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Universitários criam serviço de reparos com mão-de-obra feminina

Estudantes da UFPA criam plataforma digital para facilitar contratação de mulheres para obras em casa


Alessandra da Luz faz serviços de pintura, hidráulica e de reparos: treinamento no Senai antes do projeto da UFPA (Foto: MInerva/Divulgação)
Alessandra da Luz faz serviços de pintura, hidráulica e de reparos: treinamento no Senai antes do projeto da UFPA (Foto: MInerva/Divulgação)

Uma plataforma digital criada por estudantes da Universidade Federal do Pará (UFPA) facilita o encontro entre a oferta e a demanda por serviços de construção civil, em Belém, há três meses. A peculiaridade é que a “Minerva – Construindo Juntas” faz a ponte somente entre contratadas e contratantes mulheres. A intenção da iniciativa é aplicar práticas de empoderamento feminino, de geração de renda para grupos em situação de vulnerabilidade e de igualdade de gênero.

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A ideia de juntar mulheres com dificuldades em serem absorvidas pelo mercado de construção civil àquelas que se sentem inseguras em contratar homens para serviços de reparos domésticos surgiu em 2017, durante o Desafio Inove+, competição de empreendedorismo universitário do Pará. Conquistaram o terceiro lugar. Inicialmente, a proposta era desenvolver um aplicativo, mas mudaram para a plataforma digital. O projeto começou a ser efetivamente posto em prática em setembro de 2018. Desde abril deste ano, está em funcionamento a versão beta da plataforma, um MPV (mínimo produto viável), https://minervareparos.com/.

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Participam atualmente da Minerva oito alunos de engenharia da computação, civil, elétrica, ciências da computação, administração, arquitetura e urbanismo e publicidade e propaganda, que integram o time Enactus – organização internacional que apoia universitários interessados em usar o empreendedorismo como ferramenta para o desenvolvimento social – da UFPA. Este ano, o projeto foi selecionado entre as 10 melhores iniciativas empreendedoras do País na competição Renault Experience.  

Capacitação para as minervas

Gerente de vendas da plataforma, Gabriela Maciel Monteiro, 21 anos, estudante de engenharia civil, contou que o primeiro contato com as mulheres prestadoras de serviço para que participassem da Minerva foi feito por meio do Senai. De um grupo de 65 alunos de cursos referentes à construção civil, apenas cinco eram mulheres. “E duas delas se tornaram minervas, ou seja, participantes efetivas do projeto”. O nome do projeto é inspirado na deusa romana das artes, do comércio e da sabedoria. 

A Minerva é uma ferramenta que insere as mulheres numa área de atuação ainda predominantemente masculina,  promovendo portanto o empoderamento feminino. Mostrando a nós que lugar de uma mulher pode ser onde ela quiser

Mirna Massih
Cliente da Minerva

As prestadoras de serviço recebem capacitações de acordo com as problemáticas que surgem na plataforma. A primeira, sobre formulação orçamentária, foi feita por um dos universitários. As seguintes foram com uma engenheira civil. As capacitações vão continuar ocorrendo conforme necessidade, também como forma de dar algumas referências femininas da área às minervas. Para oferecer as oficinas, o projeto conta com o apoio de parceiros, como empresas da área da construção e empreiteiras. 

Nestes primeiros três meses da Minerva, cinco serviços foram realizados. Três mulheres integram a iniciativa até o momento. Outras quatro estão em fase de treinamento e testes para se tornarem minervas. Alessandra do Socorro Costa da Luz, 30 anos, é uma das três pioneiras. Ela contou que ainda não tem uma especialidade. “Fazemos de tudo. Pintura, hidráulica etc, de acordo com os cursos oferecidos pelo Senai que fiz”. 

Antes da Minerva, Alessandra só havia feito serviços na própria casa. “O projeto me deu essa oportunidade de desenvolver meus conhecimentos”. Ela aprendeu vendo e ajudando o pai e o marido, mas o curso deu mais segurança. “Tive a oportunidade de ter mais uma garantia de experiência e me considerar uma profissional. Quis aprender também porque muitas vezes você contrata uma pessoa para fazer um serviço e não sai do jeito que você quer. Então, resolvi aprender para tentar fazer o melhor possível”. 

O espanto dos homens com as habilidades de Alessandra continua grande. “Ainda não acreditam que as mulheres são capazes de fazer o mesmo serviço que eles fazem”. Já se deparou também com a desconfiança em sua capacidade: “As pessoas nos chamam, mas as vezes notamos uma desconfiançazinha. Um ‘será que ela vai dar conta mesmo?’”.  Segundo ela, com a divulgação da Minerva, agora está conseguindo mais trabalho.

 Clientes satisfeitas

Para Mirna Massih, uma das primeiras clientes, que contratou o serviço ainda antes do funcionamento da plataforma, usando o WhatsApp, a profissional que a atendeu realizou o trabalho muito bem. Ele teve duas motivações para contratar o serviço. “A Minerva é uma ferramenta que insere as mulheres numa área de atuação ainda predominantemente masculina,  promovendo portanto o empoderamento feminino. Mostrando a nós que lugar de uma mulher pode ser onde ela quiser”, afirmou. “A segunda já foi relacionada ao sentimento de segurança que poderia ser proporcionado”.    

