Ameaça da covid-19 aumenta na Amazônia com temporada de seca e fogo

Incêndio na floresta no sul do Pará em agosto de 2019: seca e queimadas aumentam número de internações por doenças respiratórias como covid-19 (Foto: Nelson Almeida/AFP)

Pesquisas apontam aumento nas internações por doenças respiratórias no período de estiagem e queimadas, que começa em maio

Por Oscar Valporto | ODS 15ODS 3 • Publicada em 12 de maio de 2020 - 07:29 • Atualizada em 21 de maio de 2020 - 12:51

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Incêndio na floresta no sul do Pará em agosto de 2019: seca e queimadas aumentam número de internações por doenças respiratórias como covid-19 (Foto: Nelson Almeida/AFP)

Maio marca o início da temporada de seca na Amazônia. É um período de estiagem, que se estende até outubro, chamado pelos moradores da região de verão amazônico. É também a temporada do fogo, quando o desmatamento, no início do período, e as queimadas, em seguida, avançam pela floresta. Os prognósticos para esta temporada em 2020 são terríveis:  só no primeiro trimestre deste ano, o desmatamento na Amazônia foi 51% maior que o mesmo período do ano passado, de acordo com informações do sistema Deter, do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), usado para guiar operações de preservação da floresta – índice ainda mais preocupante porque o sistema apontou um aumento de 89% no número de alertas em 2019, com relação para 2018.

Os números do desmatamento são alarmantes e assustadores

Ane Alencar
Diretora de Ciência do IPAM

Em meio à pandemia de covid-19, que já atinge de maneira dramática os estados do Amazonas e do Pará, a temporada de seca tem ainda um efeito colateral que acendeu um alerta vermelho para os especialistas em ambiente e saúde: o aumento do índice de doenças respiratórias provocadas pelas queimadas. Duas recentes pesquisas – uma da UFRJ, outra da Fiocruz – realizadas antes do novo coronavírus apontam para um crescimento no número de internações na casa de 30% durante o chamado verão amazônico.  “A temporada seca na Região Amazônica está cada vez mais intensa, com menos chuva, e mais prolongada. E, se houver uma novo período de grandes queimadas como no ano passado, a tendência é uma situação ainda mais grave para saúde. Estas populações já sofriam com doenças respiratórias e o coronavírus vai trazer uma enorme ameaça a elas”, afirma a professora Renata Libonati, do Departamento de Meteorologia, do Instituto de Geociências da UFRJ.

Alertar para iminência de nova temporada de fogo – ainda mais intensa do que a de 2019 – foi o objetivo de nota técnica divulgada pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, no final de abril. “Os números do desmatamento são alarmantes e assustadores”, afirma a pesquisadora Ane Alencar, diretora de Ciência do IPAM e uma das autoras da nota técnica, enfatizando o índice de 51% de aumento no trimestre. “Essas árvores derrubadas agora, somadas as que foram derrubadas em 2019 e não foram queimadas vão servir de combustível para uma temporada de fogo mais severa. É preciso agir agora para evitar, em plena pandemia, grandes queimadas, incêndios florestais e nuvens de fumaça no ar”, alerta. Para agravar o quadro, o Deter registrou aumento de 64% no desmatamento agora em abril, em relação ao mesmo mês de 2019.

Grileiros sem home-office

Ane Alencar lembra que 2019 foi atípico para a Amazônia. “Nós sabemos que a temporada de fogo é acesa pela mão humana e o fogo pode se espalhar mais ou menos a depender do clima.  Mas, no ano passado, tivemos muito mais fogo apesar de a temporada não ter sido particularmente seca”, destaca a diretora do IMPA. A primeira quinzena de agosto de 2019 revelou um aumento expressivo (60%) de focos de calor em relação à média do mesmo período dos três anos anteriores, embora o volume médio de chuvas fosse considerado normal. “Nós tivemos um aumento do desmatamento no começo da temporada seca e, em seguida, a Amazônia em chamas”, acrescenta a pesquisadora. A nota técnica do IPAM enfatiza que, em 2019, houve 81% mais focos de incêndio até agosto do que a média entre 2011 e 2018.

