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História recuperada: índios brasileiros ganham biografias

Homens e mulheres de várias etnias têm seus perfis registrados em site; projeto do Museu Nacional da UFRJ preenche lacuna de livros que destacam colonizadores como protagonistas


Acampamento Terra Livre, um encontro anual de várias etnias: muitas delas estão no projeto do Museu Nacional (Foto: Bruno Pacheco/divulgação)
Acampamento Terra Livre, um encontro anual de várias etnias: muitas delas estão no projeto do Museu Nacional (Foto: Bruno Pacheco/divulgação)

Doutoranda em Antropologia Social no Museu Nacional da UFRJ, a pesquisadora Daniela Alarcon trabalha, desde 2010, com indígenas tupinambás, no sul da Bahia. Sua pesquisa demanda períodos prolongados em campo, e Daniela já viveu longos períodos por lá. Mas sua estada mais recente, em 2017, rendeu um resultado novo: a biografia de João Ferreira da Silvia, o João de Nô, que foi rezador de uma das aldeias tupinambás. O texto é parte de “Os Brasis e suas memórias”, projeto lançado em abril e que tem um objetivo inédito e desafiador: reunir uma série de biografias de indivíduos indígenas, do século XVI até os dias de hoje.

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Sediada no Museu Nacional, a iniciativa tem origem em um edital da Capes lançado em 2014 para construir biografias da população brasileira. A ideia original era juntar cerca de 20 relatos e publicá-los em livro. Mas a equipe logo viu que isso não seria suficiente e resolveu expandir o projeto com um site. Neste início, já são mais de 80 biografias de índios de 51 etnias diferentes disponíveis em osbrasisesuasmemorias.com.br.

Raramente o índio é protagonista da história. O que o projeto quer é criar um efeito bola de neve, que as pessoas se apercebam do quanto o indígena aparece na história do Brasil

João Pacheco
Professor no Museu Nacional/UFRJ

“Logo no começo decidimos fazer reuniões com os índios, e os primeiros foram os Potiguara, que têm uma antiguidade muito longa no litoral brasileiro. Pedimos que fizessem uma lista dos grandes homens e mulheres que eles tinham. A lista tinha quase 200 nomes. E a partir daí, em toda reunião que fazíamos, as listas eram deste tamanho”, conta João Pacheco, professor titular de Antropologia do Museu Nacional e coordenador do projeto.

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Seu Lírio (Rosemiro Ferreira da Silva), pajé da Serra do Padeiro, com o retrato de seu pai, João de Nô (Foto: Daniela Alarcon/divulgação)
Seu Lírio (Rosemiro Ferreira da Silva), pajé da Serra do Padeiro, com o retrato de seu pai, João de Nô (Foto: Daniela Alarcon/divulgação)

A vez dos primeiros brasileiros

João trabalha há mais de 30 anos com povos indígenas. Durante muitos deles esteve com os índios Ticuna, no Amazonas; depois passou a se dedicar a diversos povos do nordeste, cuja pesquisa deu origem à exposição “Os primeiros brasileiros”. Seu trabalho, conta, tem como grande objetivo a divulgação da imagem do índio, sua história, da cultura indígena. “Raramente o índio é protagonista da história. O que o projeto quer é criar um efeito bola de neve, que as pessoas se apercebam do quanto o indígena aparece na história do Brasil, e não só na história oficial, mas deve aparecer nas histórias das nossas vidas”.

Esse contexto de colonialismo interno se reverte também na construção da memória social, incluindo parte da historiografia, por isso vemos grande destaque para personagens colonizadores, até mesmo ditadores sanguinários seguem sendo homenageados, enquanto indígenas, negros e pobres em geral permanecem nas margens

Thiago Leandro Vieira
Professor Universidade da Grande Dourados

Com uma historiografia majoritariamente eurocêntrica e etnocêntrica, de fato o Brasil não dá aos povos indígenas a importância e o protagonismo devidos. Quem compartilha desta opinião é o historiador Thiago Leandro Vieira Cavalcante, professor da Universidade Federal da Grande Dourados e especialista em história do indigenismo. Para ele, houve avanços mas ainda há muito o que fazer:

“O Brasil deixou de ser colônia portuguesa pelas mãos da aristocracia, não tivemos uma revolução popular pela independência. Nessa lógica, as elites nacionais quase sempre mantiveram seus privilégios à custa da exploração e da dilapidação patrimonial de indígenas e negros e, apesar de estarmos no século XXI, essa lógica não foi rompida. Esse contexto de colonialismo interno se reverte também na construção da memória social, incluindo parte da historiografia, por isso vemos grande destaque para personagens colonizadores, até mesmo ditadores sanguinários seguem sendo homenageados, enquanto indígenas, negros e pobres em geral permanecem nas margens. Somente a partir dos anos 1980 é que antropólogos, arqueólogos e historiadores deixaram de tratar os indígenas como exóticos e a-históricos e passaram a se dedicar à história indígena”.  

