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Emergência climática pode dividir Amazônia em duas

Pesquisa prevê floresta fragmentada em 50% do território; espécies de árvores podem perder até 65% de suas áreas de ocupação


Visão aérea do desmatamento na Amazônia, próximo de Oriximiná, no Pará. Foto Raphael Alves/AFP
Visão aérea do desmatamento na Amazônia, próximo de Oriximiná, no Pará: mudanças climáticas provocadas pelo homem podem ter impacto maior na floresta do que a derrubada da mata (Foto Raphael Alves/AFP)

Um artigo publicado na tarde de segunda-feira pela “Nature Climate Change”, da autoria de três pesquisadores brasileiros e um holandês, aponta que as mudanças climáticas induzidas pelo homem podem superar o impacto do desmatamento na perda de espécies de árvores na Amazônia em apenas algumas décadas. Mais grave: a escalada dos gases do efeito estufa e do desmatamento poderá dividir a floresta ao meio em três décadas, com 50% do território restrito a fragmentos de vegetação. Aceito pela revista científica no último dia 3 de maio, o artigo alerta que as espécies de árvores do bioma podem perder de 53% a 65% de suas áreas de ocupação até 2050 em comparação a 2013, dependendo do cenário climático. O estudo considerou a PanAmazônia, envolvendo seus nove países, em cerca de 5,7 milhões de quilômetros quadrados.

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Num cenário representado por aumento constante na taxa de radiação provocada pelo crescimento na emissão de gases de efeito estufa combinado com alto desmatamento, o mais grave portanto, seriam perdidas 49% de todas as espécies de árvores amazônicas conhecidas como ameaçadas de acordo com os critério da União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês). Esse cenário inclui quase todas (96%) as hiperdominantes, ou seja, as 227 espécies que exercem domínios sobre as outras. São espécies dos gêneros Licania, Metrodea, Rinerea, Protium, Brosimum, Hevea, Eperua e Trattinnikia.

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“É a primeira vez que juntamos cenários de perda de espécies com desmatamentos e mudanças climáticas. O pior cenário é muito preocupante porque em fragmentos correm muito mais rosco de fogo, além de prejudicar fluxos gênicos [entre espécies]. São muito suscetíveis”, diz Ima Célia Guimarães Vieira, da coordenação de Botânica do Museu Paraense Emílio Goeldi, de Belém, uma das autoras do estudo. “No Brasil, Pará, Mato Grosso e Rondônia estão em situação mais complicada do que Amazonas, Amapá e Roraima”, diz.

Estou muito preocupada com o projeto de lei de Flávio Bolsonaro que extingue a Reserva Legal. Se isso for aprovado, temos um cenário ainda mais agravado. A solução é proteger mais

Ima Célia Guimarães Vieira
Pesquisadora da Coordenação de Botânica do Museu Emílio Goeldi

O artigo, parte de tese de doutorado de Vitor Gomes, decorre de parceria entre a Universidade Federal do Pará (UFPA), o Museu Goeldi e a Embrapa.  Os estudos de Vitor foram possibilitados pelo programa “Ciência Sem Fonteiras”, pelo qual o pesquisador holandês Hans ter Steege passou seis meses no Pará.

Aumentar áreas protegidas é o caminho

Mesmo a se considerar o cenário mais otimista, no qual o crescimento da radiação atingiria seu pico no meio do século e depois recuaria (chamado de RCP 2.6), haveria perdas de 52,7% das  áreas aptas à ocupação das espécies até 2050 e recuo de 48,4% das espécimes ameaçadas. Ou seja, não há motivos para comemoração. Estamos num trem sem freio, rumo ao descarrilamento?

“O cenário ideal seria aumentar as áreas protegidas. Mas estou muito preocupada com o projeto de lei de Flávio Bolsonaro [senador pelo Rio] que extingue a Reserva Legal. Se isso for aprovado, temos um cenário ainda mais agravado. A solução é proteger mais. O Pará, na Calha Norte, protegeu um grande parte de seus território. As Guianas protegem corredor grande. Um diálogo maior entre os países, numa estratégia comum, é fundamental”, destaca Ima.

O documento ressalta a necessidade de se atingir o desmatamento zero para ajudar a mitigar a crise climática e promover a conservação da biodiversidade. O artigo destaca ainda o importante papel ambiental das florestas tropicais, ao estabilizar CO2 atmosférico, regulando o clima e salvaguardando a biodiversidade. O desmatamento foi baseado no desmatamento histórico com base em 2013. O estudo focou a análise na lista de verificação mais recente de árvores amazônicas de várzea que podem atingir 10 centímetros de diâmetro de caule.

O Brasil ainda sofre com altas taxas de desmatamento e, no futuro, a redução dessa tendência permanece incerta, afirma o paper, que lembra que o desmatamento tem aumentado durante os últimos 5 anos a uma taxa de 7.000 km2 por ano. Além disso, sublinha o artigo, as negociações internacionais sobre a limitação do aquecimento global falharam e as recentes mudanças na lei brasileira podem limitar a pesquisa científica, incluindo o monitoramento de florestas e a perda de biodiversidade.

40/100 A série #100diasdebalbúrdiafederal pretende mostrar, durante esse período, a importância  das instituições federais e de sua produção acadêmica para o desenvolvimento do Brasil


Escrito por Emanuel Alencar

Jornalista formado em 2006 pela Universidade Federal Fluminense (UFF), trabalhou nos jornais O Fluminense, O Dia e O Globo, no qual ficou por oito anos cobrindo temas ligados ao meio ambiente. Atualmente, é editor de Conteúdo do Museu do Amanhã. Tem pós-graduação em Gestão Ambiental e cursa o mestrando em Engenharia Ambiental pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Apaixonado pela profissão, acredita que sempre haverá gente interessada em ouvir boas histórias.

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