Diário da Covid-19: Junho com mais vacinas e menos mortes de idosos

Manifestantes protestam em São Paulo contra a corrupção no governo Bolsonaro e contra a falta de uma política efetiva de combate à covid-19. Foto Paulo Lopes/Anadoly Agency/AFP

Brasil, no entanto, segue caminhando para ser o líder mundial em mortes provocadas pelo coronavírus

Por José Eustáquio Diniz Alves | ODS 3 • Publicada em 4 de julho de 2021 - 11:03 • Atualizada em 11 de julho de 2021 - 09:49

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Manifestantes protestam em São Paulo contra a corrupção no governo Bolsonaro e contra a falta de uma política efetiva de combate à covid-19. Foto Paulo Lopes/Anadoly Agency/AFP

As vacinas, para o bem ou para o mal, estiveram no centro do debate e da evolução da covid-19 no Brasil no mês de junho. O lado bom é que os grupos etários ou locais que foram amplamente imunizados tiveram uma queda significativa das mortes, mostrando a efetividade das vacinas. O Brasil terminou o semestre com 100 milhões de doses aplicadas, sendo 74 milhões de pessoas imunizadas parcialmente, o que corresponde a 35% da população que recebeu só a primeira dose. O número de brasileiros completamente imunizados com duas doses de vacinas chegou a 12,5% no final de junho.

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Sem dúvida, o processo de vacinação tem evitado um agravamento ainda maior da pandemia. O mês de junho registrou o segundo maior número de pessoas infectadas e o quarto maior número de vidas perdidas pela covid-19 no Brasil. O resultado mais expressivo foi a redução dos casos graves e dos falecimentos entre a população idosa (com 60 anos ou mais). Desde o início da pandemia, pela primeira vez, houve menos mortes de idosos em junho de 2021 do que de pessoas abaixo de 60 anos. Portanto, aconteceu um rejuvenescimento das vítimas fatais do SARS-CoV-2.

Contudo, as vacinas não protegeram o país da praga da corrupção. Ao contrário, o país tomou conhecimento da Covaxin, que foi uma das vacinas mais caras já negociadas pelo Ministério da Saúde, com preço unitário de R$ 80,70, somando um valor de  R$ 1,6 bilhão, o que quase daria para a realização do Censo Demográfico, como mostramos no “Diário da Covid-19”, aqui no #Colabora (Alves, 27/06/2021). Todavia, as pessoas que se assustaram com o escândalo da Covaxin, ficaram assombradas ao saber que o Diretor do Ministério da Saúde pediu propina de US$ 1 por dose de vacina, o que daria US$ 400 milhões (ou R$ 2 bilhões). Como o Censo Demográfico de 2021 estava orçado em R$ 2 bilhões, o pedido de propina foi no valor de um Censo.

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O negacionismo, a incompetência e a corrupção são fatores apontados para o atraso do processo de imunização e, consequentemente, pelo alto volume de vítimas fatais. O grau de confusão e desorientação do Ministério da Saúde fez com que a coordenadora do Programa Nacional de Imunizações do Ministério da Saúde, Francieli Fontana, que estava à frente da estratégia de vacinação contra a covid-19, pedisse exoneração do cargo no final de junho. Ela criticou abertamente o presidente Jair Bolsonaro e suas declarações anticiência pelo atraso na vacinação contra a covid-19. De fato, os países que tomaram as medidas preventivas adequadas e foram rápidos e eficientes na aplicação das vacinas estão muito mais adiantados no controle da pandemia, como ocorre, por exemplo, em Israel, no Reino Unido e nos Estados Unidos.

O panorama nacional da covid-19

O Brasil fechou o mês de junho com 18.557.141 casos e 518.066 óbitos da covid-19. No dia 03 de julho de 2021 já eram 18.742,025 casos e 523.587 vidas perdidas, com taxa de letalidade de 2,8%, segundo dados do Ministério da Saúde. O Brasil é o segundo país do mundo em número de vítimas fatais da pandemia e, no ritmo atual, pode ultrapassar os EUA no volume absoluto de óbitos até o final de agosto ou no máximo até meados de setembro.

