mulher empreendedora causa mais impacto na sua família do que o homem. A mulher traz muito mais riqueza ao seu redor, não só de dinheiro, mas de conhecimento, do que o homem. Ela compartilha muito mais talento do que um homem, ela é mais da comunidade e se dedica mais a ajudar o outro, enxerga mais o todo. Com seu próprio negócio, ela vai ter mais tempo para ela, vai fortalecer mais a comunidade, mas o negócio tem que ter propósito, não é para fazer o primeiro milhão”, detalha Suelen.

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Thais, mãe de dois filhos, quer criar uma casa voltada para a saúde feminina

Esta turma feminina é a primeira da UC no Galpão da Cidadania. O curso ganhou esse espaço da Ação da Cidadania Contra a Fome há pouco. Antes, Suelen e Anderson davam aulas na casa deles, no Cachambi. “Nunca quisemos uma sala de aula com carteira, mas nossa casa não comportava mais. E não temos como pagar uma casa maior. Aqui o público se diversifica, tem mais estrutura, o que pode ajudar a ampliar os negócios deles”, conta Suelen.

Além de ter criado uma rede de investidores, a Universidade da Correria já tem também uma loja, a UC Store, no Shopping Nova América, que comercializa os produtos dos alunos. Tanto Anderson como Suelen dão expediente lá, assim como no negócio próprio, A Pequena Cozinha, misto de catering e delivery de boa comida para a Zona Norte.  “Quando dá, paro para escrever, o texto não é uma reflexão antropológica, mas já tem quem entenda a forma como a gente se coloca. No dia a dia, é trabalhar na cozinha, na Universidade da Correria, na loja do Nova América. Boa parte do trabalho é muito braçal, tenho sempre uma pilha de louça pra lavar, jogo lixo fora, trabalho pra caramba”, conta Dinho, que, dentro disso tudo, encaixa tempo para escrever um roteiro e já vendeu argumentos para as produtoras Conspiração e TV Zero.

Dinho: lança livro e cuida de A pequena cozinha (Reprodução do Facebook)
Dinho: lança livro e cuida de A pequena cozinha (Reprodução do Facebook)

Na correria também estão as alunas da UC. Entre os negócios da nova turma, há uma imobiliária na internet para imóveis na favela, uma empresa de comida colombiana, um aplicativo para conectar pessoas que querem trocar serviços e uma casa voltada para a saúde das mulheres.

“Vai ser sobre maternidade, acolhimento, saúde e bem-estar. O território popular carece disso”, diz Thais Ferreira, de 28 anos, mãe de dois filhos – um deles, um bebê, que estava na creche improvisada na UC e comandada por Su para colaborar com as mães.

O desejo de mudança faz todo mundo se esforçar, se virar. Lilia Saigg, cujo negócio é uma loja virtual de artigos religiosos e esotéricos, resume a razão:

“Vou fazer 40 anos e estou há muito tempo debaixo da bota de alguém, contribuindo todo dia para que alguém ficasse mais rico, e eu ficasse mais pobre, mais humilhada, mais assediada, mais insignificante. Chega um ponto em que a gente tem que acreditar. Quando a gente encontra um grupo que diz a mulher pode, a mulher vai e, quando chegar lá em cima, ninguém mais tira. Eu quero chegar, e ninguém vai me tirar de lá.”


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