Desmatamento facilita disseminação de malária e dengue na Amazônia

Agentes sanitários em ação contra a malária no interior do Pará: estudo mostra que desmatamento facilita disseminação de doenças na Amazônia (Foto: Agência Pará – 18/04/2021)

Estudo envolvendo pesquisadores de oito instituições mostra que doenças tropicais se espalham por áreas agrícolas e agroextrativistas da região

Por Agência Fiocruz de Notícias | ODS 15ODS 3 • Publicada em 16 de julho de 2021 - 08:24 • Atualizada em 21 de julho de 2021 - 09:17

Compartilhe

Agentes sanitários em ação contra a malária no interior do Pará: estudo mostra que desmatamento facilita disseminação de doenças na Amazônia (Foto: Agência Pará – 18/04/2021)

A dispersão de doenças na Amazônia está diretamente relacionada à trajetória de desenvolvimento agrícola dos municípios e à perda de biodiversidade. Malária prevalece em municípios com perfil agroextrativista e com cobertura florestal, ou seja, metade do território amazônico. A dengue e chikungunya ocorrem com mais frequência em municípios de expansão urbana recente, como no limite sul da Amazônia em transição para o Cerrado. A leishmaniose cutânea prevalece em municípios com grandes rebanhos onde há maiores taxas de desmatamento e perda de biodiversidade. Já a Covid-19 se espalhou com facilidade em todos municípios, pois relaciona-se com o tráfego de pessoas. É o que aponta o estudo Epidemiology, Biodiversity, and Technological Trajectories in the Brazilian Amazon: From Malaria to COVID-19, publicado na revista Frontiers in Public Health, de autoria dos pesquisadores do projeto Trajetórias, do Centro de Síntese em Biodiversidade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Mais: Temporada de seca e fogo aumenta ameaça da covid-19 na Amazônia

Os municípios da Amazônia convivem atualmente com elevadas taxas de desmatamento, perda de biodiversidade e alta carga de doenças tropicais negligenciadas. Aproximadamente dois terços desse bioma estão localizados em território brasileiro. Lá, as transformações socioeconômicas e ambientais da paisagem estão ligadas à dinâmica da economia agrária regional. Buscando integrar abordagens da economia, epidemiologia e de biodiversidade, os autores do estudo identificaram duas perspectivas principais de se relacionar com a terra e que se subdividem.

O primeiro conjunto de práticas (chamadas pelos pesquisadores de “trajetórias tecnoprodutivas”) se enquadram no modelo agropecuário, associado à intensa mudança da paisagem, homogeneizador e promotor de grande perda da cobertura florestal. A lógica envolvida nessas trajetórias tem como foco a eficiência do capital, orientada pelo lucro. “Existem algumas ideias de que o desenvolvimento econômico melhora a saúde e a qualidade de vida. Mas nem sempre isso é verdade, às vezes é o contrário”, afirma a epidemiologista Cláudia Codeço, professora e pesquisadora da Fiocruz e uma das autoras do estudo.

O segundo conjunto de trajetórias é relacionado ao modelo agroextrativista que se apoia no acúmulo de conhecimento local e na histórica adaptação ao bioma, descrevendo sua realidade rural a partir de referências históricas e de ocupação da terra. As trajetórias agroextrativistas são dominantes em metade do território Amazônico e estão concentradas em áreas cobertas por floresta contínua, nas quais a malária é uma doença importante e causa de grande mortalidade.

Essas trajetórias agropecuárias estão associadas com grande perda de biodiversidade e o aumento das doenças tropicais negligenciadas, como a leishmaniose, doença de Chagas e aquelas relacionadas à transmissão pelo mosquito Aedes. “A criação de gado e plantio de grãos têm associação com altas taxas de desmatamento e têm se tornado trajetórias dominantes nos últimos anos”, comenta a pesquisadora da Fiocruz.

A trajetória da Covid-19 iniciou nas cidades, porém se espalhou rapidamente pelas comunidades rurais, ribeirinhas e que vivem nas florestas. “Esse fluxo se deu pela cadeia de contatos que envolveu os profissionais de saúde e assistentes sociais que transitam entre as regiões, assim como pelos moradores que saíram das grandes cidades rumo às áreas mais remotas”, explica a epidemiologista Claudia Codeço.

A Covid-19 foi agravada pela desigualdade de acesso a serviços básicos de saúde e de bens e serviços que assola a região. Além de abrir horizontes para monitorar o potencial avanço de doenças nos municípios amazônicos, o estudo inova com uma abordagem sistêmica na qual as perspectivas epidemiológicas, econômicas e ambientais são consideradas em conjunto.

O estudo foi elaborado pela equipe do projeto Trajetórias, vinculado ao Centro de Síntese em Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (SinBiose) do CNPq e conta com pesquisadores cientistas sociais, naturais, da computação, da saúde e economia. Neste estudo colaboraram pesquisadores da Fiocruz, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade Federal do Pará (UFPA), Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), Universidade do Acre (Ufac), Serviço Florestal Brasileiro (SFB) e Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Agência Fiocruz de Notícias

A Agência Fiocruz de Notícias (AFN) é um veículo da Coordenadoria de Comunicação Social da Fiocruz (CCS), com conteúdo produzido por equipe própria e também composto por textos colaborativos de assessores de comunicação das unidades da Fiocruz.

Newsletter do Colabora

Nossa newsletter é enviada de segunda a sexta pela manhã, com uma análise do que está acontecendo no Brasil e no mundo, com conteúdo publicado no #Colabora e em outros sites.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *