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Inpe sob fogo cerrado do governo

Enquanto o desmatamento na Amazônia bate recorde, o presidente ataca instituição e deixa ciência em pé de guerra


Pesquisadores trabalham com o satélite Amazônia-1 na sede do Inpe, em São José dos Campos: monitoramento permanente do desmatamento da floresta (Foto: Nelson Almeida /AFP)
Pesquisadores trabalham com o satélite Amazônia-1 na sede do Inpe, em São José dos Campos: monitoramento permanente do desmatamento da floresta (Foto: Nelson Almeida /AFP)

No começo de julho, os dados consolidados do sistema Terra Brasilis, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), apontaram que o desmatamento na Amazônia Legal brasileira atingiu 920,4 km² em junho, um aumento de 88% em comparação aos 488,4 km² registrados no mesmo mês no ano passado. Foi o pior mês desde que o sistema de monitoramento de alertas foi criado, em 2015. No total, junho de 2019 teve 2.903 alertas inseridos no Terra Brasilis; 97% do desmatamento foi registrado em quatro estados: Pará, 48,5% do total; Amazonas, 21%; Mato Grosso, 16,7%; e Rondônia, 10,8%. Ambientalistas protestaram contra a escalada da derrubada da floresta, mas o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, garantiu que o Ibama estava agindo para conter o desmatamento – apesar de ter visitado madeireiros acusados de incendiar caminhões do instituto durante operação contra extração ilegal de madeira.

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O clima quente na floresta viajou para Brasília só duas semanas depois quando, na sexta-feira (19), o presidente Jair Bolsonaro, que até então não tinha dado atenção ao desmatamento recorde, foi questionado sobre o assunto em café da manhã com correspondentes estrangeiros. ” Até mandei ver quem é o cara que está à frente do Inpe para vir explicar aqui em Brasília esses dados aí que passaram para a imprensa. No nosso sentimento, isso não condiz com a realidade. Até parece que ele está a serviço de alguma ONG “, afirmou o presidente, que, irritado, ainda deu uma canelada nos convidados. “Nenhum país do mundo tem moral para falar da Amazônia. Vocês destruíram seus ecossistemas”, afirmou Bolsonaro no café da manhã – o mesmo em que disse que não havia fome no Brasil e fez comentários preconceituosos contra governadores nordestinos.

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“O Inpe é orgulho do país, realiza trabalho de excelência e os ataques à sua credibilidade científica atacam também toda a comunidade de pesquisadores do Brasil e a soberania nacional

Luiz Davidovich
Presidente da Academia Brasileira de Ciência

O novo ataque a dados científicos causou balbúrdia e não ficou sem resposta. O diretor do Inpe, Ricardo Galvão, disse que o presidente precisava entender que não pode falar em público, “como se estivesse em uma conversa de botequim”, classificando como “inaceitáveis” os ataques de Bolsonaro.  “Ele tomou uma atitude pusilânime, covarde, talvez esperando que eu peça demissão, mas não vou. Eu espero que ele me chame a Brasília para eu explicar o dado e que ele tenha coragem de repetir, olhando frente a frente, nos meus olhos. Eu sou um senhor de 71 anos, membro da Academia Brasileira de Ciências, não vou aceitar uma ofensa dessas”, disse Galvão, que tem mestrado em Engenharia Elétrica pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e doutorado pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos.

Críticas sem fundamento a uma instituição científica, que atua há cerca de 60 anos e com amplo reconhecimento no país e no exterior, são ofensivas, inaceitáveis e lesivas ao conhecimento científico

Ildeu de Castro Moreira
Presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência

A comunidade científica saiu em defesa do instituto. “O Inpe é orgulho do país, realiza trabalho de excelência e os ataques à sua credibilidade científica atacam também toda a comunidade de pesquisadores do Brasil e a soberania nacional”, afirmou a Academia Brasileira de Ciência, em nota assinada por seu presidente, Luiz Davidovich. “Críticas sem fundamento a uma instituição científica, que atua há cerca de 60 anos e com amplo reconhecimento no país e no exterior, são ofensivas, inaceitáveis e lesivas ao conhecimento científico”, afirmou a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, através de manifestação de seu Conselho Superior, presidido pelo físico Ildeu de Castro Moreira. “Atacar o Inpe sem indicadores concretos caracteriza desconhecimento do trabalho desenvolvido pela instituição e desrespeito à comunidade científica. O Brasil necessita de políticas ambientais eficientes e sem viés ideológico”, escreveu a Unicamp em manifesto.