Área desmatada em Altamira, no Pará, estado líder em emissões de gases do efeito estufa: relatório mostra desmatamento como vilão das emissões (Foto: João Laet/AFP)
Área desmatada em Altamira, no Pará: alertas de desmatamento subiram 51% no primeiro trimestre de 2020 o que faz especialistas preverem intensa temporada de incêndios florestais na Amazônia (Foto: João Laet/AFP)

Para a diretora de Ciência do IPAM, ações do governo, após a repercussão internacional das queimadas, conseguiram conter a escalada do fogo – houve, inclusive, atuação das Forças Armadas no combate aos incêndios. “Se não houver ações dos governos estaduais e do governo federal imediatamente, teremos novamente um aumento descontrolado das queimadas porque muitas árvores derrubadas ano passado não foram queimadas e muita floresta já foi derrubada este ano, como mostram os dados do Deter”, reforça Ane Alencar.

O avanço do desmatamento, agora no começo do ano, mostra que grileiro, madeireiro e garimpeiro não fazem home-office. Eles estão aproveitando as preocupações com a pandemia para derrubar a floresta

Rômulo Batista
Biólogo da campanha Amazônia do Greenpeace

A nota técnica do IPAM aponta uma “diferença crucial” na análise do desmatamento e do número de focos de calor dos três primeiros meses de 2020 em relação ao perfil da derrubada da floresta observado em 2019: tanto o fogo como o desmatamento  aumentaram significativamente nas florestas públicas não-destinadas e áreas sem informação. “São grileiros e especuladores invadindo as áreas públicas e terras indígenas para derrubar, queimar e ocupar. É um efeito perverso da MP 910, a MP da grilagem, que facilita a regularização de terras públicas invadidas. Eles estão avançando também sobre as terras indígenas porque o risco é baixo”, protesta Ane Alencar.

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O biólogo Rômulo Batista, do programa Amazônia, do Greenpeace, afirma que o aumento no desmatamento no primeiro trimestre é fruto da política ambiental do governo que “estimula a derrubada da floresta e está desmontando os órgãos de fiscalização, como o Ibama e o ICMBio”. A temporada chuvosa registra, normalmente, menos desmatamento peças dificuldades de deslocamento da floresta: tratores e outros veículos atolam, a água provoca problemas nas máquinas. O desmatamento começa a crescer com a temporada seca, em maio; o pico dos incêndios ocorre a partir de julho até setembro. “O avanço do desmatamento, agora no começo do ano, mostra que grileiro, madeireiro e garimpeiro não fazem home-office. Eles estão aproveitando as preocupações com a pandemia para derrubar a floresta”, alerta Batista.

As evidências indicam claramente que a seca está cada vez mais intensa e isso provoca um aumento nas internações. As queimadas e sua consequente poluição do ar criam um risco ainda maior à saúde. No meio da pandemia, isso é muito alarmante

Renata Libonati
Pesquisadora do Instituto de Geociências da UFRJ

O ativista do Greenpeace lembra ainda que a covid-19 também afetou a capacidade de fiscalização do Ibama pelas restrições nos deslocamentos e também pela alta média de idade dos servidores do órgão, que precisam de cuidados especiais.  “Isso está facilitando a ação dos desmatadores e, muito provavelmente, teremos, mais uma vez, uma intensa temporada de queimadas nos próximos meses. Todo incêndio na Amazônia tem um fósforo. E quem acende esse fósforo sabe que temos um governo que não cumpre seu papel constitucional de defender a Amazônia e o Meio Ambiente”, enfatiza.

O biólogo Rômulo Batista destaca que uma temporada de foto como a de 2019 causará ainda mais problemas para a população pela coincidência com a pandemia de covid-19. “As queimadas já causam problemas respiratórios normalmente, já fazem aumentar o número de doentes que, este ano, vão encontrar hospitais superlotados pela covid-19. E essa população também é mais vulnerável ao coronavírus pela exposição frequente à fumaça das queimadas”, frisa o ambientalista do Greenpeace, acrescentando que a seca na Amazônia começa a avançar de sul para norte e de oeste para leste, começando em Rondônia, Acre, sul do Amazonas e norte de Mato Grosso.