Weibe Tapeba, coordenador da Coordenação das Organizações e Povos Indígenas do Ceará/COPICE (Foto: Joceny Pinheiro/divulgação)
Weibe Tapeba, da Coordenação das Organizações e Povos Indígenas do Ceará/COPICE: índios também são autores das biografias (Foto: Joceny Pinheiro/divulgação)

Projeto com 60 colaboradores

Para construir essas biografias, a coordenação do projeto conta com uma rede de 60 colaboradores espalhados por 23 centros de pós-graduação pelo Brasil. É uma rede afetiva, conta João, formada por ex-alunos, amigos, parceiros de pesquisa e militantes que apostam e acreditam na iniciativa. Mas além destes, diversos indígenas também começaram a participar ativamente da criação de biografias. Por meio de oficinas realizadas em diversos estados do Brasil, a equipe do “Os Brasis e suas memórias” tem encontrado parceiros entre os professores das 24 licenciaturas indígenas que existem no país.  Daniela realizou duas oficinas na Bahia no início de maio.

Estamos lidando com memórias, com lembranças que tem relevância para essas comunidades até hoje, isso toca as pessoas de forma muito contundente. Em todas as oficinas com os pesquisadores indígenas, estamos falando de seus avós, bisavós, tios, tias

Daniela Alarcon
Antropóloga

“Tem sido muito interessante porque eles reconhecem que o potencial tanto acadêmico e teórico quando o político é grande. Existe uma empolgação muito grande das pessoas. E em alguns momentos, como estamos lidando com memórias, com lembranças que tem relevância para essas comunidades até hoje, isso toca as pessoas de forma muito contundente. Em todas as oficinas com os pesquisadores indígenas, estamos falando de seus avós, bisavós, tios, tias, parentes também num sentido mais amplo de alianças políticas em pautas indígenas. Então, para além de um projeto acadêmico, ele adquire outro sentido quando se fala nessas redes”, lembra Daniela.

Que os professores usem o site como alimentação para suas aulas, com informações, fotografias, músicas. Que passem a ideia de que o índio foi importante na fundação do Brasil no século XVI, foi importante na formação do país Brasil no século XIX e é importante até hoje

João Pacheco
Professor Museu Nacional/UFRJ

No caso da biografia elaborada por Daniela, as fontes usadas foram primordialmente orais. João de Nô, seu biografado, é pai do atual pajé de uma das aldeias tupinambás, e seu texto reflete como essa figura é lembrada e referida na comunidade. Mas há uma diversidade grande de fontes no grupo de biografias, que vão de documentos a vídeos, de fontes escritas a orais ou iconográficas. Segundo João, a ideia é de fato deixar os pesquisadores livres e preservar a heterogeneidade do material para seus usos futuros. Para ele, os livros devem ter um perfil mais acadêmico, mas o site segue querendo atingir um público maior.

“A gente quer ser uma fonte para professores e alunos de escolas, indígenas ou não. Que os professores usem o site como alimentação para suas aulas, com informações, fotografias, músicas. Que passem a ideia de que o índio foi importante na fundação do Brasil no século XVI, foi importante na formação do país Brasil no século XIX e é importante até hoje”,  defende João, que não vê o fim do projeto no horizonte: “Eu penso que chegar às mil biografias seria um número bacana. A gente pode estar mudando o número de fontes sobre o Brasil com isso. Mas estamos seguindo um ritmo, é um projeto de longa envergadura. Quando terminar o trabalho do edital em si, com os livros, vamos dar continuidade com o site. A ideia é tentar tornar uma coisa que não acabe”.

