UFF desenvolve prótese dentária de baixo custo

Pesquisadores produzem biomaterial já testado, com sucesso, em pessoas totalmente sem dentes

Por Barbara Lopes | ODS 3 • Publicada em 5 de julho de 2019 - 08:00 • Atualizada em 5 de julho de 2019 - 14:57

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Teste em prótese no laboratório da UFF: alta eficiência e baixo custo para pacientes sem dentes no SUS (Divulgação/UFF)
Teste em prótese no laboratório da UFF: alta eficiência e baixo custo para pacientes sem dentes no SUS (Divulgação/UFF)

O sorriso é algo tão natural que não se pensa muito sobre isso até o dia em que ele muda. Perda de dentes pode ser uma situação muito difícil: abala a autoestima e pode alterar a fala. Afeta também a alimentação, pois a mastigação é comprometida. E se adaptar a utilizar próteses móveis também não é simples. As próteses fixas, por outro lado, além de caras, não são indicadas para todos os casos. Com todas essas preocupações, pesquisadores da UFF (Universidade Federal Fluminense) e da CBPF (Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas) desenvolveram uma prótese de alta eficiência e também de baixo custo para facilitar o acesso dos usuários do SUS (Sistema Único de Saúde) ao tratamento.

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Os testes do material foram realizados inicialmente em células no Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia), sob a coordenação do pesquisador José Mauro Granjeiro e, posteriormente na UFF, sob a coordenação do professor Gutemberg Gomes Alves.  Em seguida, foi a vez dos testes em animais, no Laboratório de Experimentação Animal da UFF, com supervisão do professor Rodrigo Resende. Com resultados positivos e seguros, finalmente os testes clínicos (em humanos) foram iniciados. 

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Sob a coordenação da professora Monica Calasans, os testes em humanos tiveram como pré-requisito, que os participantes tivessem total ausência de dentes. “Todos os participantes de pesquisa foram reabilitados proteticamente e o resultado foi muito surpreendente, pois a solução para a ausência dos dentes foi mais importante do ponto de vista estético e de  convívio social do que da própria função mastigatória”, afirma a pesquisadora.

 O apoio para a pesquisa veio por meio do edital Programa para o SUS: Gestão compartilhada em Saúde. “O desenvolvimento da pesquisa só foi possível com o recurso financeiro proveniente do edital. Infelizmente com os cortes que o setor de pesquisa vem sofrendo nesses últimos anos, cada vez mais encontramos dificuldades financeiras para manutenção dos laboratórios e das pesquisas”, lamenta Monica Calasans.

A professora Monica Calasans, coordenadora da pesquisa sobre a prótese dentária: 'Infelizmente com os cortes que o setor de pesquisa vem sofrendo nesses últimos anos, cada vez mais encontramos dificuldades financeiras para manutenção dos laboratórios e das pesquisas' (Foto: Divulgação/UFF)
A professora Monica Calasans, coordenadora da pesquisa sobre a prótese dentária: ‘Infelizmente com os cortes que o setor de pesquisa vem sofrendo nesses últimos anos, cada vez mais encontramos dificuldades financeiras para manutenção dos laboratórios e das pesquisas’ (Foto: Divulgação/UFF)

Os recursos do PP SUS garantiram a ampliação do Laboratório Associado de Pesquisa Clínica em Odontologia (LPCO), o que permitiu que outros equipamentos fossem inseridos, como o EXAKT System Germany, adquirido com recursos da Rede de Bioengenharia do Estado do Rio de Janeiro. “Agora conseguimos analisar amostras de um tecido mineralizado sem a necessidade de realizar a desmineralização do material. Não só as pesquisas da UFF se beneficiaram, mas também pesquisas na UFRJ, CBPF, IME, Inmetro e outras instituições foram beneficiadas com este equipamento”, garante a coordenadora do trabalho.

Segundo Monica Calasans, os próximos passos da pesquisa, já com todos os testes realizados e com o depósito de patente encaminhado, será a transferência da tecnologia deste material para empresa privada e posterior comercialização.

Biomaterial para simular tecido ósseo

O material produzido é uma hidroxiapatita carbonatada nanoestrutura – material complexo utilizado para compostos biológicos, desenvolvido pelo CBPF e UFF, testado pelo Innmetro e pela UFF, sob a coordenação dos professores José Mauro Granjeiro e Monica Calasans. A hidroxiapatita é um fosfato de cálcio mais estável e indissolúvel em condições ambientes, muito usada para o desenvolvimento de materiais bioativos que simulem a composição do tecido ósseo, pois é capaz de induzir o crescimento desse tecido onde for aplicada. Nessa estrutura, é inserido o ácido carbono (deixando-a carbonatada) e, além disso, é nanoestruturada (materiais complexos em escala nanométrica).

Diferente dos materiais desenvolvidos atualmente no mercado nacional e internacional, essa hidroxiapatita carbonatada nanoestrutura é um biomaterial reabsorvível e permanece por longo período dentro da área implantada. Além disso, o formato de esferas, comprovadamente, reduz possíveis inflamações. O biomaterial foi testado com células, animais e humanas e não apresentou nenhum efeito adverso, com isso, até o momento, não apresenta contraindicações. 

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Barbara Lopes

Formada em Letras/Literaturas pela Universidade Federal Fluminense, carioca que não vai à praia, mas vive na floresta e na selva da cidade. Cursando graduação em Jornalismo na UFRJ. Acredita que a leitura e o diálogo transformam o mundo.

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