Diário da Covid-19: pandemia bate recordes e reverte tendência no Brasil

Em meio ao recrudescimento dos casos e das mortes na Europa, uma residente da casa de repouso Domenico Sartor, em Castelfranco Veneto, perto de Veneza, abraça sua filha em uma tela de plástico, na chamada “Sala do Abraço”. Foto Piero Cruciatti/AFP

País volta a registrar quase 40 mil novos casos e mais de 900 mortes por dia

Por José Eustáquio Diniz Alves | ODS 3 • Publicada em 15 de novembro de 2020 - 12:02 • Atualizada em 24 de novembro de 2020 - 09:41

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Em meio ao recrudescimento dos casos e das mortes na Europa, uma residente da casa de repouso Domenico Sartor, em Castelfranco Veneto, perto de Veneza, abraça sua filha em uma tela de plástico, na chamada “Sala do Abraço”. Foto Piero Cruciatti/AFP

A pandemia do SARS-CoV-2 bateu todos os recordes globais pela segunda semana consecutiva e o Brasil, que vinha numa trajetória de queda, apresentou uma preocupante tendência de alta nas curvas epidemiológicas na semana anterior ao 1º turno das eleições municipais de 2020. A covid-19, que vai completar um ano em dezembro, tem se propagado em ondas e sem dar sinais de trégua ao redor do mundo. O continente europeu e a América do Norte atingiram a expressiva marca de 1 milhão de mortes na semana passada, com o resto do mundo registrando cerca de 300 mil mortes. A média móvel da 46ª semana epidemiológica indicou 580 mil novos casos diários e 8,5 mil vítimas fatais. Isto significa que, globalmente, a cada minuto, 403 pessoas foram contaminadas e 6 pessoas perderam a vida para o novo coronavírus.

A Europa, depois de um verão relativamente tranquilo, com poucos casos e poucas mortes, voltou a ser um dos epicentros da pandemia. Os Estados Unidos que há tempos é o país mais impactado pela doença, voltou a apresentar números absurdamente altos, em especial depois das aglomerações populares da campanha eleitoral, em particular, os grandes comícios realizados pelo candidato do Partido Republicano que congregava muitas pessoas sem máscaras e sem distanciamento social. Os EUA ultrapassaram 180 mil novas infecções e 1.400 vidas perdidas na sexta-feira, 13 de novembro. Em 24 horas, foram 125 casos e 1 morte por minuto, na economia mais rica do mundo.

Mas o vírus não se espalha descontroladamente em todos os lugares. Os dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) mostram que a região do Pacífico Ocidental, que inclui os países do Leste Asiático e os países da Oceania (são 37 países com cerca de 2 bilhões de habitantes), registra cerca de 800 mil casos (1,5% do total mundial) e apenas 16,3 mil mortes (1,3% do total global). Não existe segredo, pois quem tem obtido sucesso no controle da pandemia são aqueles países que fizeram uma barreira sanitária efetiva, rastrearam e monitoraram a doença e apresentaram um alto grau de civilidade e de união entre o Poder Público e a sociedade civil. Países como Taiwan, Vietnã, Camboja, Tailândia e Nova Zelândia demonstram que as mortes pela covid-19 não são uma sina inexorável.

A realidade é simples de entender, pois quando falha o esforço coletivo das pessoas, o vírus vence. Por exemplo, o Líbano tinha uma média móvel diária de 170 casos e 1,5 mortes em 03 de agosto de 2020, um dia antes da explosão do porto de Beirute. Com o caos gerado pela destruição das casas, pelos mortos e feridos que foram levados aos hospitais, pela mobilização para a limpeza da cidade e com a agitação das manifestações de protesto, o contágio do SARS-CoV-2 se espalhou e, cem dias depois do trágico acidente, a média móvel diária de infectados passou para 1.700 casos junto com 15 vidas perdidas. Ou seja, os números diários decuplicaram.

A experiência do Líbano deve servir de alerta para o Amapá que está vivendo um apagão desde o dia 03 de novembro. O Amapá já era uma das Unidades da Federação mais impactadas pela covid-19, mesmo antes do blecaute e tinha um coeficiente de incidência em torno de 63 mil casos por milhão de habitantes e um coeficiente de mortalidade em torno de 900 óbitos por milhão de habitantes. Prevê-se a ocorrência de um aumento da pandemia devido ao caos generalizado provocado no cotidiano da população, com falta de água, de comida e de serviços públicos adequados. As eleições municipais de Macapá foram adiadas, mas a desorganização da sociedade civil e a ineficiência do Poder Público, provavelmente, farão explodir os casos e as mortes pelo novo coronavírus no território amapaense. Os registros dos últimos 12 dias já comprovam o aumento das infecções e das mortes desde as cidades de Laranjal do Jari, ao sul, a Oiapoque, no extremo norte do estado.