Conheça algumas biografias

João de Nô, o primeiro rezador da Serra do Padeiro

Bahia, etnia Tupinambá

“Vovô tinha um cacho de cabelo – o cabelo de seu avô era bom e era penteado de banda… Ele tinha um cacho de cabelo aqui, que fazia assim, ó, andava, bulia sozinho, quando ele estava trabalhando [espiritualmente]. E aqui em cima do peito, tinha um negócio… quando você botava a mão, sua mão ia lá longe, jogava sua mão lá, assim.” Dirigindo-se a sua filha, Magnólia Jesus da Silva descreve a imagem que lhe vem à mente quando se lembra do avô, João Ferreira da Silva, conhecido como João de Nô e falecido no início dos anos de 1980. Franzino, sempre trajando camisa de mangas longas abotoada até a gola, às vezes também paletó, ele tratava de tanta gente necessitada, que os ramos de arruda que empunhava diante do altar deixaram-lhe um calo no dedo. Seus poderes religiosos, tremendos, envolviam-no em mistérios, como a mecha de cabelo que se mexia sozinha e a força que lhe vinha de dentro do tórax. Conhecida pelo vigor de sua mobilização política contemporânea, a Serra do Padeiro, uma das aldeias que compõem a Terra Indígena Tupinambá de Olivença (que se estende por porções dos municípios de Buerarema, Ilhéus e Una, no sul da Bahia), tem em João de Nô seu primeiro grande rezador e um de seus troncos velhos, isto é, um dos antepassados proeminentes na memória social do grupo. (autora: Daniela Fernandes Alarcon)

Galdino pataxó e outras histórias indígenas

Bahia, etnia Pataxó Hã hã hãe

O presente artigo tem como objetivo identificar e analisar memórias e histórias envolvendo os conflitos territoriais e políticos do povo Pataxó HãHãHãe, evidenciando as ações do líder Galdino Jesus dos Santos, assassinado em Brasília, em 19 abril de 1997. Sua morte provocou, na sociedade brasileira e especialmente no meio do seu povo, e em todos os povos indígenas do país, um intenso debate acerca dos direitos dos povos indígenas e das sociabilidades e das sensibilidades entre os indivíduos na nossa sociedade.

(…)

Os depoimentos dos entrevistados expressam que ele foi um exemplo de luta pelo direito à terra, estando à frente das mobilizações contra a expulsão do seu povo dos seus territórios tradicionais, nas décadas de 1950 e 1960, sendo que tal processo de expulsão foi brutal, expulsos de suas terras a pauladas, tendo suas casas e roças queimadas por grandes fazendeiros e posseiros de terras daquela localidade. Os relatos orais indicam que para além de ser um guerreiro, Galdino era um exemplo de respeito ao próximo, desempenhando e estimulando constantemente a solidariedade coletiva e a coragem para enfrentar os agressores. (autor: Iglesio de Jesus Silva)

Dona Mundica*

Amazonas, etnia Kambeba

Raimunda nasceu no dia 19 de agosto 1901 na aldeia Kariwazal, que significa na língua kambeba: brancozada. Esse nome os kambebas designavam aos moradores do lugar, porque estes eram considerados pessoas sábias. Hoje, devido a influência da igreja católica, esse lugar é conhecido como Santa Terezinha. Prudencio Ondion, um devoto da santa, foi o responsável pela mudança do nome do local. Prudencio Ondion veio a ser prefeito de São Paulo de Olivença.

Raimunda Ferreira da Silva veio de uma família de agricultores e extrativistas do látex da borracha. Viveu toda sua infância e adolescência no município de São Paulo de Olivença. Aos 15 anos de idade conheceu seu esposo: Eugenio Leon Fermin, que morava num lugar chamado Santa Maria. A família do seu esposo chegou nesse local de volga (um tipo de canoa) da região do Peru e trouxeram consigo algumas famílias de kokamas que lhes ajudaram na viagem a remar até São Paulo de Olivença. (autor: Eronilde de Souza Fermin)

*Dona Mundica, Raimunda Ferreira da Silva (19.08.1901 – 29.06.2002)

 

58/100 A série #100diasdebalbúrdiafederal pretende mostrar, durante esse período, a importância das instituições federais e de sua produção acadêmica para o desenvolvimento do Brasil

 


Escrito por Thaís Britto

Carioca, tradutora e jornalista formada pela Uerj (#resiste), com passagens pelo jornal O Globo e pela editora Record. Fascinada em igual medida por ficção e pela realidade. Cultura, viagens e empatia são provavelmente suas palavras favoritas na vida.

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