Nuvem de fumaça das queimadas sobre Manaus: risco de ainda mais casos de covid-19 em população mais vulnerável a doenças respiratórias (Foto: Alberto Cesar Araújo/Amazônia Real)
Nuvem de fumaça das queimadas sobre Manaus: risco de ainda mais casos de covid-19 em população mais vulnerável a doenças respiratórias (Foto: Alberto Cesar Araújo/Amazônia Real)

Doenças respiratórias à espreita

Foi exatamente Porto Velho, capital de Rondônia, a base para a pesquisa desenvolvida pelo Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais (Lasa), do Departamento de Meteorologia do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O estudo, publicado em fevereiro, constatou um aumento de 27% no número de internações por doenças respiratórias durante a temporada de seca na Amazônia.  “As evidências indicam claramente que a seca está cada vez mais intensa e isso provoca um aumento nas internações. As queimadas e sua consequente poluição do ar criam um risco ainda maior à saúde. No meio da pandemia, isso é muito alarmante”, afirma a professora Renata Libonati, uma das autoras do estudo.

Em algumas regiões da Amazônia, as pessoas estão expostas à fumaça das queimadas por um longo período, quase duas décadas pelo menos. São pessoas mais vulneráveis a desenvolver a doença, o que merece uma atenção especial das autoridades de saúde

Renata Libonati
Pesquisadora do Instituto de Geociências da UFRJ

A pesquisadora da UFRJ também destaca o aumento do desmatamento registrado no ano passado – o índice mais alto desde 2012. “A diferença é que 2012 foi um ano muito seco, quando o fogo normalmente se espalha mais rápido. Não foi o que ocorreu em 2019 quando a chuva índice de chuva ficou na média das duas últimas décadas”, explica Renata Libonati, acrescentando que o fogo na Amazônia é resultado da ação humana. A professora do Departamento de Meteorologia explica que o avanço do desmatamento na região tem provocado mudanças climáticas tornando a temporada de seca mais intensa e mais prolongada. “Não é possível ainda prever como será o regime de chuvas nesta temporada mais seca, mas o aumento do desmatamento sempre indica mais queimadas”, acrescenta.

Ela frisa que a fumaça das queimadas carrega gases tóxicos que afetam os aparelhos respiratórios. “A queima de biomassa gera uma grande diversidade de gases e material particulado, com grande capacidade de transporte e dispersão. As condições atmosféricas determinam o alcance das nuvens de fumaça com material particulado e a concentração dos gases. No ano passado, uma nuvem de fumaça do fogo na Amazônia escureceu o céu de São Paulo”, lembra Renata Libonati.

Para a pesquisadora, a covid-19 está chegando a uma região onde a população já sofre com problemas respiratórias. “Em algumas regiões da Amazônia, as pessoas estão expostas à fumaça das queimadas por um longo período, quase duas décadas pelo menos. São pessoas mais vulneráveis a desenvolver a doença, o que merece uma atenção especial das autoridades de saúde”, destaca a professora da UFRJ, lembrando que pesquisa realizada em 66 regiões administrativas de quatro países da Europa (Itália, Espanha, França e Alemanha) indica que quase 80% das mortes foram registradas nas áreas mais poluídas. “Há uma previsível relação entre a qualidade do ar e a gravidade da covid-19”, comenta

A professora Renata Libonati acrescenta ainda que a temporada seca na Amazônia começa em maio e vai até outubro, quando recomeçam as chuvas. O incidência das queimadas começa a se intensificar em julho e tem seu pico em agosto e setembro. “Nossa pesquisa mostra que a combinação da temporada seca e queimadas é terrível para a saúde respiratória das pessoas. Com o avanço da covid-19 na Amazônia, temos uma situação de risco ainda mais grave para a população”, afirma a pesquisadora da UFRJ.

UTI de hospital de campanha em Manaus: temporada da seca provoca aumento de casos de doenças respiratórias e podem agravar situação de sistema de saúde já saturado pela pandemia (Foto: Alex Pazuello/S
UTI de hospital de campanha em Manaus: temporada da seca provoca aumento de casos de doenças respiratórias e podem agravar situação de sistema de saúde já saturado pela pandemia (Foto: Alex Pazuello/Semcom Manaus)

Crianças afetadas

A Fiocruz fez uma pesquisa semelhante sobre doenças respiratórias. Estudo coordenado pelo Observatório do Clima e Saúde, projeto do Instituto de Comunicação e Informação em Saúde (Icict), mapeou o impacto das queimadas para a saúde infantil na Amazônia e concluiu que, nas áreas mais afetadas pelo fogo, o número de crianças internadas com problemas respiratórios dobrou. Foram cerca de 2,5 mil internações a mais, por mês, em maio e junho de 2019, em aproximadamente 100 municípios da Amazônia Legal, principalmente nos estados do Pará, Mato Grosso Rondônia e Maranhão. A pesquisa da Fiocruz também indica que viver em uma cidade próxima aos focos de incêndio aumenta em 36% o risco de internação por problemas respiratórios.