Outra cliente, Najla Mattar, elogiou a plataforma e a prestadora, mas também fez críticas, “A plataforma é de acesso rápido e simples, instrutiva e fornece um overview completo sobre a proposta do negócio. Em relação ao serviço, a prestadora foi muito solícita e comprometida, mas senti falta de um cuidado especial no que tange ao acabamento da pintura e o cuidado para não sujar os móveis fixos”,  disse. “Mas, no geral, estou satisfeita e voltaria a contratar um serviço da Minerva. Busco dar oportunidade para as empresas iniciantes que se baseiam em ideais que coadunam com os meus”. 

A equipe de programadores graduandos em engenharia da computação foi a responsável por desenvolver a plataforma. Houve gastos com o registro do domínio e hospedagem da plataforma, cobertos por um percentual da receita obtida sobre cada serviço. 

O poder da sororidade

Em sua página no Facebook, o grupo responsável pela Minerva publicou recentemente um “textão” para explicar o motivo pelo qual homens não estão entre os contratados e contratantes. “Como queremos construir uma sociedade mais inclusiva se estamos excluindo os homens do processo? Acreditamos que tais questionamentos são plausíveis e dignos de discussão. Porém, o nosso objetivo com o projeto surgiu após diversas considerações”. 

Parte da equipe que integra a Minerva - Construindo Juntas: alunos de engenharia da computação, civil, elétrica, ciências da computação, administração, arquitetura e urbanismo e publicidade e propaganda (Foto: Minerva/Divulgação)
Parte da equipe que integra a Minerva – Construindo Juntas: alunos de engenharia da computação, civil, elétrica, ciências da computação, administração, arquitetura e urbanismo e publicidade e propaganda (Foto: Minerva/Divulgação)

No post, os estudantes citam dados atribuídos ao Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) que informam que, na área da construção civil como um todo, há 1.2 milhão de profissionais do sexo masculino e 209 mil mulheres. Afirmam ainda que as mulheres, ao tentar ingressar no ramo, enfrentam desafios na comercialização de seus serviços e recebem, em média, 30% menos que os homens.

“Acreditamos no poder da sororidade. Talvez você não saiba do que se trata, mas provavelmente já passou por um momento de sororidade. É o laço entre mulheres que têm um mesmo objetivo, é a irmandade. Porque, independentemente do nível de conhecimento sobre o assunto, sempre há uma unanimidade: todas já passaram por alguma situação desagradável, simplesmente por serem mulheres”,  destaca o texto

Homens no projeto

Mas do time que toca o projeto, homens participam. Um deles, o estudante de ciências da computação Ronan Firmino da Silva está muito empolgado. “Há nove meses, minha vida virou de cabeça para baixo. Positivamente. Não imaginava que fosse aprender o que estou aprendendo, primeiramente, em nove meses, e na universidade. Porque, para mim, a universidade seguia um padrão: ir para aula, sentar, prestar atenção no professor, anotar, ir para o laboratório, revisar em casa e, pronto, aprendeu”. 

Ronan explicou que participar de um projeto de extensão mudou todo seu conceito sobre como a universidade poderia contribuir para o seu desenvolvimento profissional e como poderia criar iniciativas “tão inovadoras” como a Minerva. Unir um projeto social, ação de empreendedorismo, um aprendizado multidisciplinar e colocar em prática a teoria da sua área tem sido um estímulo para o estudante, que, além da faculdade, faz estágio. 

Do time de Gabriela e Ronan também fazem parte Lucas Cardoso Rodrigues e Adriano Medeiros Pinheiro, de engenharia da computação; Glenda Maria Chaves de Araújo, de publicidade e propaganda; Carla Verena da Costa Santos, de administração; Tainá de Jesus Rodrigues da Veiga; de arquitetura e urbanismo; e Lucas Martins Pinto, de engenharia elétrica.  

Competência científica e tecnológica

Aluna  do curso de engenharia civil, Gabriela considera a universidade pública fundamental para desenvolvimento do país. “Elas são as grandes responsáveis pela produção científica brasileira. De 2011 a 2016, das 20 instituições brasileiras com as maiores produções científicas, 15 eram universidades federais e cinco, estaduais”, destacou. “Além disso, os 50 hospitais universitários federais que integram a rede do sistema público de saúde brasileira são responsáveis por realizarem exames, consultas, internações, cirurgias e transplantes de forma gratuita para a população. Assim como as clínicas odontológicas e psicológicas e outros serviços paralelos como o serviço jurídico são ofertados gratuitamente”. 

Para a gerente de vendas da Minerva, o país não vai construir um novo cenário de desenvolvimento econômico e social se perder a competência científica e tecnológica que as universidades públicas representam. Gabriela teme os cortes nas verbas das universidades federais anunciados pelo governo federal. “Somente a UFPA possui 12 campis, 200 cursos de graduação e 135 cursos de mestrado e doutorado. Com a efetivação do corte de verbas, terão que ser cortadas despesas de custeio, direcionadas para os serviços de manutenção das instituições, e de capital, destinada a investimentos, afetando diretamente os auxílios ofertados para projetos, pesquisa e extensão”.

50/100 A série #100diasdebalbúrdiafederal pretende mostrar, durante esse período, a importância das instituições federais e de sua produção acadêmica para o desenvolvimento do Brasil

 


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