Maconha faz mal – mas também faz bem – à memória

Plantação de maconha no Líbano: pesquisadores apontam que cannabis pode afetar memórias a curto prazo mas também criar neurônios (Foto: Joseph Eid/AFP)

Novas pesquisas indicam que dois componentes da cannabis - THC e CBD - têm efeitos diferentes e até contrários sobre o cérebro humano

Por The Conversation | ODS 3 • Publicada em 16 de julho de 2020 - 10:07 • Atualizada em 20 de julho de 2020 - 08:44

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Plantação de maconha no Líbano: pesquisadores apontam que cannabis pode afetar memórias a curto prazo mas também criar neurônios (Foto: Joseph Eid/AFP)

Ian Hamilton e Elizabeth Hugues*

O uso de cannabis tem sido por muito tempo associado à perda de memória. Mas, até agora, essa noção era, principalmente, motivo de piada, sem maior comprovação. À medida que os pesquisadores começam a examinar mais profundamente a maconha e seu efeito na saúde humana, eles começam a entender melhor o efeito que ela tem no cérebro humano – e se a maconha realmente prejudica a memória.

A memória é dividida em memória de curto e longo prazo. Memória de curto prazo é onde os eventos imediatos são armazenados temporariamente, enquanto memória de longo prazo é onde as informações são armazenadas indefinidamente. As evidências atuais mostram que a intoxicação por maconha pode alterar ou distorcer temporariamente o processamento da memória a curto prazo. Isso parece ser causado por compostos da cannabis que interrompem a sinalização neural quando se ligam aos receptores responsáveis pela memória no cérebro. A memória interrompida de curto prazo pode  afetar a aprendizagem e também causar perda de interesse ou problemas de concentração.

No entanto, pesquisas iniciais também mostram que a maconha pode ter um impacto positivo em doenças neurodegenerativas que afetam a memória, como Alzheimer, epilepsia e doença de Huntington. Em estudos principalmente em animais, quando os pesquisadores usaram componentes encontrados na maconha, eles descobriram que ela poderia retardar ou até impedir o avanço dessas doenças – essencialmente através da criação de neurônios.

Esses efeitos aparentemente paradoxais da mesma droga são melhor explicados por dois produtos químicos encontrados na maconha: delta 9-tetra-hidrocanabinol (THC) e canabinóides (CBD). Todos nós temos receptores canabinóides naturais no cérebro. O THC é capaz de se ligar efetivamente a esses receptores, criando efeitos eufóricos. No entanto, o CBD pode interferir nesse processo de ligação, o que diminui a sensação de euforia.

Proporções variáveis desses dois produtos químicos são encontradas em diferentes tipos de maconha. Consumir um produto de cannabis com THC, mas sem CBD, aumenta o risco de desenvolver problemas de saúde mental, como psicose. No entanto, o CBD poderia realmente ser usado para tratar a psicose. A maconha com níveis mais altos de THC e quantidades mais baixas ou desprezíveis de CBD parece ter um efeito prejudicial na memória de curto prazo, principalmente em adolescentes. O principal problema é a capacidade de reter e recuperar informações. Felizmente, isso não é permanente.

Mas essas recentes descobertas sobre o papel do THC e do CBD na maconha mostram que não podemos mais simplesmente dizer que a própria maconha causa psicose ou prejudica a memória. Em vez disso, pode ser o tipo de cannabis e os compostos que ela contém que podem ter riscos ou benefícios específicos.

E, embora haja poucas dúvidas de que algumas pessoas que usam maconha experimentam problemas de memória, estabelecer que eles são efetivamente causados pela maconha é complicado. É difícil descartar, por exemplo, o impacto de outros medicamentos que as pessoas podem ter usado – e se esses medicamentos contribuíram para esse comprometimento da memória. O uso abusivo de álcool também pode causar danos cerebrais e perda de memória. Outro problema óbvio nestas pesquisas é pedir às pessoas com problemas de memória que lembrem do uso anterior de drogas e quaisquer problemas associados. Sua capacidade de recordar esses detalhes pode estar comprometida.

Pesquisas recentes até sugerem que qualquer comprometimento da memória associado ao consumo de maconha pode ser revertido quando as pessoas param de usar a cannabis. Este efeito foi observado principalmente naqueles que usavam maconha pelo menos uma vez por semana.

Assim como doses mais altas de álcool podem causar danos cerebrais, doses mais altas ou uso mais frequente de maconha também podem causar problemas de memória a longo prazo – a capacidade de aprender de forma eficaz e a capacidade de se concentrar em uma tarefa, por exemplo. Algumas pessoas usam álcool e maconha, muitas vezes ao mesmo tempo, o que pode piorar o potencial impacto na memória.

Uma nova pesquisa também indica que a maconha pode causar mais danos do que o álcool no desenvolvimento do cérebro dos adolescentes. Embora o álcool possa destruir ou danificar gravemente os neurônios do cérebro e suas funções de sinalização (de resposta ou reação ao ambiente), este estudo mostrou que a maconha realmente altera o tecido cerebral neural responsável pela memória. Mas essa mudança pode ser revertida em questão de semanas se uma pessoa para de usar a cannabis. Embora pesquisas indiquem que menos jovens estejam usando maconha e álcool ao mesmo tempo, os adolescentes que efetivamente usam maconha o fazem com frequência maior (duas vezes mais) do que aqueles que consomem bebidas alcoólicas.

Pesquisas mostram que jovens usuários freqüentes de maconha têm córtices temporal e frontal mais finos, que são as duas áreas que ajudam a processar o funcionamento da memória. A memória é uma ajuda essencial para o aprendizado e o estudo – mas a maconha não afeta apenas a memória, mas também pode reduzir a motivação para aprender. Essa dupla influência reduz o envolvimento de um jovem na educação e sua capacidade de desempenho.

No entanto, o uso de maconha mais tarde na vida (50 anos ou mais) parece ter apenas um impacto moderado no funcionamento cognitivo, inclusive na memória. Esses declínios modestos não são ainda totalmente compreendidos e há uma falta de pesquisas de alta qualidade nessa área. Isso precisa mudar, pois não são apenas os jovens que usam maconha. À medida que mais países legalizam a maconha, os idosos também podem querer experimentá-la.

Embora não exista grande dano à memória de uma pessoa se ela experimentar cannabis, a pesquisa atual parece concordar que quanto mais frequente o consumo, maior o risco. Embora ainda haja muito que os pesquisadores ainda não saibam sobre o efeito de cannabis na memória, as evidências atuais sugerem que qualquer prejuízo na memória pode ser revertido se uma pessoa se abstiver do uso.

* Ian Hamilton é professor de Saúde Mental da Universidade de York (Inglaterra); Elizabeth Hugues é professora de Saúde Mental da Universidade de Leeds (Inglaterra)

Tradução: Oscar Valporto

The Conversation

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