Padrão de excelência

Em 1961, o governo Jânio Quadros  criou o Grupo de Organização da Comissão Nacional de Atividades Espaciais (GOCNAE) para investir em pesquisas e tecnologia para que o Brasil participasse da corrida espacial — o grupo foi o embrião do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), nome com que foi batizado 10 anos depois quando o uso de satélites já havia sido ampliado para outras pesquisas. Atualmente, além de desenvolvimento de tecnologia e pesquisas na área espacial, o Inpe desenvolve também trabalhos na área de clima, metereologia, geofísica, física da alta atmosfera e oceanografia – além de monitoramentos constantes do desmatamento amazônico. “O Brasil tem o melhor sistema de monitoramento de florestas tropicais do do mundo”, afirma o climatologista brasileiro Carlos Nobre,  integrante do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), da Organização das Nações Unidas (ONU) e que trabalhou por 35 anos no Inpe.

O Inpe utiliza três sistemas para mapear e acompanhar o desmatamento: o Programa de Monitoramento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite (Prodes), o Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter) e o sistema de mapeamento do uso e ocupação da terra após o desmatamento, o TerraClass. Desde 1988, o Prodes realiza o inventário de perda de floresta a partir de imagens geradas por um satélite de observação do planeta. Com essas informações, são calculadas as taxas de desmatamento (entre agosto e julho). O Deter, criado em 2005, é um sistema de apoio à fiscalização e ao controle do desmatamento na Amazônia. O software produz diariamente alertas de alteração na cobertura florestal para áreas maiores do que três hectares. O Ibama recebe esses alertas na mesma hora em que são emitidos.

Visão geral dos laboratórios de pesquisa do Inpe: três sistemas para mapear e acompanhar o desmatamento da Amazônia e também pesquisas especiais, de clima, meteorologia, geofísica, oceanografia (Foto: Nelson Almeida /AFP)
Visão geral dos laboratórios de pesquisa do Inpe: três sistemas para mapear e acompanhar o desmatamento da Amazônia e também pesquisas especiais, de clima, meteorologia, geofísica, oceanografia (Foto: Nelson Almeida /AFP)

O Deter, portanto, é um sistema de alerta – foi esse que foi disparado no começo do mês de julho quando chegaram os dados de junho. De acordo com os especialistas, o sistema indica uma tendência que geralmente é confirmada pelo Prodes, o monitoramento que é mais sofisticado.  O TerraClass é feito a cada dois anos e é uma parceria entre o Inpe e a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária). O objetivo é mapear como as áreas desmatadas apontadas pelo Prodes estão sendo usadas: se para agricultura ou pastagem, por exemplo.

Segundo a assessoria de comunicação do Inpe, a qualidade dos dados sobre desmatamento é monitorada com frequência. “Atualmente, os dados apresentam índice superior a 95% de precisão”.  Todos os dados aferidos pelos sistemas de monitoramento podem ser acessados no site do instituto. “Os dados são acessados pelo Ibama na nossa página na internet. Estão abertos para todo mundo poder verificar. São publicados em revistas científicas internacionais”, explicou o diretor Ricardo Galvão, na mesma entrevista em que disse esperar que Bolsonaro tivesse coragem de chamar para conversar.

Esta conversa não vai acontecer. Depois de voltar a atacar o Inpe afirmando que os dados não poderiam ser divulgados como são – “a gente não pode ser pego com as calças na mão” – Jair Bolsonaro disse que o ministro Marcos Pontes, da Ciência e Tecnologia, falaria com Galvão. Em nota publicada em rede social nesta segunda (22), Pontes afirma que compartilha da estranheza expressa pelo presidente Jair Bolsonaro sobre os dados de desmatamento produzidos pelo Inpe. O ministro quer ver as informações do Inpe – que, aliás, em janeiro, já haviam sido questionados por Salles, do Meio Ambiente. Deve vir mais balbúrdia por aí. O que falta é preocupação com o aumento de 88% no desmatamento da Amazônia Legal.

69/100 A série #100diasdebalbúrdiafederal pretende mostrar, durante esse período, a importância  das instituições federais e de sua produção acadêmica para o desenvolvimento do Brasil


Escrito por Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Está de volta ao Rio após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. É criador da página no Facebook #RioéRua, onde publica crônicas sobre suas andanças pela cidade.

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