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Pesquisa no Acre descobre sete novas espécies de barbeiro

Inseto transmissor da Doença de Chagas é principal alvo de estudo de Laboratório de Medicina Tropical da Ufac


O professor Dionatas Meneguetti em trabalho de campo no Acre: descoberta de novas espécies de barbeiros transmissores da Doença de Chagas (Foto: Arquivo Pessoal)
O professor Dionatas Meneguetti em trabalho de campo no Acre: descoberta de novas espécies de barbeiros transmissores da doença de Chagas (Foto: Arquivo Pessoal)

Na Região Norte, doenças como a malária e a leishmaniose concentram o maior número de casos do país que tradicionalmente chamam a atenção dos especialistas em doenças tropicais. Entretanto, a região registrou um aumento no número de contaminação pela doença de Chagas e desbancou o Nordeste como principal área da doença. Com a região em alerta, o Laboratório de Medicina Tropical (LabMedt) da Universidade Federal do Acre (Ufac) está desenvolvendo pesquisas avançadas na área de doenças tropicais, que tem como frente principal a pesquisa com os triatomíneos, conhecidos como barbeiros, vetores da doença de Chagas.

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No Acre, o primeiro caso da doença foi registrado em 1988 – até 2013, os estudos somente haviam encontrado quatro tipos de barbeiros. Após a criação do laboratório LabMedt, em 2015, pelo professor  Dionatas Meneguetti, foram catalogadas na região um total de 11 espécies de barbeiros (Rhodnius robustus; Rhodnius pictipes; Panstrongylus geniculatus; Eratyrus mucronatus; Rhodnius montenegrensis; Rhodnius stali; Panstrongylus megistus; Rhodnius neglectus; Triatoma sordida; Panstrongylus lignarius; Panstrongylus rufotuberculatus).  O conhecimento das novas espécies facilita o tratamento e a cura.

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Quando a transmissão é vetorial e descoberta na fase aguda, a taxa parasitária é ainda pequena e dá para acompanhar. Agora, quando está na fase aguda por transmissão oral, a taxa parasitária é muito alta e, na grande maioria das vezes, infelizmente, é fulminante. Recentemente em uma inspeção na cidade de Cruzeiro do Sul, foram identificadas 12 pessoas com a doença de Chagas, metade delas evoluíram a óbito rapidamente

Dionatas Meneguetti
Coordenador do Laboratório de Doenças Tropicais da Ufac

A doença de Chagas, descoberta pelo pesquisador Carlos Chagas, pode afetar fígado, baço, intestino esôfago e coração – entre outras áreas, e seu desenvolvimento está dividido em duas fases: aguda e crônica. Na aguda, fase inicial da transmissão, são boas as chances de cura. Embora, na maioria dos casos, sequelas podem permanecer pelo resto da vida. Na fase crônica, depois que os parasitas desaparecem da corrente sanguínea, os sintomas podem aparecer até 30 anos após a transmissão e não há medicamentos para reverter o quadro que geralmente evolui para graves problemas cardíacos ou digestivos.

A transmissão da doença pode ser vetorial (direta), quando o contágio é realizado através do inseto barbeiro, ou oral (indireta), que é a mais comum, ocorrendo na ingestão de alimentos contaminados com o parasita Trypanosoma cruzi. O coordenador do Labmedt, Dionatas Meneguetti, explica: “Quando a transmissão é vetorial e descoberta na fase aguda, a taxa parasitária é ainda pequena e dá para acompanhar. Agora, quando está na fase aguda por transmissão oral, a taxa parasitária é muito alta e, na grande maioria das vezes, infelizmente, é fulminante. Recentemente em uma inspeção na cidade de Cruzeiro do Sul, foram identificadas 12 pessoas com a doença de Chagas, metade delas evoluíram a óbito rapidamente”.

Os insetos barbeiros, que são hematófagos (se alimentam de sangue), nascem sem o Trypanosoma cruzi, o parasita causador da doença de Chagas:  os insetos vão adquirindo os parasitas conforme vão sugando o sangue de animais. Em estudo realizado pelo LabMedt em Rondônia, foi observado que 70% dos insetos adultos estavam contaminados com o protozoário.

O pesquisador Dionatas Meneguetti com os insetos catalogados no laboratório: pioneiro no estudo de doenças tropicais no Acre (Foto: Divulgação/Ufac)
O pesquisador Dionatas Meneguetti com os insetos catalogados no laboratório: pioneiro no estudo de doenças tropicais no Acre (Foto: Divulgação/Ufac)

Contaminação pelo açaí

Os casos mais conhecidos de contaminação pelo T. cruzi são através do açaí, onde a transmissão é realizada no preparo da polpa. Até pouco tempo, acreditava-se que o congelamento da polpa por duas ou três semanas matava o parasita. Entretanto, estudos realizados recentemente mostraram que o açaí congelado forma uma camada de gordura ao redor do fruto, local onde os parasitas se acomodam e se mantém vivos. Por isso, ao buscar os parasitas dentro da fruta congelada, nada era encontrado.

Aqui é comum ver alguém com isopor vendendo açaí na esquina, feito na casa dele. Então se a fiscalização não é boa em empresas, imagina com essas pessoas? A grande maioria dos surtos que está ocorrendo aqui e em outros estados, vem de pessoas que tem sua produção no fundo da casa, muito artesanal. E, geralmente, os membros dessa família acabam adquirindo a doença

Dionatas Meneguetti
Pesquisador e coordenador do Laboratório de Doenças Tropicais da Ufac

A eficácia na eliminação dos parasitas se dá principalmente através do processo de pasteurização, mas o processo de branqueamento também é eficaz. O Brasil ainda não tem legislação específica quanto ao tratamento dos frutos. A responsabilidade é do Ministério da Agricultura, mas estados e municípios também deveriam se envolver na fiscalização das condições sanitárias, o que não acontece.