O panorama das regiões do mundo

Analisando a dinâmica dos casos diários nas diversas regiões do mundo, o gráfico abaixo mostra que a média móvel aumentou no conjunto do continente americano até 210 mil pessoas infectadas no final de agosto, caiu em setembro e voltou a subir em outubro, atingindo o valor máximo da série em 13 de novembro com quase 350 mil casos diários. A outra região em destaque é a Europa (Ocidental e Oriental) que passou de cerca de 70 mil casos diários (na média móvel de 7 dias) no início do mês de outubro para a média de 280 mil casos em 13/11. Outra região que apresenta tendência de alta é o Mediterrâneo Oriental. A Índia e o Sul da Ásia que apresentavam uma curva em alta até meados de setembro, atualmente registra queda do número de casos. O restante da Ásia e a África apresentam volumes de casos baixos, a primeira em estabilidade e a segunda com leve aumento.

Considerando a dinâmica das mortes diárias, o gráfico abaixo mostra que a média móvel no continente americano que estava acima de 5 mil óbitos em 24 horas na virada de agosto para setembro, caiu para 3 mil óbitos, mas voltou a subir na segunda quinzena de outubro e continuou aumentando na primeira quinzena de novembro. O continente europeu que chegou a ter 4,3 mil mortes diárias em meados de abril, caiu para menos de 400 mortes no final de agosto e agora subiu para um patamar acima de 4 mil mortes diárias em 13 de novembro. A região do mediterrâneo oriental também apresenta tendência de aumento das mortes, mas em nível bem mais baixo. O restante da África e da Ásia também apresentam volumes baixos de mortes, quando comparadas às Américas e à Europa.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) tem mostrado preocupação com a chegada do inverno no Hemisfério Norte e já alertou para o aumento das infecções na Europa e na América do Norte, afirmando que algumas partes do mundo estão vivenciando a 2ª onda da pandemia e outras estão atravessando uma 3ª onda. Em geral, a letalidade (óbitos divididos pelos casos) é mais baixa atualmente porque a doença contaminou uma maior proporção de jovens que, em geral, possuem menores comorbidades e apresentam maiores resistências ao coronavírus.

 O panorama global

O mundo chegou a 54,3 milhões de pessoas infectadas e a 1,3 milhão de vidas perdidas pela covid-19 no dia 14 de novembro de 2020, com uma taxa de letalidade de 2,4%. Por vários dias no mês de novembro o número médio de novas infecções ultrapassou 600 mil casos e o número de vítimas fatais ultrapassou 9 mil óbitos em 24 horas.

O gráfico abaixo mostra a evolução da média diária dos casos da covid-19 no mundo, desde o início de março. Nota-se que o número de infecções diárias passou de 3 mil casos entre 01 e 07 de março para 77 mil quatro semanas depois. Até o final de maio o número de novas infecções ficou abaixo de 100 mil casos diários. Mas em agosto já tinha ultrapassado 250 mil casos diários, pulou para 493 mil casos na semana de 25 a 31/10, avançou para 555 mil casos diários na semana seguinte e alcançou 580 mil casos na semana de 08 a 14/11. O crescimento do número de casos globais parece mais um tsunami do que uma grande onda.

O gráfico abaixo mostra a evolução do número diário de óbitos no mundo nos quase 9 meses da série. Na primeira semana de março houve menos de 1 mil mortes diárias, mas na semana de 29/03 a 04/04 já tinha passado pra 5,2 mil óbitos diários. O pico aconteceu na semana de 12 a 18 de abril com 7,1 mil mortes diárias. Nas 26 semanas seguintes os números variaram, mas foram menores do que o pico de abril, atingindo 6,5 mil na última semana de outubro. Todavia, as duas semanas de novembro apresentam cifras maiores do que as do pico de abril. Na semana de 08 a 14 de novembro o número médio diário de vidas perdidas bateu o recorde do ano, com 8,7 mil óbitos diários.

Diante do perigo, um número cada vez maior de países europeus retoma as medidas de isolamento social e quarentena contra a nova onda de covid-19. Apesar do cansaço e de toda a angústia das pessoas, países como Inglaterra, Alemanha, Portugal, França e Grécia retomam medidas de confinamento para tentar deter explosão de contágios. A Bélgica – que é o país com maior coeficiente de mortalidade do mundo – bateu o recorde anual com 345 mortes no dia 11/11 e anunciou a implantação de um lockdown durante o mês de novembro para conter segunda onda do coronavírus. No Canadá, o número de casos subiu muito depois do feriado de Ação de Graças (que normalmente ocorre em outubro). O primeiro-ministro, Justin Trudeau, defendeu o aumento nas restrições para as pessoas que queiram passar o Natal em família.

