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Reitora eleita da UFRJ paga pesquisa do próprio bolso

Como outros cientistas de instituições federais, Denise Pires de Carvalho é obrigada a custear gastos do seu laboratório


Estudante da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) trabalha no laboratório de biologia. Foto Mauro Pimentel/AFP
Estudante da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) trabalha no laboratório de biologia. Foto Mauro Pimentel/AFP

“Não podem economizar nem uma migalha?”

A pergunta foi feita pelo ministro da Educação, Abraham Weintraub, ao rebater as críticas ao anunciado corte de mais de 30% nos recursos de manutenção de todas as universidades federais. Da forma como foi feito, o questionamento pode dar a entender que professores universitários e pesquisadores são privilegiados do orçamento que se recusam a fazer sacrifício pontual pelo país. Basta conhecer de perto o trabalho dos cientistas brasileiros para constatar o contrário. “É muito comum os pesquisadores tirarem dinheiro do bolso para manter seus trabalhos”, afirma Denise Pires de Carvalho, recém-eleita reitora da UFRJ, que há anos tem que usar seus próprios recursos para custear o laboratório em que atua.

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Médica do instituto de Biofísica, Denise tem trabalhos premiados no combate ao câncer de tireóide. O reconhecimento por uma pesquisa tão importante, porém, não se traduz em mais verbas.  “Nos 25 anos em que oriento estudantes, somente de 2005 a 2015 não fui obrigada a eu mesma pagar reagentes e outros itens. É difícil para nós, porque o nosso salário não é alto, temos nossas atribuições”, lamenta. A atual fase de vacas magras coincide com a crise na Faperj, fundação de fomento do governo estadual, que há quatro anos não libera dinheiro. “O sistema federal também tem problemas. Tive um projeto aprovado em 2016 que só foi pago em 2018. Tem sido assim”.

A reitora eleita Denise Pires de Carvalho no campus da UFRJ: 'É muito comum os pesquisadores tirarem dinheiro do bolso para manter seus trabalhos' (Foto João Laet/Adufrj)
A reitora eleita Denise Pires de Carvalho no campus da UFRJ: ‘É muito comum os pesquisadores tirarem dinheiro do bolso para manter seus trabalhos’ (Foto João Laet/Adufrj)

Na prática, a professora tem que comprar vários itens indispensáveis à pesquisa e também custear a apresentação dos resultados em congressos e seminários fora do Rio. “Nós levamos os nomes das nossas instituições e temos que arcar com despesas”, explica a reitora eleitora, com posse prevista para junho. Além disso, com a bolsa de R$ 2.800 que recebe para a compra de material, muitas vezes ela tem que fazer o milagre da multiplicação. Os hormônios necessários para o trabalho chegam a custar R$ 10 mil reais e a professora tem que juntar vários meses de bolsa para fazer aquisição e impedir a paralisação da pesquisa.  “No meu laboratório tem equipamento parado há três anos: só o transporte custa R$ 5 mil e não tenho condição de pagar”, explica Denise. É bom lembrar: isso acontece na universidade que é apontada em rankings nacionais e internacionais como a segunda melhor do Brasil.

Parece que o que a gente faz não tem importância, que nosso trabalho não é sério e pode ser cortado. É como se não tivéssemos compromisso com a formação de pesquisadores e com os resultados da pesquisa

Tatiana Sampaio
Professora de Biologia e Chefe do Laboratório da Matriz Extra Celular

O corte de 35% em média nos recursos das federais (na UFRJ chega a 41%) afetará o dinheiro que serve à manutenção das instituições, para pagamento de despesas como água, luz e limpeza. Não afetaria, portanto, os pesquisadores, mas num cenário com tantas dificuldades econômicas esse encargo também acabará nas costas dos professores.

Isso, em parte, já acontece. Chefe do Laboratório da Matriz Extra Celular, do Programa de Bioengenharia, a professora de Biologia Tatiana Sampaio é outra que gasta do próprio bolso para manter a pesquisa. Sua equipe estuda uma proteína natural existente do lado de fora das células que é importante para vários processos, como regeneração de sistema nervoso, terapia contra o câncer, recuperação de lesão de pele e outros tratamentos. “Da Faperj, recebemos menos de 150 mil reais para um estudo clínico que tem custo de R$ 1 milhão”, contabiliza. A solução é tirar do salário para comprar reagentes e outros itens do kit de pesquisa. Mas não só. “Quebrou o ar condicionado do biotério, onde ficam os ratos usados nas pesquisas, tenho que pagar. Manutenção de ar é constante, troca de lâmpada…”

Tatiana Sampaio, chefe do Laboratório da Matriz Extra Celular, paga até conserto do ar condicionado com seu dinheiro (Fernando Souza/Adufrj)
Tatiana Sampaio, chefe do Laboratório da Matriz Extra Celular, paga até conserto do ar condicionado com seu dinheiro (Fernando Souza/Adufrj)

No laboratório onde trabalha, Tatiana só tem internet no máximo duas vezes por semana. A instalação é antiga e não há dinheiro para atualizar. Quando muita gente usa a conexão ao mesmo tempo, os computadores param. Diante de tantas limitações e mais esse corte de verba anunciado pelo ministro da Educação, a bióloga lamenta:  “Parece que o que a gente faz não tem importância, que nosso trabalho não é sério e pode ser cortado. É como se não tivéssemos compromisso com a formação de pesquisadores e com os resultados da pesquisa”.

A julgar pela desastrosa explanação do ministro Weintraub no plenário da Câmara dos Deputados, onde foi parar por convocação dos parlamentares, o governo realmente dá pouco ou nenhum valor aos pesquisadores das universidades federais. O titular da pasta da Educação não deu qualquer sinal de reversão do contingenciamento, ignorando centenas de milhares de manifestantes que foram à ruas em mais de 200 cidades brasileiras naquele mesmo dia para protestar contra a medida. Aparentemente, no que depender da disposição do ministro, cientistas de instituições do quilate da UFRJ (inclusive a própria reitora) continuarão a ter que botar a mão no bolso para manter seus trabalhos. Agora, com ainda mais dificuldade. A não ser que o apelo das ruas cresça tanto que se torne ensurdecedor. #100diasdebalbúrdiafederal

1/100 A série #100diasdebalbúrdiafederal pretende mostrar, durante esse período, a importância  das instituições federais e de sua produção acadêmica para o desenvolvimento do Brasil.


Escrito por Chico Alves

Chico Alves tem 30 anos de profissão: por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Na maior parte da carreira atuou como editor-assistente na revista ISTOÉ, mais precisamente por 19 anos. Foi editor-chefe do jornal O DIA por mais de três anos. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

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