O gráfico abaixo mostra a média diária de casos nos 16 meses compreendidos entre março de 2020 e junho de 2021. Nota-se que todos os 6 primeiros meses de 2021 registraram maior número de casos da covid-19 do que todos os meses de 2020. O mês com maior número de casos foi março de 2021, com média diária de 70,9 mil casos. Os meses de abril e maio apresentaram valores um pouco menores, mas em alto patamar e o mês de junho voltou a apresentar acréscimos no número de pessoas infectadas, com a 2ª maior média diária.

O gráfico abaixo mostra a média diária de óbitos no mesmo período do gráfico anterior. Observa-se que os últimos 5 meses registraram maior número de óbitos da covid-19 do que todos os meses anteriores. O mês com maior número de falecimentos foi abril de 2021, com média diária de 2,7 mil óbitos. Os meses de maio e junho apresentaram valores um pouco menores, mas também em alto patamar. A possibilidade de um repique em julho não está descartada.

O processo de rejuvenescimento da pandemia de covid-19 no Brasil

A maior parte das vítimas fatais da pandemia concentra-se entre a população idosa. Porém, a idade média que estava acima de 70 anos, caiu para a casa dos 60 anos e, pela primeira vez, ficou abaixo de 60 anos em junho de 2021. Há um deslocamento progressivo da curva epidemiológica em direção às faixas etárias mais jovens.

O gráfico abaixo, com dados do Portal da Transparência do Registro Civil, para abril de 2021 (o mês mais letal de toda a pandemia), mostra que 65% das mortes da covid-19 foram no grupo de 60 anos e mais, sendo 55% homens e 45% mulheres. O ponto modal da distribuição estava na faixa de 60-69 anos.

O mesmo gráfico, também do Portal da Transparência do Registro Civil, para junho de 2021, mostra que 56% das mortes da covid-19 foram no grupo abaixo de 60 anos e mais. Entre o sexo masculino e feminino, a proporção foi de 55% para os homens e de 45% para as mulheres. O ponto modal da distribuição caiu para a faixa de 50-59 anos. Portanto, pela primeira vez desde o início da pandemia, os idosos não são maioria das vítimas fatais. Evidentemente, a redução proporcional do número de óbitos da população idosa ocorreu devido à maior cobertura vacinal nesta faixa etária.

Ou seja, o número de mortes no Brasil em junho seria maior caso a população acima de 60 anos não estivesse vacinada. Porém, o maior número de mortes nos degraus de baixo da pirâmide etária tem um impacto mais significativo na redução da esperança de vida ao nascer e no aumento do número de anos de vida perdidos.

Junho com mais vacinas e menos mortes de idosos no Brasil

A pandemia tem apresentado recuos na última quinzena, porém, o Brasil permanece com a maior média semanal de casos e de óbitos da covid-19 entre todos os países do mundo. Os epidemiologistas estão preocupados com a propagação das quatro variantes do vírus Sars-Cov-2: Alfa (encontrada primeiro no Reino Unido), Beta (África do Sul), Gama (Brasil) e Delta (Índia). Todas elas foram classificadas como variantes de preocupação pela OMS porque representam um risco maior para a saúde pública. Assim, todo o cuidado é pouco. O Brasil precisa dobrar o número de doses das vacinas para se chegar algo próximo da imunidade coletiva. Por conseguinte, os meses de julho e agosto ainda podem registrar elevado número de casos e de óbitos no território nacional.