Nos EUA, o presidente eleito, Joe Biden, fez do combate à pandemia sua prioridade e tem planos ambiciosos contra a pandemia. Mas a única coisa que ele pode prometer é um “plano de ação”, a ser implementado assim que assumir o cargo, em 20 de janeiro de 2021. Enquanto isto, o presidente em exercício sequer reconhece o resultado das eleições, pouco faz para evitar o pior e o país caminha para a impressionante marca de 200 mil casos diários. O Instituto de Métricas e Avaliação de Saúde (IHME), da Universidade de Washington, estima que, até 31 de dezembro de 2020, o número de casos diários pode chegar a 300 mil e o número de mortes a 2 mil óbitos diários.

Eu acho que é preciso continuar a acreditar na democracia, mas numa democracia que o seja de verdade. Quando eu digo que a democracia em que vivem as atuais sociedades deste mundo é uma falácia, não é para atacar a democracia, longe disso. É para dizer que isto a que chamamos democracia não o é

José Saramago (1922-2010)
Escritor

O panorama nacional

Depois de uma semana com problemas na divulgação dos dados da covid-19, o Ministério da Saúde indicou, no sábado (14/11), que o país chegou a 5.380.635 de pessoas infectadas e 156.903 vidas perdidas, com uma taxa de letalidade de 2,9%. Foram 38.307 novos casos e 921 mortes nas últimas 24 horas. O Brasil continua em 3º lugar no ranking global de casos (atrás apenas dos EUA e da Índia) e no 2º lugar no número de mortes (atrás apenas dos EUA) . Os números da pandemia subiram significativamente na última semana sugerindo, talvez, o início de uma segunda onda no país.

O gráfico abaixo mostra a variação média diária do número de casos nas semanas epidemiológicas. Na 13ª SE (22 a 28/03) o Brasil teve 397 casos diários em média, subiu para o pico de 45,7 mil casos na 30ª SE (19 a 25/07), caiu nas semanas seguintes, com algumas oscilações, até 16,8 mil casos na 45ª SE e deu um salto para 27,9 mil casos na semana passada.

O gráfico abaixo mostra a variação média diária do número de óbitos nas semanas epidemiológicas. Na 13ª SE (22 a 28/03) o Brasil teve somente 13 vítimas fatais pela covid-19,  subiu para 1.014 óbitos na 23ª SE e atingiu o pico de 1.097 na 30ª SE (19 a 25/07). Nas semanas seguintes, com pequenas oscilações, os números foram caindo até 343 óbitos na 45ª SE. Contudo, na última semana, a tendência se inverteu e a curva deu um salto para 482 óbitos.

Durante 15 semanas os números da pandemia caíram no Brasil e estavam cerca de 3 vezes menores em relação ao pico que ocorreu na 30ª SE (19 a 25/07). Contudo, na 46ª SE (08 a 14/11) tanto os casos, quanto os óbitos, deram um salto mortal. Óbvio que são montantes muito menores do que os de julho. Mas o que acende o sinal de alerta é a possibilidade de uma segunda onda da pandemia no país.

A possibilidade de um repique da covid-19 no Brasil não pode ser desconsiderada. No Diário da Covid-19 do dia 18 de outubro alertamos: “Com o fim da quarentena e a flexibilização do isolamento social, a população fica mais vulnerável ao contágio do SARS-CoV-2. Sem dúvida, a retomada das atividades econômicas e o aumento das aglomerações (praias, bares, festas, etc.) são sinais da possibilidade de retomada (na forma de uma segunda onda) do crescimento da Covid-19. Na falta de medidas preventivas efetivas, um repique de casos e mortes não é um evento a ser desconsiderado pelas autoridades de saúde do Brasil”.

Na primeira onda houve uma discrepância entre o pico ocorrido na Europa e nos EUA e o pico ocorrido no Brasil. As ondas ocorreram de forma sucessiva, mas defasadas no tempo. Pode ser que uma cronologia semelhante esteja ocorrendo agora. Assim, é preciso redobrar os esforços para conter a cada vez mais provável 2ª onda. As eleições municipais estão mostrando que os prefeitos que conseguiram minimizar os danos da pandemia, como em BH e Floripla, devem ter o devido reconhecimento das urnas.

Como escreveu o jornalista Aristides Lobo, em 1889: “O povo assistiu bestializado a proclamação da República”. Neste 15 de novembro, quando se comemora os 131 anos do início do regime republicano, vamos torcer para que o povo brasileiro não assista bestializado a emergência de uma 2ª onda da covid-19 no país.

Frase do dia 15 de novembro de 2020 (Proclamação da República)

“Eu acho que é preciso continuar a acreditar na democracia, mas numa democracia que o seja de verdade. Quando eu digo que a democracia em que vivem as atuais sociedades deste mundo é uma falácia, não é para atacar a democracia, longe disso. É para dizer que isto a que chamamos democracia não o é”

José Saramago (1922-2010)

José Eustáquio Diniz Alves

José Eustáquio Diniz Alves, sociólogo, mestre em economia e doutor em Demografia pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (CEDEPLAR) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com pós-doutorado no Núcleo de Estudos de População – NEPO/UNICAMP. É professor e pesquisador independente. CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

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