Para Meneguetti, o ideal seria adquirir açaí de uma empresa conhecida: “Aqui é comum ver alguém com isopor vendendo açaí na esquina, feito na casa dele. Então se a fiscalização não é boa em empresas, imagina com essas pessoas? A grande maioria dos surtos que está ocorrendo aqui e em outros estados, vem de pessoas que tem sua produção no fundo da casa, muito artesanal, e geralmente os membros dessa família que acabam adquirindo a doença. Muitas vezes eles não têm noção do que é a doença de Chagas. Ao verem a foto do barbeiro dizem: ‘Ah! Isso é comum, às vezes a gente faz o açaí e vê esses bichinhos boiando na água’. Pelo menos aqui no Acre, os casos que estão aparecendo não são relacionados às empresas que estão produzindo e vendendo o açaí”.

Embora as principais linhas de pesquisas sejam ligadas aos triatomíneos, por ser um problema local, o LabMedt também realiza outras pesquisas ligadas a medicina tropical. Há pesquisas sobre doenças transmitidas por mosquitos, como a malária e a leishmaniose, pesquisas de doenças envolvendo carrapatos, como a febre maculosa, e pesquisas com parasitas transmitidos por peixes da região.

A piscicultura tem um apelo muito forte em toda a região e a pesquisa com os peixes analisa parasitas comuns como tênias, nematoides (parentes da lombriga), solitárias e ectosparasitas (que ficam na parte externa do peixe). Este é o tipo de contágio comum em países como o Japão, onde o consumo de carne de peixe crua é amplo. Mas na região amazônica está se popularizando sashimis de peixes locais, aumentando a transmissão parasitológica.

O professor Dionatas Meneguetti no trabalho de campo: como praticamente todos os pesquisadores da Ufac são de outros estados, o desafio é formar uma geração de pessoas da região para estudar a região (Foto: Arquivo Pessoal)
O professor Dionatas Meneguetti no trabalho de campo: como praticamente todos os pesquisadores da Ufac são de outros estados, o desafio é formar uma geração de pessoas da região para estudar a região (Foto: Arquivo Pessoal)

Doenças neglicenciadas

O Acre é o estado que fica na extremidade ocidental do país, na fronteira com a Bolívia e o Peru. A dificuldade de acessar o estado por vias terrestres, o alto preço de passagens aéreas e sua grande distância dos estados mais populosos foram, por muito tempo, os principais fatores que dificultaram o crescimento das cidades do estado e seus avanços científicos.

Nós estamos na região amazônica e 90% das enfermidades que acometem as pessoas aqui são doenças negligenciadas, doenças parasitárias dentro da área da medicina tropical. E por que são negligenciadas se atingem 90% da população?

Dionatas Meneguetti
Coordenador do Labmedt

Praticamente todos os pesquisadores da Ufac são de outros estados. O LabMedt foi criado ao mesmo tempo do mestrado em Ciências da Saúde para tentar mudar esse quadro e formar pesquisadores de doenças tropicais do própria região. “Aqui somos pouco científicos, somos os pioneiros na maioria das linhas de pesquisa que desenvolvemos. Eu vim de Rondônia e aqui no Acre ninguém pesquisava sobre doença de Chagas ou sobre o barbeiro, eu fui o primeiro. Então ainda estamos formando massa crítica para os próximos 10, 20, 30 anos. Em Rondônia, a Fiocruz já está bem estabelecida com as pesquisas de malária e leishmaniose. No Amazonas, também há mestrado e doutorado em Medicina Tropical; e no Pará, tem o Instituto Evandro Chagas que já tem uma base crítica formada”, diz Meneguetti.

Editais como os da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Acre (Fapac) e CNPq ajudaram a formar o laboratório e a adquirir equipamentos. Para melhorar as pesquisas, os laboratórios de Imunologia e Parasitologia se juntaram ao LabMedt e, juntos, conseguiram criar uma estrutura de mais de R$ 2 milhões em equipamentos.

Conhecer a dinâmica das doenças tropicais é fundamental para sua prevenção e redução dos casos: é isso que o LabMedt busca realizar. Para o coordenador do laboratório, é fundamental que a Região Norte realize estudos específicos para as doenças que acometem essa área: “Nós estamos na região amazônica e 90% das enfermidades que acometem as pessoas aqui são doenças negligenciadas, doenças parasitárias dentro da área da medicina tropical. E por que são negligenciadas se atingem 90% da população?”, questiona.

Muito está sendo feito, mas ainda está longe de ser suficiente. O descaso e pouco investimento de décadas na região ainda impede o conhecimento de muitos casos que foram pouco estudados ou ainda são desconhecidos. “De vez em quando aparecem alguns exames diferentes que ainda não foram estudados, e não sabemos de onde vem. Tem muita coisa para estudar ainda”, afirma o coordenador do LabMedt. “Os parasitas são sentinelas ambientais, com o seu estudo é possível saber como está a qualidade e o equilíbrio do meio ambiente. Quando uma região tem somente um tipo de parasita, em grande quantidade, é porque está em desequilíbrio. Mas quando os parasitas estão equilibrados, encontrá-los é algo normal porque fazem parte do ecossistema”, acrescenta.

93/100 A série #100diasdebalbúrdiafederal pretende mostrar, durante esse período, a importância  das instituições federais e de sua produção acadêmica para o desenvolvimento do Brasil


Escrito por Barbara Lopes

Formada em Letras/Literaturas pela Universidade Federal Fluminense, carioca que não vai à praia, mas vive na floresta e na selva da cidade. Cursando graduação em Jornalismo na UFRJ. Acredita que a leitura e o diálogo transformam o mundo.

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