A CPI da covid-19, as denúncias relacionadas à compra de vacinas e as manifestações populares de 03 de julho

A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19, instalada no Senado Federal no dia 27 de abril, após determinação do Supremo Tribunal Federal (STF), já mostrou como a inoperância do Executivo federal na gestão da pandemia agravou o dramático cenário que já deixou mais de meio milhão de vidas perdidas. Apesar da baixa efetividade da primeira fase da CPI, o trabalho da comissão reforçou a importância do incentivo à pesquisa e à valorização da ciência e tecnologia, denunciando o uso de medicamentos sem comprovação científica contra a doença, como a cloroquina e a articulação do gabinete paralelo que menosprezou as medidas preventivas e a compra tempestiva de vacinas.

No final de junho teve início uma nova fase da CPI: a da investigação sobre corrupção ativa e passiva. O ponto de partida foram os depoimentos do servidor do Ministério da Saúde Luis Ricardo Fernandes Miranda e do seu irmão, o deputado federal Luis Miranda (DEM-DF). Após as denúncias relacionadas à compra da vacina indiana Covaxin, a CPI da Covid tratou também da negociação feita pelo Ministério da Saúde para a aquisição de 60 milhões de doses da vacina chinesa CanSino. A CPI investiga ainda o governo Bolsonaro por desvios de recursos destinados à compra de testes para diagnóstico da covid-19.

No dia 01 de julho, o empresário e policial Luiz Paulo Dominguetti disse à CPI que recebeu oferta de propina por vacinas da AstraZeneca de um representante do Ministério da Saúde do governo Bolsonaro. Dominguetti, que se apresenta como representante da Davati Medical Supply, disse que a oferta de propina foi feita em fevereiro em um encontro com o então diretor de Logística do Ministério da Saúde, Roberto Ferreira Dias. Ele afirmou que a oferta inicial da Davati foi de U$ 3,50 por dose de vacina, mas Dias pediu o pagamento de propina de US$ 1 por dose, o que representa cerca de R$ 2 bilhões.

Desta forma, vai ficando claro que a desqualificação ideológica da efetividade das vacinas não impede a negociata e a corrupção na compra dos imunizantes. Enquanto a Procuradoria-Geral da República (PGR) pretendia aguardar o fim da CPI antes de decidir sobre notícia-crime contra Bolsonaro, a ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal, mandou a PGR se manifestar sobre o pedido de investigação do presidente por prevaricação.

Neste quadro, que envolve denúncias de genocídio e corrupção, quase 1 milhão de pessoas foram às ruas do Brasil e do mundo pedindo o impeachment do presidente Jair Bolsonaro e carregando bandeiras como “Bolsonaro corrupto” e “Sua vida vale um dólar”, segundo a Central de Movimentos Populares (CMP). Todas as 27 capitais registraram a ocorrência de protestos, que foram, em geral, maiores do que as mobilizações anteriores. As manifestações #3J foram marcadas também por homenagens às vítimas da covid-19.

Um dos objetivos dos protestos do sábado 3 de julho foi reforçar o “superpedido de impeachment” de Jair Bolsonaro, protocolado pelos movimentos populares, partidos políticos e organizações da sociedade. O objetivo dessa articulação foi reunir em um único processo argumentos dos 123 pedidos de destituição já apresentados à Mesa Diretora da Câmara dos Deputados. A união entre as investigações da CPI e as mobilizações populares é essencial para interromper a agenda negativa promovida pelo Presidente da República. O que o povo brasileiro deseja é sobreviver com o máximo de qualidade de vida possível.

Frase do dia 04 de julho de 2021

“Todas as pessoas nascem com direitos inalienáveis à vida, à liberdade e à busca da felicidade”

Declaração de Independência dos Estados Unidos da América (1776)

Referências

ALVES, JED. Diário da Covid-19: No epicentro da pandemia e no centro do escândalo da Covaxin, #Colabora, 27/06/2021

José Eustáquio Diniz Alves

José Eustáquio Diniz Alves é sociólogo, mestre em economia e doutor em Demografia pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com pós-doutorado no Núcleo de Estudos de População (Nepo) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). É professor e pesquisador independente. Currículo Lattes em http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

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