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Particular, ela é particular

Aos 78 anos, Martinho da Vila estuda Relações Internacionais de olho na África


Martinho da Vila durante um show em São Paulo no início do ano. O cantor e compositor deve terminar a faculdade aos 80 anos
Martinho da Vila durante um show em São Paulo no início do ano. O cantor e compositor deve terminar a faculdade aos 80 anos

Filho de lavradores, nascido em Duas Barras, no interior do Rio, criado na Serra dos Pretos-Forros, na zona norte da capital, Martinho José Ferreira é um carioca que sempre namorou a música. Mas a infância e a juventude marcadas por dificuldades obrigaram-no a seguir outros caminhos. Curioso e determinado desde sempre, concluiu no Senai o curso de auxiliar de químico industrial e trabalhou no ramo. Depois alistou-se no Exército, chegando a sargento. Ali desempenhou funções burocráticas

Dizem que sou um burguês muito privilegiado
Mas burgueses são vocês
Eu não passo de um pobre-coitado
E quem quiser ser como eu,
Vai ter é que penar um bocado
Um bom bocado, vai penar um bom bocado

Martinho da Vila
Música 'O Pequeno Burguês', 1969

Até 1967 jamais pensara em ser cantor, mas já abraçara a profissão de compositor. Naquele ano inscreveu a música Menina Moça no Festival da Record. Escalado para cantar, Jamelão não pôde comparecer e Martinho não recusou o desafio. Assim nasceu o Martinho da Vila cantor.

No festival de 1968 lançou um samba que se tornou histórico: Casa de Bamba. E em 1969 lançou seu primeiro disco, com outro sucesso arrasador: O Pequeno Burguês. Cantado, batucado, assoviado, virou o hino dos estudantes pobres que sonhavam com o ensino superior e dos de classe média, também em busca das universidades públicas. Eram os excedentes que, apesar de aprovados no vestibular, ficavam de fora por falta de vagas. No mês que vem, Martinho lança seu “46º ou 48º disco, perdi a conta”. E retorna, também em agosto, ao banco escolar.

Por ironia do destino, o banco é de Relações Internacionais, na unidade Barra da Tijuca da Estácio, uma faculdade particular na Zona Oeste do Rio. Ali ele dará início, quatro vezes por semana, ao quarto período ou semestre. Como a graduação exige oito períodos, Martinho, 78 anos, deve se formar aos 80.

“Meu interesse pelo assunto é meramente teórico porque na prática venho desempenhando formal e informalmente funções diplomáticas”, explica o artista. Foi ele um dos responsáveis por incluir o Brasil no mapa cultural da África e organizou o caminho de volta, trazendo artistas do continente, especialmente de Moçambique e Angola, para apresentações no Brasil.

A primeira excursão a Angola foi em 1970, cinco anos antes da independência. O país era uma colônia portuguesa. Solidário à luta do MPLA (Movimento Pela Libertação de Angola), Martinho fez contatos e amigos nas primeiras excursões ao continente. Vitoriosa a luta pela independência, ajudou as autoridades a abrir portas no Brasil no período anterior à instalação da Embaixada de Angola em Brasília. Por isso foi nomeado Embaixador Cultural Honorário.

Martinho também é Embaixador da Boa Vontade da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Está adorando a vida universitária, é farto no elogio aos professores, mas uma lembrança é inevitável. Não do sambista, mas deste repórter. Em O Pequeno Burguês, o samba do primeiro LP, ele cantou e encantou assim:

“Felicidade, passei no vestibular
Mas a faculdade é particular
Particular, ela é particular
Particular, ela é particular

Livros tão caros tantas taxas pra pagar
Meu dinheiro muito raro,
Alguém teve que emprestar
O meu dinheiro, alguém teve que emprestar
O meu dinheiro, alguém teve que emprestar

Morei no subúrbio, andei de trem atrasado
Do trabalho ia pra aula, sem
Jantar e bem cansado
Mas lá em casa à meia-noite tinha
Sempre a me esperar
Um punhado de problemas e criança pra criar
Para criar, só criança pra criar
Para criar, só criança pra criar

Mas felizmente eu consegui me formar
Mas da minha formatura, não cheguei participar
Faltou dinheiro pra beca e também pro meu anel
Nem o diretor careca entregou o meu papel
O meu papel, meu canudo de papel
O meu papel, meu canudo de papel

E depois de tantos anos,
Só decepções, desenganos
Dizem que sou um burguês muito privilegiado
Mas burgueses são vocês
Eu não passo de um pobre-coitado
E quem quiser ser como eu,
Vai ter é que penar um bocado
Um bom bocado, vai penar um bom bocado,”

Quase meio século depois, 47 anos para ser preciso, lá está Martinho da Vila. Matriculado na faculdade, mas a faculdade é particular. A essa altura da vida e da carreira pagar pelo curso não é mais problema. Ele nem sabe quanto custa porque sua equipe de colaboradores tem a responsabilidade de efetuar o pagamento de  suas contas pessoais. O #Colabora, no entanto, apurou junto à Estácio o valor da mensalidade: R$ 998,08.

De bem com a vida

Certeira na descoberta de novos valores da música brasileira como Gilberto Gil, Milton Nascimento, Ivan Lins e João Bosco, entre tantos outros, Elis Regina errou em relação a Martinho da Vila. Errou feio. Desprezou a obra do iniciante e ainda arriscou uma previsão que jamais se confirmou. Em entrevista ao Pasquim disse tratar-se de um sucesso passageiro que em breve cairia no esquecimento.

Os brasileiros, no entanto, jamais se esqueceram dele. Reza o Google que Martinho foi o segundo sambista brasileiro a ultrapassar a marca de um milhão de discos vendidos, perdendo para Agepê, que bateu em um milhão e meio.

Seja como auxiliar de químico industrial, sargento do Exército, escritor, cantor ou compositor, ele nunca parou de suar a camisa. No dia 23 de agosto lançará, no Trapiche-Gamboa,  o CD “De Bem Com A Vida”. Todas as músicas são suas, sendo que metade são inéditas. Algumas foram gravadas por outros artistas e ele canta pela primeira vez. Há ainda a releitura de Muita Luz, sua parceria com João Donato. Para Martinho da Vila só o nome do novo CD é prova de seu estado de espírito. “De bem com a vida. Sou otimista, positivista. Só os pessimistas não fazem nada.”

O otimismo de Martinho da Vila se estende ao Brasil “apesar do momento confuso, deprimente, sem liderenças e com os três poderes desacreditados”.


Escrito por Celso de Castro Barbosa

É carioca e botafoguense. Quando criança tinha fixação com a profissão de jornalista. Seus pais concordaram com a escolha e foi em frente, principalmente em jornais impressos e TVs. Se arrependimento matasse, Celso, 58 anos, estaria morto. Não por causa do jornalismo, mas pelo que ele se tornou no Brasil.

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