De acordo com o estudo, cinco dos nove estados da região registraram aumento no número de morte de crianças hospitalizadas por problemas respiratórios. Em Rondônia, entre janeiro e julho de 2018, foram cerca de 287 mortes a cada 100 mil crianças com menos de 10 anos. No mesmo período, em 2019, esse número subiu para 393. Em Roraima, 1.427 crianças a cada 100 mil morreram internadas por problemas respiratórios, no primeiro semestre de 2018. No mesmo período de 2019, foram 2.398.  Nas cidades analisadas, houve um total de 5.091 internações por mês, quando o valor esperado seria de 2.589. Estes resultados sugerem um excesso de 2,5 mil internações de crianças nos municípios mais impactados pelas queimadas. Com base no perfil médio das internações de crianças por problemas respiratórios no SUS, estas internações teriam gerado um custo excedente de R$ 1,5 milhão e 9.750 leitos-dia de ocupação nos hospitais públicos e conveniados com o SUS.

No informe técnico divulgado quando o estudo foi concluído em outubro, os pesquisadores do Observatório Clima e Saúde destacam que, em 2019, foi observado um aumento de focos de queimadas e o desmatamento de áreas de ocupação recente – principalmente ao longo de estradas, além de parte de áreas protegidas e territórios indígenas.  O crescimento do desmatamento e das queimadas coincidiu com o aumento das internações. “A área do Arco do Desmatamento concentra a maior parte dos focos de queimadas e também as maiores taxas de internação por doenças respiratórias da região amazônica”, afirma o Informe Técnico – o Arco do Desmatamento é a área em que a floresta encontra região de agropecuária: vai do sul do Maranhão e norte de Mato Grosso até Rondônia, passando pelo sul do Pará e do Amazonas.

As conclusões do estudo sobre a temporada de seca e queimadas de um ano atrás são alarmantes ao imaginarmos a repetição dessas condições com a covid-19.  “As queimadas na Amazônia representam um grande risco à saúde da população. Os poluentes emitidos por estas queimadas podem ser transportados a grande distância, alcançando cidades distantes dos focos”, diz o informe técnico, lembrando que óbitos e internações são os aspectos mais evidentes das consequências do fogo na floresta, mas as queimadas também podem causar  limitações funcionais do sistema respiratório – além de outras doenças como cardiopatia, inflamação das vias aéreas, inflamação sistêmica e neuroinflamação. Apesar da pequisa de 2019 ter se concentrado nas crianças, o estudo afirma que “os impactos e efeitos da poluição atmosférica sobre a saúde humana afetam diferentemente os grupos etários, sendo mais suscetíveis à poluição as crianças e idosos, ou aqueles com doenças crônicas que são agravadas pela poluição”.

Na temporada ainda chuvosa, o Amazonas chegou a maio com mais de 10 mil casos e quase mil mortos pela covid-19: o estado tem a maior taxa de mortalidade do país (194 óbitos por um milhão de habitantes). No Pará, os casos passaram de cinco mil e o número de mortos chegou a 510. Estados da Região Norte também têm a maior taxa de infectados: o Amapá registra 2.600 casos oficiais a cada milhão de habitantes; o Amazonas vem logo atrás, com 2.437 contaminados por milhão; e Roraima aparece em seguida, com 1.684 casos por milhão de pessoas, segundo o Ministério da Saúde.  Antes de terminar esta reportagem, o Deter do Inpe registrou mais um avanço do desmatamento em abril (64% a mais de registros, em relação ao mesmo mês de 2019). E a temporada do fogo vem aí. Vou repetir Ane Alencar lá no começo: é alarmante e assustador.

Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Está de volta ao Rio após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. É criador da página no Facebook #RioéRua, onde publica crônicas sobre suas andanças pela cidade.

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